O Pequeno Príncipe (2015)

“O essencial é invisível aos olhos.”

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Título: O Pequeno Príncipe (“Le Petit Prince”)

Ano: 2015

Diretor: Mark Osborne

Pipocas: 9,5/10

“Eles estragaram a história ou posso ir ver tranquila?”, uma amiga me perguntou quando eu disse que faria um texto sobre a nova adaptação de “O Pequeno Príncipe”. É uma preocupação geral: o livro homônimo, escrito por Antoine de Saint-Exupéry e publicado em 1943, tem uma das histórias mais amadas (e citadas) da literatura mundial. Quando soubemos que um filme estava a caminho, nos preocupamos com o resultado. Quando esta minha amiga fez o questionamento acima, eu sorri e respondi simplesmente “sim, pode”.

Para quem não conhece a história… Leia o livro. Sério, nem é tão grande, e nenhuma descrição que eu faça chegará aos pés do trabalho original. Cabe dizer que temos um pequeno príncipe sonhador, uma rosa muito amada e um desbravamento de um universo que cabe na nossa cidade. Já no filme, a história do Pequeno Príncipe é usado como fio condutor; a personagem principal dele é A Pequena Garota, desdobrando-se entre as obrigações relacionadas ao seu futuro que sua Mãe impõe e a necessidade de ser criança e ter um amigo – o qual ela encontra na figura do velho sonhador Aviador, que aqui funciona como um “Sr. Fredricksen” às avessas (vide “Up! – Altas Aventuras”, de 2009).

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O primeiro trunfo da nova adaptação é exatamente essa: ela captura a essência do livro com maestria. O esmero com a história é visto nos detalhes; o fato de os personagens não terem nome reflete a mesma questão do livro, no qual eles são identificados por nomes genéricos. A ideia de se viajar o universo para encontrar exemplares de pessoas que conhecemos no dia a dia é reproduzida com riqueza, principalmente no terceiro ato do filme, quando essa ideia é usada de forma literal.

Embora esse seja o primeiro trunfo, ele não é o primeiro a saltar aos olhos: a animação é simplesmente linda. Grande parte do filme é animado com um charme e estilo Pixar, mas o que realmente nos faz perceber que estamos frente a algo diferenciado são as sequências com o Pequeno Príncipe, quando passamos a uma animação em stop motion. É simplesmente embasbacante ver na tela do cinema as pequenas dobras na roupa dos personagens, ou a textura perfeita de seus cabelos. Com certeza esse filme foi feito para ser visto em 3D; a dimensão extra finalmente é bem utilizada e nos insere em cenas de modo belíssimo, como não se via desde “As Aventuras de Tintim” (2011).

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O cuidado não é só com a qualidade da animação, mas também na maneira visual como a história é contada. A Pequena Garota vive nos tempos atuais, de forma que sua vida reflete a tendência de hoje de medir sucesso através de resultados; independente de se ter 8 anos, 28 ou 80, sua felicidade deve ser ancorada em bater metas e alcançar objetivos. Além da narrativa, que deixa isso claro ao colocar a Mãe como uma figura amorosa mas extremamente controladora e restritiva, tomadas da cidade e da vizinhança nos revelam um bairro milimetricamente calculado. As casas são blocos brancos sem personalidade, os carros se movem exatamente no mesmo ritmo, e mesmo as árvores são retangulares. Isso demonstra um carinho e uma visão concreta do que quer se mostrar com a história.

Outro diálogo que o filme traz do livro é a questão do que é “essencial”. Desde as primeiras cenas, com a entrevista que a Pequena Garota faz, até a sequência final, o que é realmente indispensável vai ganhando diversas facetas: é a resposta correta frente à uma banca avaliadora, são clipes de papel, são virtudes invisíveis. É uma mensagem mais sutil que a primeira durante grande parte do filme, até que na sequência final ganha protagonismo na história (e faz a gente pensar o que diabos estamos fazendo com a nossa vida, o que mais uma vez prova que este filme é uma ótima adaptação de “O Pequeno Príncipe” original).

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Uma última observação é quanto à trilha sonora. Estou escutando enquanto escrevo este texto simplesmente porque ela é belíssima. O tema principal, “Suis-Moi”, é usado com certa recorrência durante a exibição, mas quando ele toca sozinho é muito encantador. Hans Zimmer, co-compositor da trilha, se mostra mais na trilha incidental, que acompanha bem os movimentos do filme.

Sei que tirei meio ponto do filme inicialmente, e foi somente porque uns bons 20 minutos do terceiro ato parecem deslocados e sem necessidade, visto que batem em pontos já bem trabalhados anteriormente. O filme seria reduzido de 1h50 para 1h30 sem grandes prejuízos, e permanecendo igualmente marcante. Ainda assim, nada que desmereça o trabalho como um todo.

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Meu novo papel de parede.

Falando sobre o sentido da vida, as implicações da morte, a prostituição do amor e o que torna um ser único para cada um de nós em somente 110 minutos, “O Pequeno Príncipe” certamente entra na lista de melhores animações já feitas. Então desculpem-me se não falei muito de aspectos mais práticos do filme e acabei focando demais no que a história me disse. Acho que o fiz porque o essencial continua sendo invisível aos olhos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.