O Substituto (2011) – um filme de professor para professores de verdade

Este texto está repleto de spoilers de “O Substituto”.

“O Substituto” é um filme de 2011, escrito e dirigido por Tony Kaye, mesmo diretor do impactante e, infelizmente, atualmente relevante A Outra História Americana. A trama é centrada no professor substituto Henry Barthes — o “s” é mudo — interpretado brilhantemente por Adrien Brody. A característica principal da vida de Barthes é sua profissão, sem dúvidas. E uma das grandes ideias da trama é a de que, inevitavelmente, o contato do professor com alunos é diferente de qualquer outro contato em contexto profissional. Não é, por exemplo, como um vendedor e um cliente. Isso fica claro no início do filme com entrevistas feitas com alguns professores cujo tema principal é “como eles começaram na profissão”. A maioria deles explica que nunca quiseram dar aulas, ou que era algo temporário, entretanto, estão fazendo isso há décadas. Barthes vai se desdobrando ao longo da história, para além da sala de aula, e vamos descobrindo suas nuances: ele é responsável pelo avô que provavelmente abusava sexualmente da própria filha, a mãe de Barthes, levando-a a um trágico suicídio quando o protagonista tinha apenas 7 anos.

O Substituto

Apesar da tragédia familiar, o personagem de Adrien Brody não demonstra qualquer tipo de ressentimento sobre o que houve com a mãe e possui uma compreensão elevada sobre a vida, o que dá a ele um ar evidentemente melancólico, mas bem distante de uma depressão de qualquer nível.  Além disso, a história principal de “O Substituto” vai sendo entrecortada com Barthes conversando com a audiência sobre educação, sociedade, família entre outras coisas. Todas essas partes, somadas às tramas desenvolvidas, nos mostram que este é um filme sobre professores, mas sem a convencional mensagem de otimismo e heroificação da profissão. A visão que temos é mais real e humana e, portanto, mais complicada.

Quem já viu algum “filme de professor” sabe que, em geral, eles possuem uma estrutura semelhante: existe uma escola com problemas (geralmente causados por uma determinada realidade social), um professor novo chega e se choca com o que está acontecendo e, em seguida, começa um trabalho que transforma a vida dos alunos, inspira os colegas de trabalho e faz do mundo de todos um lugar melhor. Atrelado à isso, há sempre a entrega de algum prêmio, o sucesso em alguma competição ou algum desafio qualquer é superado.

Mas, por diversos motivos, as coisas não funcionam exatamente dessa forma. De fato, o que temos em “O Substituto” é uma escola com problemas (que quase toda escola pública tem) e um professor novo que chega ali. Entretanto, Barthes é experiente e não se choca com as afrontas que os alunos lhe oferecem já na primeira aula e, vejam só, ele começa sua atuação na sala de aula expulsando um aluno dali — certamente, algo que não acontece com frequência nas escolas.

O Substituto

O professor ainda tem plena noção da sua posição como substituto: ele irá ficar na escola apenas o tempo necessário para que um funcionário permanente seja encontrado. Barthes sabe que não seria necessário que ele realmente ensinasse alguma coisa, mas que apenas mantivesse o controle durante o período de transição. Entretanto, ele sabe da relevância que ele pode ter na vida de alunos que, primeiramente, são pessoas que, muitas vezes, não possuem quem as eduque apropriadamente (mesmo dentro da escola), levando-as a raciocinar criticamente para compreender o mundo que as cerca. Por isso, suas aulas são um esforço apaixonado (e apaixonante) para que eles aprendam alguma coisa.

Em contrapartida, o próprio professor substituto sabe que não pode/deve se aproximar demasiadamente dos alunos, pois ele não exerce sobre eles o papel e influência que alguém da família deveria exercer. Isso fica explícito quando, numa das quebras de quarta parede, Barthes afirma que talvez fosse necessário que as pessoas passagem por testes de pré-requisitos antes de terem um filho e que os jovens que estão na escolas não precisam apenas de educação, eles precisam de “algo mais”.

Esse é o paradoxo de Henry Barthes, tudo em sua vida aponta para um grandíssimo desapego, como sugere o nome do filme em inglês (“Detachment”), as citações de Camus, logo na primeira cena, e também seu apartamento, praticamente sem mobília e com o aspecto de quem acabou de chegar ou está para sair de mudança. Apesar disso, Barthes precisa estar sempre próximo das pessoas, guiar seus alunos, trabalhar junto com os colegas de profissão, ensinar pessoas a reconhecerem sua individualidade para viver em um mundo que é, essencialmente, coletivo.

O Substituto

Mesmo, aparentemente, desapegado de tudo, Barthes recolhe uma jovem das ruas. Erica (Sami Gayle) se prostituía e, apesar de não sabermos exatamente sua idade, é perceptível que ela é a apenas uma adolescente que não pode ser muito mais velha do que as alunas do ensino médio. O relacionamento entre ela e o protagonista é algo entre pai e filha ou irmãos. O professor, além de cuidar dela, tenta ensiná-la que ela não deve se desvalorizar em hipótese alguma, mesmo que, aparentemente, tenha sido abandonada. Isso faz um contraponto com aquilo que o professor não pode oferecer aos seus alunos. O contato na escola, na sala de aula, nem sempre favorece momentos de uma educação mais voltada para o emocional e para o autoconhecimento, mesmo questões relacionadas à saúde física, deixam de ser abordadas às vezes. Apesar de Barthes tentar ajudar seus alunos a entenderem o seu lugar no mundo, é muito complicado fazer isso de uma maneira afetiva, dentro da escola.

O substituto

Quando uma demonstração de afeto ocorre com a jovem Meredith (Betty Kaye), acontece uma catástrofe. A moça tem uma sensibilidade artística desvalorizada pelo pai – talvez até provocada por ele – e, além disso, o fato de ela ser gorda e parecer deslocada de qualquer grupo da escola, a coloca como uma pessoa excluída. Quando ela tenta se apoiar em Barthes para desabafar, o professor não pode oferecer todo o suporte que ela precisa, suporte esse que deveria vir de familiares, amigos e, talvez, até de ajuda psicológica profissional. Infelizmente, a menina acaba por se suicidar numa das últimas cenas do filme e, nesse momento, não havia nada que alguém pudesse ter feito por ela.

Ao contrário do que fica subentendido em “13 Reasons Why, “O Substituto” não trata o suicídio como algo que acontece quando ninguém se importa o suficiente com o outro. Na verdade, o filme ressalta que, por mais que gente próxima de um possível suicida tente ajudar, existe uma rede de apoio que deveria vir de pessoas específicas e, infelizmente, nem sempre alguém de fora desse círculo em particular consegue dar a assistência necessária. Até mesmo pessoas de dentro do círculo não conseguem em certos casos.

O substituto

Uma das maiores qualidades de “O Substituto” é demonstrar coadjuvantes complexos, essenciais para a mensagem da história, apesar de ter um protagonista suficiente para carregar o filme inteiro. Assim são tratados alguns profissionais da escola em que Barthes vai trabalhar. Primeiramente, a Diretora Carol Dearden (Marcia Gay Harden), que luta para manter a escola relevante para a comunidade, mesmo que isso signifique ficar fora de padrões tradicionais. Além dela, existem as figuras dos conselheiros, Seaboldt (James Caan) e Dr. Parker (Lucy Liu), que tentam cuidar de assuntos mais relacionados à disciplina, saúde e carreira acadêmica dos estudantes, que parecem não se importar com nada disso. “Atirar pérolas aos porcos” é uma expressão incômoda usada para quando alguém tenta oferecer algo muito bom para alguém que, deliberadamente, não quer. É com essa sensação que ficamos, quando terminamos de ver qualquer cena com esses personagens.

Uma última figura do corpo docente que precisa ser mencionada é o professor Wiatt (Tim Blake Nelson), que ocupa o papel do professor invisível. Ele passa o filme todo sem ser notado — nem pela própria família. Wiatt parece ter ficado tanto tempo na escola e absorto em seu trabalho, – entre provas, trabalhos e atividades – que perdeu a relevância para o resto do mundo. Assim, quando quer a atenção dos alunos para assistir um filme, só consegue ameaçá-los com uma patética frase: “eu vou começar o DVD”. Este é o professor que nos faz lembrar de que o mundo é bem maior do que as paredes da escola e é importante manter o que acontece dentro da instituição relevante em relação ao que se passa fora dela.

O Substituto

E para não deixar nenhuma das partes diretamente envolvidas no complicado processo de educação e formação do ser humano, “O Substituto” ainda deixa uma crítica para quem está fora da escola. A princípio temos a figura dos pais que não se importam com a educação dos filhos da forma adequada, como no já mencionado caso de Meredith e, além disso, no caso dos pais que se eximem da responsabilidade de ajudar ativamente na educação dos filhos, dispensando essa tarefa para a escola. As cenas que mostram isso são rápidas: num momento temos uma ligação em que um pai, exaltado, afirma que a escola não atende às necessidades do filho por ele ter déficit de atenção – enquanto o aluno espanca um colega na biblioteca, em outro momento, a mãe esbraveja contra uma professora que tomou uma medida punitiva mais severa em relação à aluna — a cena é entrecortada pela aluna cuspindo no rosto da professora.

Por outro lado, um agente imobiliário chama atenção para os baixos resultados da escola e como isso atrapalha na valorização dos imóveis do bairro. Com um discurso demagógico, ele tenta convencer os professores de que eles precisam tentar, ainda mais, fazer um bom trabalho, não para que a vida de seus alunos seja valorizada e para que aprendam qualquer coisa, mas para fins meramente econômicos.

Em resumo, o que Tony Kaye fez em “O Subistituto” foi trazer uma visão mais realista sobre Educação (muitos dirão “pessimista”) mas, de forma alguma, fica o sentimento de que essa é uma causa perdida. Muito pelo contrário.


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.