Como as obras de Graciliano Ramos podem nos ajudar a escrever?

É comum para quem lê muito também gostar de escrever. Assim, as obras de Graciliano Ramos podem trazer alguns ensinamentos que certamente ajudam a desenvolver certos aspectos da escrita, além de aprimorar determinadas características. Nascido em Alagoas, o escritor nordestino teve uma produção literária intensa e deu vida a livros marcantes da nossa literatura, como Angústia, Memórias do Cárcere e, o mais famoso, Vidas Secas.

Obras de Graciliano Ramos

Apesar de os cenários serem muito importantes nas obras de Graciliano Ramos, o objeto principal do autor é o ser humano e os seus impasses, sejam eles a dificuldade do sertanejo para se comunicar e a influência negativa disso em sua forma de viver, ou os dilemas do homem da cidade que não está totalmente habituado às burocracias e códigos sociais em constante transformação da metrópole.

As experiências do autor nas Obras de Graciliano Ramos

Podemos extrair daí uma primeira lição para incorporarmos à nossa escrita. Como nordestino, Graciliano, apesar de nunca ter sofrido diretamente com a seca, viu de perto as suas ações. Além disso, quando se mudou para o Rio de Janeiro (capital do país, à época), sofreu com o choque de se ver em mundo bem maior, com outras rotinas e procedimentos. Ainda sobre escrever sob o próprio ponto de vista, vale lembrar que Memórias do Cárcere é uma coletânea de relatos feitos pelo escritor ainda na cadeia, quando foi preso acusado de envolvimento com o Partido Comunista.

Há quem ache que isso possa limitar a criatividade e comprometer o resultado final, contudo, Graciliano responde: “Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferentes, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.”. 

Obras de Graciliano Ramos

O tamanho das obras de Graciliano Ramos

Em sua última entrevista, o repórter diz que quem via Graciliano seria capaz de jurar que o escritor daria a vida por um bom papo. Isso é um erro. Assim como a maioria de seus personagens, o autor de Vidas Secas foi um homem de poucas palavras. Isso, naturalmente, influenciava seus títulos (sempre muito rápidos) e o tamanho de suas obras. Quase nada de Graciliano Ramos passa muito das 350 páginas. Essa é uma característica extremamente benéfica para o escritor. A concisão nos obriga a nos ater apenas ao que é extremamente necessário para que a história aconteça sem barrigas.

Mas não se engane, como os vários professores de Língua Portuguesa que indicam os livros de Graciliano para alunos ainda muito imaturos para as obras. O fato dos livros não serem grandes não significa que eles não sejam complexos e trabalhosos para serem lidos. Em diversos momentos, o alagoano nos desafia com suas imagens, metáforas e vocabulário. Tudo isso torna a leitura de Graciliano Ramos um desafio.

obras de Graciliano Ramos

Vocabulário

Devorador voraz de dicionários, o escritor nordestino acreditava que dicionários não eram meras ferramentas de pesquisa, mas deveriam ser lidos, analisados com profundidade e estudados com atenção. Naturalmente, aqui e ali, Graciliano encontra palavras inusitadas para descrever das coisas mais banais até os objetos, fatos, ideias e sentimentos mais absurdos. Um bom vocabulário pode credibilizar a leitura além de fazer com que ela seja mais fluida e variada. Porém, o dicionário não é tudo. Como bom nordestino que era, o autor sempre se valia de termos regionais que ele atribuía ao Caboclo de verdade — o Nordestino.

Por fim, apesar de extremamente conciso e, por vezes, técnico e seco, Graciliano Ramos sempre dava um jeito de falar de uma maneira muito profunda sobre a natureza de seus personagens. Assim sendo, a obra do autor apresenta um delicioso paradoxo entre a desgraça da secura e a vastidão do pensar e sentir das pessoas mais variadas.

 

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.