Resenha: O Mecanismo (2018) – um flerte entre a realidade e a ficção

Todos sabemos que a Netflix já se tornou um pólo de produção massivo com algumas obras que conseguiram deixar a sua marca, seja pela qualidade, inovação ou a nostalgia que transmite para o público. Mas também se tornou conhecida por algumas séries um pouco polêmicas, capazes de levantar diversas discussões internet afora. Na última sexta-feira (23/03), a mais nova aposta da gigante do streaming mostrou seu rosto para todos – e o entregou aos tapas. “O Mecanismo”  mostrou, desde o primeiro episódio, ter assunto para muito falatório.

Este texto NÃO contém spoilers

Título: O Mecanismo

Criação: José Padilha e Elena Soárez

Ano: 2018

Pipocas: 8,5/10

Antes de adentrarmos o território da analise da série é preciso deixar um aviso: não será discutida politica nessa análise. Ela será exclusivamente voltada para a produção da série em si e como ela nos apresenta a história proposta. Agora que já estamos conversados – 😊- vamos falar de “O Mecanismo”.

Como é mostrado no inicio de cada episódio, a série é inspirada em eventos reais, mas se apoia na liberdade poética para alterar certos detalhes e introduzir elementos de narrativa com o intuito de entregar uma história mais “redondinha”, e nisso a série trabalha muito bem. O primeiro episódio é mais contido quando comparado aos episódios restantes. Isso acontece porque ele é focado na apresentação de alguns personagens que serão de extrema importância para o decorrer da história, mas em um contexto um pouco diferente. Antes de iniciar a operação “Lava Jato” existiu uma investigação menor, onde Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena (Caroline Abras) – sua ajudante e braço direito – procuravam prender um velho amigo de infância de Ruffo, o doleiro Roberto Ibrahim (Henrique Diaz).  Esse primeiro momento se mostra muito importante para o crescimento de Ruffo na série, já que a história entre ele e o doleiro está presente até o último episódio.

Ao final do primeiro episódio, a série de José Padilha (“Tropa de Elite” e “Narcos“), decide encurtar as mangas e pôr as mãos para fora. Ela abraça e escancara o caminho que pretende seguir e, consequentemente, com qual público vai querer comprar briga. Mas, mesmo que nesse ponto já seja possível ouvir os comentários de divisão, “O Mecanismo” procura se manter acima das discussões e separações entre grupos.

A partir de “Halawi”, o segundo episódio, vemos um roteiro com diálogos mais encorpados e uma direção mais caprichosa. Não que o episódio anterior tenha sido pior dirigido, a verdade é que existe uma certa crueza na execução do episódio que aparenta, de forma proposital, fazer uma separação entre a mudança no tempo e na história que os personagens começam a vivenciar a partir de agora. Existe uma passagem de bastão que acompanha a mudança do alvo dos protagonistas, que antes investigavam desvios de dinheiro em um banco de São Paulo, e que agora começam a caminhar para um dos maiores casos de corrupção já vistos.

o mecanismo

Mesclando bem as narrativas durante os oito capítulos, “O Mecanismo” trabalha com um ritmo muito bom enquanto mistura o drama e o gênero policial – já bem conhecido de Padilha. O roteiro aposta muito no relacionamento dos personagens, o que, em alguns casos, consegue criar um certo vínculo de empatia com os personagens que não estão necessariamente do lado correto da história – porém, a “humanidade” desses momentos entrega camadas que facilmente poderiam ter sido postas de lado.

Uma das boas escolhas da série foi a quantidade de episódios.  Os oito capítulos conseguem distribuir de forma igual o mesmo peso de importância dos fatos. Não existe aqui um episódio que seja menos importante ou muito mais cansativo que o outro – e olha que quem está dizendo isso é alguém que assistiu a série inteira em uma noite sem nenhuma pausa. O interesse cresce, a narrativa cresce. “O Mecanismo” entrega muito bem aquilo que se propõe, sem mastigar ou enrolar as situações. O gancho do final ainda consegue dar uma última cutucada em um assunto bastante inflamado, e deixa evidente o caminho que a série pretende seguir em um possível segundo ano.

Com uma história muito bem escolhida e escrita, “O Mecanismo” entrega toda a sua pretensão sem ter medo de deixar soar sua voz e opiniões em alto e bom tom. Com um discurso que abrange tudo ao falar de um mecanismo que está além de partidos, nomes e “morais”, a série busca não somente relatar acontecimentos do nosso país – mesmo que mudando o nome de alguns personagens, embora deixe extremamente evidente a respeito de quem está falando (Fora Thamis!) – e ainda assim entregar personagens bem escritos e com histórias subjetivas que engrandecem a trama.

The following two tabs change content below.

Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.