Operação Red Sparrow (2018) – a ousadia para se tornar relativamente comum

“Sedutora, enganosa e mortal.” . Três palavras usadas para definir a personalidade de Dominika Egorova, a nova face de Jennifer Lawrence (“Mãe!”) em um grandioso e surpreendente thriller de espionagem chamado “Operação Red Sparrow” – mas não tanto assim. Como disse antes, JLaw está de volta, agora no corpo de uma ex-bailarina que foi “recrutada” por Ivan (Matthias Schoenaerts), que é seu tio, para assumir a cruel responsabilidade de se tornar uma Sparrow – uma agente que tem como principais armas a sensualidade, seu corpo e sua frieza. Mas mesmo trazendo algumas propostas bem interessantes, o longa vacila por optar em deixar o seu maior diferencial como pano de fundo.

Título: Operação Red Sparrow (“Red Sparrow”)

Direção: Francis Lawrence

Ano: 2018

Pipocas: 6,5

Trabalhando mais uma vez com a eterna Katniss, Francis Lawrence decide prosseguir no cinema de adaptações literárias, mas com um tema bem mais pesado que crianças se matando anualmente em um reality show enquanto milhões de pessoas assistem a atração no conforto de suas casas – ou no que resta para elas. Ele realmente tem um gosto bastante simplista para literatura. Mas em ambas as situações temos uma ligeira semelhança: o contexto apresentado ao redor das histórias parece conter um peso muito maior do que a narrativa em si.

Em “Operação Red Sparrow” todo o chamariz que trouxe o publico para este filme foi usado apenas como um ponto de mudança na vida da personagem, o que definitivamente não tirou o peso criado por toda a transformação de Dominika em uma Sparrow, mas que chega a decepcionar quando todo o treinamento acaba e a história se mantém fixa em explorar um jogo duplo e suas reviravoltas. Claro que na franquia Jogos Vorazes todo o acompanhamento e background da história servem para impulsionar o arco da protagonista, mas, dessa vez, ficou devendo um pouco.

Como em todo jogo de desilusão, sempre encontramos altos e baixos e durante parte do filme é difícil saber onde estamos exatamente. Isso se dá pela forma como acompanhamos Dominika, sendo uma mulher muito determinada, com uma mãe doente para cuidar e a possibilidade de ser morta caso se recuse a seguir as ordens dadas, ela possui razões muito fortes para justificar as suas ações naquele contexto. Mas, em diversos momentos, não fica muito claro para nós, telespectadores, o que realmente está acontecendo com ela. O filme caminha por muitas decisões que somente fazem sentido na cabeça da personagem, porque nos momentos em que elas são tomadas nós não entendemos o motivo necessariamente naquele instante. Essa é uma manobra bem bacana para manter o suspense no ar, especialmente quando bem feita.

“Operação Red Sparrow” começa a se tornar mais divisivo a partir da metade. Com 2 horas e 20 minutos de filme, aproximadamente, e por escolher trabalhar muito mais os conflitos pessoais sem precisar ousar com cenas de ação, aqueles que procuram um ritmo mais frenético a esse ponto já devem estar desistindo de seguir o fluxo do filme. E se lembrarmos que, associada a trama principal, ainda temos uma segunda trama complementar, apresentada por Nate Nash (Joel Edgerton), o negócio realmente fica meio longo.

Agora que vamos falar um pouco das atuações, podemos entrar em um dos temas mais chamativos desse filme: a sexualidade. Se pararmos o texto por um momento e procurarmos pelo trailer de “Operação Red Sparrow” vamos notar que existe um grande apelo em torno da sexualidade nesse filme, afinal, Sparrows resumem boa parte das suas abordagens em cima disso. Podemos dizer que nada é gratuito e sempre existe uma consequência, por menor que seja, na utilização dessa sexualidade.

Isso é bom, especialmente se encararmos duas interpretações que essas cenas poderiam ter para o grande público: a primeira poderia refletir uma possível relação com a potencialização do desejo carnal e da exclusividade do domínio do próprio corpo, atribuído somente a quem é dono dele ou a quem o corpo foi sujeitado pelo próprio desejo da pessoa a quem ele pertence – que poderia remeter a uma ideia de empoderamento; e a segunda interpretação, seguindo um caminho mais cru, poderia potencializar a ideia da objetificação do corpo humano como apenas um objeto de prazer. Reforçadas, ainda, por uma atuação bastante controladora e convincente de Jennifer, as cenas ganham em peso, tanto nos momentos de sensualidade quanto nos mais dramáticos também.

Operação Red Sparrow

“Operação Red Sparrow” tem sim boas qualidades e soube ousar nas cenas onde a sensualidade deveria ser a principal protagonista. Ao escolher um ritmo mais lento e focado, em determinados momentos, a seguir nos detalhes para surpreender no final, o filme passa a desinteressar para muitos e se complica um pouco. A direção é muito eficiente e mescla a beleza de grandes enquadramentos com a crueza da violência, que tornava a dar as caras. Poderia ser melhor? Poderia. Mas ainda assim vale a pena dar um voto de confiança, mesmo que ele não seja dos mais generosos.

 


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Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.