Okja (2017), Teoria Malthusiana e a cultura do consumo de carne

Em 1789, o economista Thomas Malthus publicou o “Ensaio Sobre o Princípio da População”. Neste volume, Malthus dissertou acerca dos fatores que controlam o crescimento populacional, dos problemas gerados por esse crescimento e de alternativas para a resolução destes problemas, obviamente com possibilidades limitadas pela tecnologia e conhecimento disponíveis na época. Em 2016, a Netflix lançou “Okja”. O filme retrata a amizade entre Mija, uma menina interiorana da Coréia do Sul, e Okja, uma “superporca” dada ao avô de Mija. Okja é um dos animais distribuidos a fazendeiros de todo o mundo pelo programa de superporcos lançado por uma multinacional. O programa consistia na análise do desenvolvimento dos animais em territórios distintos.

okja

Título: Okja

Diretor: Bong Joon-ho

Ano: 2017

Pipocas: 8/10

 

O filme é recheado por um discurso ambientalista evidente. A crítica recai nas condições “desumanas” com que são tratados os animais de abate durante todo o processo de “cultivo”. Das modificações genéticas que visam o melhoramento das condições de consumo da carne em detrimento da saúde do animal, à dependência capitalista em que se encontra a geopolítica hoje, “Okja” não mede esforços para ilustrar a ganância cultural que caracteriza essa indústria.

Para entender o grande desafio presente em “Okja”, precisamos voltar a 1789. Para Thomas Malthus. A Teoria Malthusiana diz que a população mundial cresce em progressão geométrica, enquanto a produção alimentícia cresce em progressão aritmética. Isso significa que em algum momento do futuro daquele presente (1789), o mundo superpopuloso sofreria com a escassez de comida. Thomas Malthus, porém, não esperava que décadas mais tarde a Revolução Industrial implicasse na mecanização da produção agrícola e na sistematização da produção de alimentos. Dessa maneira, o futuro catastrófico imaginado pelo economista foi relegado a uma linha temporal alternativa.

Em “Okja”, Lucy (Tilda Swinton) se utiliza de um princípio parecido para alavancar a popularidade do projeto dos superporcos. Como alternativa para o combate da escassez de comida, a “descoberta” da nova espécie resolveria a questão da fome no mundo sem a necessidade dos alimentos transgênicos, malvistos por parte da sociedade. Além disso, transformar o desenvolvimento dos animais em um reality show serviria para acalentar os ânimos de possíveis opositores, pois demonstrava que os animais recebiam um tratamento “humanizado”.

A relação entre Mija e Okja é algo bonito de ser ver. Por serem animais fantásticos, Okja e os outros superporcos são muito humanos. Os primeiros minutos de filme são reservados justamente para mostrar o quanto Okja é consciente e a extensão da sua “humanidade”. Nesse quesito, é louvável o trabalho de computação gráfica. Apesar de, em alguns momentos, Okja contrastar bastante com os elementos ao redor, as expressões de tristeza, alegria, curiosidade, medo etc., são muito bem feitas. Okja tem o corpo de um hipopótamo e a expressão facial de um cachorro doméstico.

Como dito anteriormente, o filme não poupa esforços para enfatizar a negatividade do processo de produção de gado. A partir do momento em que a superporca é capturada, é dado início a um show de horrores, mais uma vez acentuados pelas reações sentimentais de Okja. Pôr dois animais em confinamento para acasalarem é comum, mas se eles têm consciência do que está acontecendo, isso é uma violência? Ou é uma violência mesmo que ajam por instinto?

Outro ponto que vale ser mencionado é o consumo pela cultura. Assim como na Índia o consumo de bovinos é mal visto por conta da santidade dos animais, o tratamento de Okja como gado é condenado porque Mija tem com ela uma relação de afeto – tanto que, no terceiro ato, salvar Okja é um desejo maior (de todos os defensores dos animais) que salvar todos os superporcos. Qual a diferença prática de matar e comer uma vaca, para matar e comer um cachorro?

Todos os aspectos que compõem o filme servem a o propósito de transmitir a mensagem ambientalista. Okja sai da linguagem documental de produções como “Food Inc.” e “Cowspiracy” –  e certamente em teorias como a Malthusiana (ou Neomalthusiana) – para levar ao público uma história envolvente sobre temas de extrema relevância.

 


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Leandro Bezerra

Além de vários tracinhos em um JPEG, editor e redator no PontoJão, sou um quase professor de inglês, quase marketeiro, campeão de Yu-Gi-Oh e xadrez infantil, leitor de qualquer coisa que não seja muito realista e um serumaninho quase legal.