O Som ao Redor (2012)

“Aqui não é favela não, véio. E nem esse orelhão é de favela, de gente pobre. Esse orelhão não tá numa favela e não serve pra deixar, nem mandar recado.”

O som ao redor cartaz 1.0

Título: O Som ao Redor

Ano: 2012

Diretor: Kleber Mendonça Filho

Pipocas: 9/10

Depois de dirigir alguns curta-metragens, Kleber Mendonça Filho lançou seu primeiro longa de ficção,“O Som ao Redor”, uma obra atípica e interessante. O filme começa com uma sequência de imagens históricas com fazendas de senhores de engenho e seus trabalhadores. Logo em seguida, corta diretamente para os tempos atuais, com um grupo de crianças brincando, confortavelmente, em um condomínio de classe média. A partir dessa simples sequência, Mendonça – que também roteiriza a obra –  sinaliza as referências de representação que irá construir ao longo de todo o filme.  Aos poucos é possível perceber que o diretor transpõe elementos do passado escravocrata, e do posterior coronelismo, para pontuar aspectos das relações entre os personagens e destes com o espaço. O que chama a atenção é que essa ideia não é realizada de maneira caricata ou exagerada, e sim tentando se aproximar de situações e comportamentos facilmente identificáveis nas relações de hierarquia e poder que se estabelecem entre patrão e empregado. Tensões com marcas sociais históricas são abordadas em diferentes níveis e roupagens durante o filme, o que gera uma carga política importante, ainda que esta não seja o foco.

O SOM AO REDOR JANELA 2

Partindo dessa ideia, o filme mostra a vida em uma rua de classe média de Recife, apresentando cada um dos seus personagens aos poucos. Tirando a relação de parentesco entre os membros da família de Francisco (W.J. Solha) – dono de boa parte dos apartamentos da região e com grande poder sobre a área -,  num primeiro momento, não há uma ligação direta entre os personagens principais. Só que, assim como fizera no excelente “Recife Frio”, Mendonça explora a ascensão da ameaça de violência e a subsequente cultura do medo como algo comum a todos. Eis o primeiro elemento ligando os personagens, algo facilmente identificável fora da tela também. Além da expansão de câmeras, sensores e outros itens da rentável indústria da segurança/do medo, a chegada de um grupo de vigia particular oferecendo serviços na rua (a.k.a. milícia) se torna em mais um elemento de associação entre os personagens, trazendo uma sensação de maior tranquilidade para uns e adicionando preocupação para outros.

o som ao redor 2.1

A figura de Francisco constitui o principal foco do filme. Seu patrimônio, vindo das atividades como antigo senhor de engenho e transformado em atividades no ramo imobiliário, é fonte de grande poder para a família. Ao redor dele, filhos e netos dão continuidade aos seus negócios. Seu neto João (Gustavo Jahn) é seu descendente mais próximo afetivamente e o mais sensível às implicações da posição de privilégio de sua família, demonstrando certa empatia ao lidar com problemas de outras classes sociais. De forma mais distanciada, os outros personagens compõem o restante do retrato, com suas angústias, desejos, preconceitos e tensões. De um lado, vai desde a dona de casa com estresse à flor da pele, que alivia seu nervosismo com incessantes cigarros e pequenas vinganças contra o cachorro da casa vizinha, até condôminos reunidos para julgar o futuro de um de seus funcionários, acusado de negligência. De outro, estão seguranças, porteiros e empregados domésticos. Esses grupos não são postos necessariamente em oposição, mas suas interações geram atritos diretos e velados com frequência.

Mais adiante, o filme mostra as transformações nas relações de hierarquia, sobretudo na negação da subserviência incondicional por parte dos empregados. Essa característica fica clara na cena em que Bia (Maeve Jinkings) repreende a empregada Francisca (Mariquinha dos Santos) aos berros, sob protesto imediato e firme desta por conta do tom de voz rude utilizado pela patroa.

“O Som ao Redor” é um retrato de um ambiente social que utiliza símbolos visuais e sonoros de maneira perspicaz. Como não há trilha sonora, os sons do ambiente se tornam essenciais. Desde os corriqueiros sons da cidade, até os representativos sons de passos que João e Sofia (Irma Brown) ouvem sobre suas cabeças quando visitam a senzala; a parte sonora pode passar mensagens específicas, mas não indica diretamente as emoções ao espectador, como em uma trilha tradicional. Quanto aos símbolos visuais, destacam-se planos muito abertos – que demonstram como o processo de verticalização do espaço pode ser agressivo -, sonhos, devaneios, um protesto velado ao riscar um carro, e até mesmo invasores que nunca são percebidos, dando ao filme algumas características de suspense. Vários signos importantes vão sendo apresentados em uma espécie de colagem.

O som ao redor 5.1

Tal ideia de colagem também está presente na estrutura narrativa (divida em três capítulos) e no desenvolvimento dos personagens. O desenrolar da história foge do formato clássico de uma trama com um eixo a ser desenvolvido, assim como os personagens não apresentam objetivos claros a serem realizados. Dessa maneira, uma atenção maior é dada às memórias sentimentais de cada pessoa, com atuações propositadamente sem grandes destaques, voltadas ao mais natural possível – algo reforçado por parte do elenco ser amador.

Com um roteiro em que as entrelinhas lembram obras como “Cabra Marcado Para Morrer”, do mestre Eduardo Coutinho, e uma estética que mistura diferentes linguagens, Kleber Mendonça Filho fez de seu filme uma obra bastante autoral e marcante. Em meio ao desconforto e a toques de humor, os ecos de “O Som ao Redor” vão muito além de sua exibição.

The following two tabs change content below.

bellecris

Latest posts by bellecris (see all)