U2: Os 30 Anos de “The Joshua Tree”

Yucca brevifolia é uma árvore pertencente à família Agavaceae que cresce quase que exclusivamente no deserto de Mojave, nos Estados Unidos. Dizem que foi batizada por um grupo de mórmons que ao atravessar o deserto avistou a árvore, que por conta de sua forma peculiar de troncos e galhos, lhes fizeram recordar a passagem bíblica de Josué erguendo as mãos para o céu implorando a ajuda de Deus. E foi por conta do seu significado e contexto religioso, que a Árvore de Josué saiu do deserto de Mojave e foi parar na capa como título de um dos álbuns mais espetaculares da história, The Joshua Tree, da banda irlandesa U2.

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Lançado em 9 de março de 1987 pela Island Records, The Joshua Tree traz um som mais cru e pulsante – totalmente oposto ao clima experimental de seu antecessor, The Unforgettable Fire. Com grandes influências da música americana e irlandesa, o álbum também absorveu do caráter da “exploração” do território dos EUA. Somando esses fatores à viagem de Bono com sua mulher para a Etiópia – a qual, segundo o próprio Bono, foi primordial para as letras do álbum -, fez com que o disco viesse com um cunho sociopolítico muito forte e atemporal.

A América foi uma das maiores influências da banda, não apenas para a produção de The Joshua Tree, mas também para dar um novo foco para a banda – como por exemplo, deixar de lado a grande influência do punk e post-punk e se permitir um novo leque de opções sonoras, entre eles o blues. A América mítica descrita por James Baldwin e Bukowski e a América real, com sua política imperialista e ideologia quase que utópica, formaram uma teia de tendências e possibilidades para que o álbum fosse simples e complexo ao mesmo tempo. E assim foi.

 “Parece que nós fechamos um círculo desde quando as canções do The Joshua Tree foram originalmente escritas, com uma agitação global, uma política de extrema direita e alguns direitos humanos fundamentais em risco” – The Edge ao U2.com

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Um álbum que tem como suas três primeiras músicas Where the Streets Have No Name, I Still Haven’t Found What I’m Looking For e With Or Without You certamente já merece certo destaque e respeito. É fácil observar como parte da inspiração vem das ruas de Belfast, na Irlanda do Norte, onde a religião que a pessoa professava e seu poder aquisitivo ficava evidente pela rua onde ela morava. Imaginar isso num país que vivenciou um clima de guerra – com “domingos sangrentos” – entre católicos e protestantes, e o contraste que Bono presenciou em uma visita a Etiópia, deram origem ao abre-alas e terceiro single do álbum, Where the Streets Have No Name. Saída de uma demo gravada em vários takes pelo guitarrista The Edge antes de apresenta-la aos outros integrantes da banda, a canção tem um clima especial, principalmente se contar pela sua introdução com um instrumental sensacional.

“Uma história interessante que alguém me disse uma vez, é que em Belfast, sabendo em qual rua alguém vive, você pode dizer não só a sua religião, mas dizer quanto dinheiro eles estão fazendo – literalmente, por qual lado da rua que vivem, porque quanto mais você subir a colina, mais caras as casas tornam-se. Pode-se dizer quanto as pessoas estão ganhando só pelo nome da rua em que vivem de que lado da rua em que vivem. Isso disse algo para mim. E assim comecei a escrever sobre um lugar onde as ruas não têm nome.” Bono Vox.

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Seguindo temos I Still Haven’t Found What I’m Looking For, um dos maiores hits da banda e segundo single do álbum. Esta música também saiu de uma demo, só que dessa vez gravada pelo baterista Larry Mullen Jr. O riff característico de The Edge, juntamente com a bateria de Larry e o baixo de Adam Clayton, marcam uma das melodias mais belas da discografia da banda. Um vocal bem empostado do ainda jovem – porém maduro – Bono passa uma mensagem de profunda reflexão espiritual e um lado gospel muito forte. Isso fica mais evidente no próximo álbum da banda Rattle And Hum (1988), onde a faixa é gravada juntamente com um coral gospel no Harlem. Sem dúvida nenhuma, é emoção do início ao fim.

“A abordagem foi influenciada pela poesia dos Salmos, que eu sempre amei. Para mim, é muito parecido com o blues – onde o homem estava clamando a Deus. É como David declamando a Deus, ‘Onde você está quando eu preciso de você?’” Bono Vox.

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Em sequência temos a apaixonante With Or Without You, primeiro single do álbum. Essa música tem sua origem em demos gravadas durante a Unforgettable Fire Tour. Com uma base simples de guitarra que soa como sendo algo infinito, o casamento perfeito entre a linha de baixo e bateria que mais parecem batidas de um coração e uma interpretação vocal impecável. Nessa canção vemos um instrumental que começa calmo e vai crescendo em intensidade até ao clímax no refrão, onde vemos, mais uma vez, uma performance vocal marcante do Bono, que dá dramaticidade à letra.

Somente por esse trio de início, The Joshua Tree valeria muito a pena, porém após o começo mais lírico e espiritual, chegamos a Bullet the Blue Sky, outro destaque do álbum. Deixando de lado o romantismo e espiritualismo de suas anteriores, ela chega com um clima mais pesado. Certamente uma das músicas mais abertamente políticas da banda, sendo usada nas performances ao vivo para fazer duras críticas aos conflitos políticos e à violência. Ela foi originalmente escrita sobre a intervenção militar dos EUA na Guerra Civil de El Salvador, nos anos 80. Das baquetas de Larry Mullen até os vocais de Bono, nota-se um tom de certa raiva e indignação.

Running To Stand Still vem acompanhada de uma melodia delicada e de forte influência da musicalidade americana por ter um clima acoustic blues. É considerada uma espécie de continuação da música Bad, de The Unforgettable Fire e tem como inspiração um sério problema dos jovens de Dublin com heroína, mais especificamente em Ballymun, bairro onde Bono cresceu acompanhando tal realidade. Red Hill Mining Town nasceu inspirada numa greve, nos anos 80, do sindicato nacional dos mineiros na Inglaterra, que se tornaram opositores ferrenhos da Margaret Thatcher quando ela fechou várias minas alegando que não davam lucro. Isso causou um grande impacto econômico negativo para as famílias dos mineiros e gerou um dos conflitos civis mais polêmicos e amargos na Grã-Bretanha no século XX. E Bono captou na letra, com muita sensibilidade e poesia, a sensação de desgraça que cercou a morte das pequenas comunidades mineradoras.

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Contando com uma guitarra mais rápida de The Edge temos In God’s Country, sendo a faixa mais pop do álbum e com um refrão chiclete e de fácil assimilação.  Com um clima mais country, bons solos de guitarra e solos de gaita, além de bons vocais, temos Trip Through Your Wires. É, notadamente, outra música influenciada pelo mergulho do U2 nas raízes das canções norte-americanas. E, diferentemente das outras canções do álbum, a sua melodia não é carregada de efeitos, é mais simples, porém muito bela.

Gravada em apenas um take devido à carga emocional excessiva que afetava Bono, One Tree Hill marca um dos melhores momentos do vocalista como letrista. A canção foi uma homenagem a Greg Carroll, amigo de Bono, morto em um acidente de moto na Nova Zelândia, terra natal de Carroll. Exit chega com Adam Clayton ditando um clima sombrio com seu baixo enquanto que Bono canta quase que sussurrando. Na medida em que Bono vai elevando o tom de voz, surge a bateria de Larry Mullen junto com um riff inconfundível de The Edge. A letra, que retrata a mente de um serial killer, foi inspirada no livro de Norman Mailer chamado The Executioner’s Song. Nessa canção, o U2 criou um textura cinematográfica densa e sombria para descrever a mente de um assassino. Sobre ela o Bono disse: “É sobre a história de um homem religioso que se tornou um homem muito perigoso, quando ele entendeu mal… As mãos do amor”.

Fechando o álbum temos Mothers of the Disappeared. Uma obra-prima do U2. A letra foi inspirada nas experiências do Bono na Nicarágua e em El Salvador, nos anos 80, após o envolvimento de U2 na turnê A Conspiracy of Hope, organizada pela Anistia Internacional. Nessa época, Bono conheceu a história das Madres de Plaza de Mayo, um grupo de mulheres cujos filhos estão “desaparecidos” por causa das ditaduras argentinas e chilenas. Enquanto na América Central, ele conheceu membros da COMADRES, uma organização similar cujos filhos haviam sido desaparecidos pelo governo em El Salvador. Uma das músicas mais leves – e confortantes – já feitas pela banda e uma maneira para encerrar um disco com a grandeza de The Joshua Tree em grande estilo.

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The Joshua Tree mostra um U2 que provou com The Edge que o rock pode ser feito sem as guitarras rápidas e pesadas. Baterias complexas não são necessárias quando se tem Larry Mullen empunhando as baquetas e acompanhando as músicas de uma maneira ímpar. Adam Clayton imprimindo todo sentimento, leveza e emoção em linhas de baixo muito simples e os vocais simultaneamente potentes e agudos de um Bono que, mesmo que ainda jovem, já carregava a maturidade de ser o frontman de uma das maiores bandas do mundo. Se ainda havia algum tipo de dúvida sobre a capacidade musical do U2, isso caiu por terra após o lançamento de The Joshua Tree, que talvez tenha sido o grande lançamento dos anos 80, e que com certeza não pode faltar na sua estante de maneira alguma.

*Além de pesquisas realizadas em diversos sites e materiais próprios, devo destacar a suma importância da série de textos “Especial The Joshua Tree” do site u2br.com que teve alguns trechos extraídos para a construção desse texto.

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Do cult popular ao pop culto: PontoJão é o lugar para você ir além do senso-comum. Seu ponto além da curva.