“Tosca”, violência, legendas e o público: (para quem) a ópera ainda existe?

Ópera. Só de falar a palavra, imagens já nos vêm à mente: gente rica, sentada em lugares caríssimos de teatros chiques, usando roupas de gala e portando pequenos binóculos para ver cantores internacionais falando o que está acontecendo no palco em italiano. Sob este prisma – correto em vários aspectos -, enxergamos a ópera como uma reminiscência do passado que simplesmente não casa mais com o presente; não parece fazer sentido haver esse tipo de entretenimento em pleno século XXI. Tudo bem que é em 3D, mas cadê as explosões? Cadê os roteiros bem trabalhados, plot twists e umas cenas de violência? E talvez a pergunta mais importante: para quem a ópera ainda existe?

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Cartaz original de “Tosca”, ópera de Giacomo Puccini.

Vamos em partes. Recentemente, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro exibiu a ópera Tosca, de Giacomo Puccini. Em três atos, eu pude me impressionar com a primeira ópera que vi na minha vida (e a primeira vez que entrei em um teatro que não fosse de uma faculdade). Eu esperava o que me vendiam nos filmes: pessoas com vestidos de festa que provavelmente não viam a luz do dia há meses e muita gente de nariz empinado fingindo apreciar algo que dificilmente entendiam. Da minha parte, eu só queria a experiência: sabendo que grande parte das óperas foram escritas – e são performadas – em italiano, só queria ver como seria o espetáculo mesmo.

Ao chegar lá, a ópera tinha legenda.

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Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Este fato é extremamente relevante ao entendermos as implicações dele. Se no passado as pessoas de fato iam para a ópera somente como um sinal de status e para, na melhor das hipóteses, testemunhar uma forma de arte a qual poucos de nós ao menos entendemos o que está acontecendo, agora a ópera tem legenda. Passando no alto, acima dos atores, a legenda em português tornou a obra imediatamente acessível para um grupo maior, e não só para as pessoas que… Bem, são fluentes em italiano.

Claro que isso, por si só, não torna a ópera de fácil acesso para a população como um todo, e nossa pergunta se mantém como “para quem a ópera ainda existe”. O custo pesa; podendo chegar a centenas de reais – além do transporte até o local -, não é exatamente um passeio família. Isso, também, está sendo visado no momento atual desta arte, sendo um motivo pelo qual a ópera ainda existe no Brasil e no mundo. Embora as galas milionárias de Viena ainda existam, há pessoas como o diretor artístico do Theatro Municipal, André Heller-Lopes. A frente da programação do Municipal, André já veio à público diversas vezes para declarar seu posicionamento sobre o alcance da arte expressa no Theatro em relação à população:

O objetivo meu e do presidente do Theatro Municipal, André Lazaroni, que também é Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, é ajudar o teatro a ser autossustentável, mais livre para poder oferecer sua arte. Não somente trazer o público de volta ao Municipal mas também mostrar que este Theatro está no coração de todos, aberto a todos. Obras que todo mundo deve ter a oportunidade de conhecer, feitas com a qualidade e criatividade do TMRJ.

Isso não é só demagogia para italiano ver. É do Municipal a proposta do “Domingo a R$1”: em uma data específica da apresentação, todos os ingressos – inclusive aqueles “de honra”, de frente para o palco – custam o valor simbólico de um real, para que o público como um todo – de verdade – tenha acesso às obras apresentadas no Theatro Municipal. Diversas apresentações, como La Tragédie de Carmen Tosca, tiveram seu dia a um real – e não naqueles horários mequetrefes, de terça-feira de manhã, mas domingo à noite, para que o Municipal realmente seja uma opção viável de fonte de cultura e entretenimento. Nos demais dias, é possível encontrar lugares até por R$15,00 – mais barato do que muitos cinemas e a maioria das partidas de futebol.

Fim da apresentação de “Tosca” à qual eu fui.

Ainda assim, continuamos nos perguntamos se ainda existe ópera. Nossos resquícios de dúvida quanto à viabilidade dessas peças no nosso contexto atual se dão exatamente pela desconexão que as obras têm com a sociedade atual. Se muitas vezes é difícil assistir um filme feito há 50, 60 anos – e o cinema é uma mídia com a qual temos contato constante -, assistir uma ópera com gente cantando o que está fazendo naquela hora – os recitativos -, com belíssimos versos como “tragam meu jantar!” – e sopranos indo em tons que achávamos que somente cães conseguiam escutar enquanto declamam suas emoções – nas árias -, parece ser quase impossível se conectar com uma ópera no século XXI. Mas há esperança.

Tomemos Tosca, de Puccini, como exemplo. Angelotti, um fugitivo e rebelde contra o governo vigente de Roma, vai atrás de seu amigo, o pintor Mario Cavaradossi, para procurar refúgio. Isso faz com que a atenção de seu perseguidor, o sinistro chefe de polícia Barão Scarpia, se volte para Cavaradossi e sua amada Floria Tosca. Entre cenas de tortura visíveis para o público – com direitos a gritos desesperados, mas perfeitamente afinados -, tentativas de estupro e plot twists com mortes bizarras ao longo e ao final da peça, Tosca poderia facilmente se tornar um filme de thriller ou suspense passado no dia de hoje – não fosse, é claro, o pessoal cantando o tempo todo.

Isso se dá porque clássicos são clássicos por um motivo. Livros como “Laranja Mecânica“, filmes como “O Exorcista” e álbuns como “Thriller” são clássicos não (necessariamente) por seu formato ou especifidades narrativas; independente do impacto para suas respectivas áreas, um clássico o é por causa de seus temas e conteúdos atemporais. No lançamento de Tosca, em 1900, a crítica torceu o nariz para o conteúdo polêmico do texto da ópera – o libretto -, enquanto o público (claro) adorou. Tosca rodou o mundo, fez história e até hoje é uma das óperas mais assistidas e interpretadas.

Então, voltamos à pergunta inicial: (para quem) ópera ainda existe? Nem sempre de fácil acesso, e com uma linguagem que pode soar desatualizada, ainda existe ópera para aqueles dispostos a procurar e relevar as diferenças que podem interferir na comunicação entre a obra e o público. Como mencionado anteriormente, a ópera funciona muito como um filme antigo: se ainda está sendo interpretada há tanto tempo, há um valor inerente à obra que vale ser visto – e julgado como bom ou ruim por parte de quem vê, como qualquer outro produto cultural. O mais importante é não nos privarmos de ter contato com novas mídias e formatos por preconceito. Se há a dúvida, vá e veja. Quem sabe você não se descobre um fã de ópera não só para o Instagram, mas para sua própria apreciação?

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.