Mercado de entretenimento – será que ele está sendo justo conosco?

A arte é inútil”. Sempre que essa frase é dita, inúmeros fãs de qualquer forma de entretenimento minimamente relacionado ao mundo artístico ficam abismados. Porém, um pouco de reflexão nos revela sentidos interessantes para se dizer isso. Em geral, a palavra “inútil” evoca a questão da falta de finalidade, o que não é verdade para a maioria dos produtos artísticos, cujo fim, quase sempre, é a transmissão de uma mensagem ou a criação de uma experiência estética através da ótica criativa do autor. Mas o ponto aonde devemos chegar com a inutilidade da arte é que, numa lógica utilitarista, para que serve se expressar? Para que serve criar uma experiência estética? De que interessa a uma pessoa qualquer saber que Anthony Burgess escreveu “A Laranja Mecânica” para fazer uma alegoria sobre o abuso de poder que o Estado pode promover no controle da delinquência juvenil (entre outras coisas)?

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Nesse caso, leitores da obra podem dizer que o romance aponta problemas e levanta questionamentos que podem levar a uma solução para eles. É um ponto válido, contudo, nem se vê muitos líderes de estado interessados em discussões literárias e, menos ainda (infelizmente), delinquentes juvenis. Ainda assim, se o fim útil de um romance está nas conclusões que podem ser tiradas por pessoas que dissecaram a obra, a obra em si parece apenas ser uma via por onde o pensamento das pessoas irá passar, isso poderia ser feito de outra forma que não o fazer artístico.

Com tudo isso dito, podemos entrar num outro sentido para o qual filmes, séries, pinturas, romances, HQs e a maioria das formas de arte e entretenimento são feitos: dinheiro. É possível atribuir valor monetário para praticamente tudo nesse mundo e, portanto, lucrar com as próprias obras passa a ser natural. O problema é que isso faz com que todo um mercado de interesses se movimente e, nessa dança, as duas partes que acabam sendo menos privilegiadas são justamente aquelas que sustentam e fazem com que tudo aconteça — o artista e sua obra, que vão ter seus interesses mais, ou menos, atendidos à media em que se mostrarem lucrativos.

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Conceitual, não é mesmo?

E no meio de tudo isso, estamos nós, consumidores apaixonados que PRECISAMOS, desesperadamente, consumir qualquer cosia que nos é dado, sejam aquarelas interessantes, filmes de franquias intermináveis, romances que vendem muito, séries spin-off sobre personagens que eram secundários em suas histórias originárias, shows de duas horas que você vai pagar por seis meses no cartão, e assim sucessivamente. O maior problema do consumo massificado de entretenimento é que ele gera uma oferta cada vez maior que precisa ser reabastecida em cada vez menos tempo. Curiosamente, apesar do enorme número de opções, todas elas parecem mais ou menos iguais, o que pode ser tão frustrante quanto a diferença entre os hambúrgueres do cardápio e de verdade no fast food.

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Com tudo isso posto, é importante lembrar que, humanamente falando, talvez não haja inspiração suficiente no mundo para lançar clássicos a cada mês. Além disso, obras bem feitas, via de regra, demandam tempo, esforço e dedicação. Assim, parece que a indústria nos empurra produtos cada vez mais medíocres, com um marketing que não tem outro propósito senão fazer com que as pessoas acreditem que elas estão tendo a experiência artística mais incrível de todos os tempos. A linguagem é hiperbólica, tudo é maravilhoso e épico, por duas semanas, se muito.

Concluindo, a lógica do consumo de entretenimento é fazer com que tudo pareça maravilhoso e intenso, apesar de qualquer produto ser proposital e terrivelmente igual. Isso, naturalmente, cria um mercado em que há mais consumidores e mais produtos para serem consumidos sem que eles tenham qualquer novidade para oferecer. Naturalmente, isso gera um desgaste e a cultura massificada, que nunca foi um problema, começa a se tornar excessivamente repetitiva. Em suma, no século XXI, originalidade já é um conceito amplamente superado, muita coisa já foi feita e reinventar a roda é bobagem. Entretanto, talvez o comportamento de produtores e consumidores de entretenimento esteja fazendo com que a inteligência e a criatividade sumam de toda uma produção cultural, dando origem a itens que geram uma identificação cada vez mais imediata, incrível, longeva e vazia.

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