Occupy Avengers: um Gavião Arqueiro para o nosso mundo

Já se vê, desde o título, que “Occupy Avengers” (2016-atual) é uma série de quadrinhos que busca se localizar em um momento específico da nossa história. Se a referência ao movimento Occupy Wall Street não for óbvia suficientemente no nome, o subtítulo da revista entrega seu objetivo: “tomando a justiça de volta”. Com uma trama que coloca o Gavião Arqueiro em um nível de justiça urbana de caráter social, “Occupy Avengers” é mais do que uma revista para o nosso tempo: é uma revista pedestre para o nosso mundo.

occupy avengers
Já vale notar que, na capa, temos um grupo claramente diverso.

No título, Clint Barton – também conhecido por ser o Gavião Arqueiro, integrante dos Vingadores – acabou de matar o Hulk/Bruce Banner por pedido do mesmo. Como resultado, Barton foi à julgamento, sendo absolvido pela justiça, mas ostracizado pelos outros herois, e deixado de lado mesmo pelos seus companheiros de equipe. Por outro lado, sua ação recebeu muitos elogios por parte do povo, que via no Gigante Esmeralda uma ameaça, com seus rompantes súbitos; para o grande público, o Gavião Arqueiro matar o Hulk foi excelente para a sociedade.

Barton, obviamente, não se sente assim; a ideia de ter tirado a vida de seu amigo, mesmo que à pedido dele, o atormenta, e ele acha consolo se refugiando no que sabe fazer de melhor: ser um heroi. Longe dos grandes conflitos cósmicos e titânicos que os Vingadores enfrentam, Barton vai para as ruas, e o primeiro arco da história nos mostra o Gavião Arqueiro tentando descobrir a origem da contaminação da água de uma reserva indígena.

Embora mundano, o roteiro de David F. Walker não nos deixa esquecer do histórico do Gavião Arqueiro, e revela inclusive que o heroi considera aquele problema, se não mais difícil de ser resolvido, pelo menos mais grave.

Thanos é formidável, mas ele não é um reservatório de água contaminado.

Os traços do ilustrador espanhol Carlos Pacheco é clássico do estilo comics, mas serve para transmitir de forma efetiva, mesmo que pouco inspirada, as ideias de Walker. Com uma fluidez boa, a revista é agradável de se ler, e a história passa rápido, nos levando à próxima edição com facilidade.

A ideia de incluir os prejudicados pela sociedade à frente do poder se materializa ainda nas primeiras edições com a inclusão de Red Wolf (“Lobo Vermelho”, em tradução livre ) ao lado de Barton para o caso da água contaminada, e ganha em escala quando os dois saem do interior estadunidense e ganham as metrópoles. Com o apoio da sociedade, que enxerga em Barton o modelo que os outros herois não veem mais.

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“Mas o caso / é que armas são impessoais, facas são brutais / mas uma flecha… É elegante.”

Occupy Avengers” não traz uma proposta nova – o Arqueiro Verde, da DC Comics, também se tornou um heroi social desde o começo da iniciativa Rebirth -, e nem conta a história de maneira inovadora. No entanto, traz uma história interessante e uma nova perspectiva para um personagem que sempre pareceu deslocado, com seu arco e flecha em meio às capas e lasers de alma – como ele mesmo apontou em “Os Vingadores – A Era de Ultron“.

Em 2011, o distrito financeiro de Manhattan foi ocupado por pessoas que viam em Wall Street e a ganância do 1% mais rico da população a raiz de todos os males. Da mesma forma, o título de “Occupy Avengers” promete que o povo vai tomar o poder de decisão e julgamento que os herois têm guardado para si – como e em qual escala isso se dará, ainda não sabemos. De qualquer forma, vale continuarmos a nos apropriar das revistas do Gavião Arqueiro para saber se a ocupação do povo – e a tomada do poder, em todos os seus sentidos – será bem-sucedida, em ideia e execução.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.