O Vendedor de Passados

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Livro: O Vendedor de Passados

Autor: José Eduardo Agualusa

Ano: 2004

Editora: Gryphus

Não é surpresa que desde os não tão longínquos tempos de Resenhas.Jão eu gosto do que vem sendo produzido na literatura africana de língua portuguesa. Ainda naquela época já tinha escrito sobre o excelente Outro Pé da Sereia de Mia Couto (autor moçambicano). De lá pra cá, li mais algumas coisas dessa riquíssima (e novíssima) literatura e ainda não me decepcionei, embora não tenha podido ler o tanto que quis (o fantasma da faculdade de Letras que não me deixa ler ainda me assola, mas por pouco tempo, – espero!).

Agualusa
José Eduardo Agualusa

Enfim, José Eduardo Agualusa é uma voz angolana dentro dessa recente literatura africana e o livro dele que comentarei brevemente aqui é O Vendedor de Passados. Acredite-me, um livro tão instigante quanto seu título.

O livro trata da história de um cidadão angolano albino, Félix Ventura, que se auto-denomina um genealogista, contudo, em outras palavras, o que ele faz é vender passados. As pessoas o procuram para que ele lhes reinvente, dando-as uma nova árvore genealógica, uma nova trajetória de vida, um novo nome, uma nova identidade e portanto uma nova história. Em meados do livro, a história de dois clientes de Félix começa a se entrelaçar de maneira peculiar, culminando num clímax tão interessante quanto necessário e inteligente ao livro. O que há de mais interessante na maneira que a história vai sendo contada são as opções que parecem novas a olhos ainda muito acostumados apenas à produção nacional e ao que vem traduzido do hemisfério norte. A narração do texto, por exemplo, fica por conta de uma osga (nome angolano para lagartixa ou taruíra) reencarnada que na vida passada era um homem triste e incompleto. Além disso, a exemplo do narrador, vários vocabulários naturais de dialetos nativos angolanos vão sendo colocados ao longo do livro sem marcas de que são “palavras estrangeiras”, como aspas, negritos ou itálicos. Isso é proposital, pois, invariavelmente, a literatura (e anteriormente a oratura) sempre foram armas de combate para os povos da áfrica e, assim como a grandíssima maioria dos países africanos, angola sofreu com o colonialismo tendo libertado-se não há muito tempo. Sendo assim, o uso de formas literárias escritas, vindas do colonizador, foram/são usadas para perpetuação da cultura e identidade do colonizado numa manobra de subversão puramente cultural.  

Entretanto, o livro não se arrasta por trincheiras, apesar de o passado sangrento de angola aparecer ora aqui, ora ali. Ele adentra temas de discussão mais filosoficamente universais, como a contação do tempo e, consequentemente, da história; a criação de memórias e a memória como fonte de criação e, por fim, a memória como constituinte de identidade. Existe visivelmente (inclusive nos nomes dos personagens, Félix Ventura, Angela Lúcia, José Buchman, Eulálio, etc) a construção de metáforas através do personagem principal que é o “autor de novas vidas”, e essa novidade de vida vem, paradoxalmente, de um passado que nunca existiu até o momento em que é contado e piamente acreditado por seus novos proprietários. Agualusa, através da voz de seu narrador e de seus personagens, Félix principalmente, expõe a realidade de maneira muito frágil, podendo ser completamente transformada, e transtornada, através de uma estrutura tão abstrata quanto é a linguagem.

Por fim, é uma leitura prazerosa, apesar de não muito simples. Em maio de 2015 foi lançado um filme brasileiro baseado nessa história, estrelando Lázaro Ramos e Alinne Moraes, mas já pelo trailer percebi algumas divergências basilares com o romance. Ainda assim parece um bom filme, mas certamente a leitura parece muitíssimo mais densa e proveitosa.

Gostou da resenha? Compre O Vendedor de Passados (infelizmente a única versão do livro que temos é com a capa do filme, mas o que importa é o conteúdo)

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