Radiohead: OK Computer (1997) – Hey, idiota! Mais devagar

Uma influência evidente para bandas distintas (de Dream Theater a Muse), o Radiohead é um daqueles grupos sobre os quais é simplesmente impossível ficar indiferente. Ou as pessoas não suportam o tom melancólico de suas letras, instrumentação densa e a voz sussurrada de Thom Yorke, ou adoram tudo isso — e em alguns casos com receio de gostar demais da banda. É dessa forma que chegamos ao dia 21 de março de 1997, data do lançamento de OK Computer, um dos discos mais famosos e relevantes da banda.

OK Computer
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Esse foi o terceiro disco da carreira da banda e ele foi o primeiro auto-produzido pelos membros com o auxílio de Nigel Godrich. OK Computer tem ideias centrais e um fio que conduz o ouvinte por suas canções, porém, a própria banda afirma que esse não é um disco conceitual. Da capa até o último minuto, o que acontece é uma profunda crítica à sociedade moderna e aos seus males — alienação, consumismo, superficialidade nos relacionamentos. Não há do que duvidar, ao ouvir OK Computer, a última coisa que um ser humano conseguirá sentir é alegria de viver.

Um dos principais objetivos do álbum era se diferenciar dos lançamentos anteriores da banda. Yorke, o principal letrista do Radiohead, disse que, ao contrário do olhar lançado para dentro nos outros dois discos, a ideia de OK Computer é olhar para fora e perceber as coisas num movimento excessivamente acelerado. Várias das letras foram compostas inspiradas em situações cotidianas que Yorke retrataria como se fosse um diário com sua Polaroide.

Com tudo isso em mente, vamos passar pelo disco faixa a faixa.

OK Computer

Airbag 

A música abre o disco com uma sonoridade atmosférica, já jogando o ouvinte para dentro daquilo que o álbum irá oferecer ao longo de todas as canções, variando entre coisas mais aceleradas até climas mais densos. Destaque nessa música (e no disco todo) para a ambiência criado por “barulhos” que ficam por trás dos instrumentos. Além disso, os próprios timbres usados na canção já preparam os ouvidos para o experimentalismo que ocorre em todo o disco.

Paranoid Android

A música mais longa do disco tem como inspiração para o seu título um personagem de Douglas Adams, mostrando uma característica muito interessante desse disco, as referências extra-musicais. Em relação ao som, a música é bastante progressiva com várias passagens nada óbvias (instrumentalmente inclusive) e vários climas diferentes. Quase uma Bohemian Rhapsody mais obscura.

Subterranean Homesick Alien

Prosseguindo nas referências, essa canção faz uma menção direta a Subterranean Homesick Blues de Bob Dylan. Novamente, temos uma atmosfera muito forte, um clima quase etéreo que nos transporta para dentro das frases de guitarra que, junto com a bateria constante, soam hipnotizantes.

Exite Music (For a Film)

Um momento memorável do disco, seja pela melancolia extrema da canção, sua grandiosidade ou pelo fato de Thom Yorke parecer um daqueles contadores de história macabros com um violão na mão. A canção foi um pedido de Baz Luhrmann para o filme Romeo + Juliet, logo, a história triste da canção nada mais é do que uma trilha para o apressado romance shakespeariano que acaba de maneira trágica.

Let Down

Outro momento muito marcante do disco. A expressão “let down” em inglês quer dizer algo como “decepção” ou “decepcionar”. Yorke teve a ideia para a sua composição quando, num clube, imaginou as pessoas que estavam bebendo penduradas em suas garrafas enquanto o chão abria. A letra ainda versa sobre o excesso de sentimentalismo do homem moderno e como isso pode ser algo extremamente artificial.

Karma Police

Uma das faixas de maior sucesso não só do disco, mas da banda. Divida em três momentos, os dois primeiros se revesam algumas vezes até que o terceiro surja num crescendo marcante.

Fitter Happier

Definitivamente, a “música” mais triste do disco (talvez da história moderna da música). Um tema de piano é tocado enquanto alguns sons são reproduzidos e uma voz robótica recita um texto que Yorke diz ter ficado feliz de não precisar gravar. Fitter Happier é uma crítica direta a como a vida moderna é conduzida de maneira artificial e em prol dos objetivos errados.

Electioneering

Essa é, talvez, a música mais “rock” do disco. Sua levada acelerada tem bons riffs de guitarra e, no meio, um solo interessante. A letra da música é uma crítica direta à política e como ela trata o eleitorado de maneira fria: são apenas votos usados para que político se eleja e, cada pessoa, não representa mais do que um número que os ajude a conquistar a posição desejada.

Climbing up the Walls

Com clima denso e arrastado, possui sons extremamente agradáveis de se ouvir. Talvez essa faixa, e a próxima, mostram uma tendência nesse disco: falar de coisas muito sérias, reais e deprimentes, de uma maneira doce e com uma harmonia extremamente bem feita ao fundo.

No Surprises

Outra canção que fez um tremendo sucesso. Sua melodia leve e que lembra cantigas de ninar acompanha uma letra que trata de depressão suicídio. Perguntado sobre a faixa, Yorke disse que se trata de uma pessoa que tem passado por muita coisa e não está lidando bem com absolutamente nada. Nesse sentido, sobram críticas ao estilo de vida adotado por muitas pessoas e também ao governo.

Lucky

Essa foi a primeira música composta nesse disco. Originalmente ela foi feita para um projeto beneficente, um disco lançado em conjunto com outros artistas para ajudar vítimas de guerra. Ela também foi a porta de entrada para Nigel Godrich, que produziu a canção para a coletânea mencionada e depois quis muito trabalhar com a banda.

The Tourist

A faixa fecha o disco com o resumo de sua mensagem como um todo: “idiot, slow down“. Yorke diz que começou a composição a partir dessa frase enquanto observava turistas americanos em Paris correndo de um lado para outro para verem o maior número de atrações  possíveis.

Isso tudo fecha a ideia do disco como um todo, que tem na figura do computador todos os malfeitores da humanidade da era moderna. Contudo, em vez de lutarmos bravamente contra isso, o que fazemos é lançar um subserviente “OK”. O tom de resignação do disco ainda é muito atual e uma pessoa de qualquer geração que tenha vencido minimamente a alienação dificilmente passará incólume por ele.

Nota: 10/10
Aumenta o volume: Exit Music (For a Film), Let Down, No Surprises, Climb up the Walls
Abaixa o volume: do mundo enquanto você ouve essa obra de arte

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