Resenha | O Lagosta (2015) – a distopia da codependência

Esse texto pode conter spoilers de “O Lagosta”. Mas leia mesmo assim.

Nas distopias, sempre existe algo na organização da sociedade que fez com que ela “desse errado” (ou mais errado do que já é). Entenda essas aspas como a ilustração para uma experiência social bem sucedida com consequências catastróficas. Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, temos uma sociedade geneticamente predisposta para suas funções sociais e uma vida em que nenhum prazer é negado, uma ferramenta de controle através da liberação. Em 1984, de George Orwell, a vigilância ganha proporções imensas com o nobre propósito de evitar crimes e aumentar a segurança. Todos sabemos, que em ambos os casos, a coisa acaba não funcionando exatamente do jeito que deveria.

O Lagosta

Título: O Lagosta (The Lobster)

Diretor: Yorgos Lanthimos

Ano: 2015

Pipocas: 10/10

Com isso em mente, podemos chegar em “O Lagosta” prontos para estranhar o filme da maneira correta. A história dirigida por Yorgos Lathimos narra um breve momento da vida de David (Colin Farrell), um rapaz traído e deixado pela esposa. Isso faz com que ele se hospede em um hotel que tem um questionário de check-in bastante singular. Mais a frente, descobrimos que o estabelecimento é um tipo de colônia para solteiros encontrarem parceiros. Até aí, tudo bem, tem gente que tenta coisa muito mais bizarra pra encontrar relacionamentos (o Tinder, por exemplo). Há, porém, alguns acréscimos à experiência dos hóspedes: todos têm um prazo em que devem começar um relacionamento, caso isso não aconteça eles serão transformados em um animal de sua escolha. Além disso, é possível “comprar” mais dias de estadia abatendo o povo que vive na floresta dos arredores do hotel (a seguir, falaremos mais dessa gente).

O Lagosta

Embates ideológicos polarizados não são uma invenção do Facebook. Muito antes do Armagedom discursivo que a rede se tornou, as boas distopias já faziam isso. O que os já citados Admirável Mundo Novo, 1984 e Laranja Mecânica (Anthony Burgess) têm em comum, por exemplo, é o conflito entre controle e liberdade. O Lagosta aborda um atrito semelhante. No universo da trama, o relacionamento romântico é o que há de mais sagrado para as pessoas. Assim, tudo o que acontece gira em torno do auto-aprisionamento da vida de alguém em detrimento de outro. Não há espaço para qualquer liberdade individual: o hotel proíbe e pune severamente casos de masturbação, a opção da estadia no hotel para bissexuais foi proibida porque era muito problemático (homo ou hétero, o ideal é escolher um) e, por fim, o registro documental mais importante da sociedade é o certificado de casamento. Todo o prazer nessa sociedade é lícito, desde que seja compartilhado.

O humor das situações criadas a partir dessa perspectiva zomba das pessoas que não conseguem se realizar em si mesmas.  Em O Lagosta, absolutamente todos baseiam suas relações na codependência, qualquer relacionamento só é possível se ambas as partes compartilharem tudo. A exemplo disso, o protagonista só se relaciona com pessoas míopes porque ele é míope e, ao tentar um namoro com a mulher sem sentimentos, ele se esforça para não ter sentimentos também — falhando miseravelmente e caindo em desgraça. Ainda para ilustrar essa maneira doentia de se relacionar com o outro, o rapaz que manca procura alguém que também manque, mas, por uma inconveniência do destino ele acaba tendo de fingir ter hemorragia nasal para se casar com uma mulher que também possui eventuais cascatas de sangue no nariz.

Não existe, em O Lagosta, um relacionamento em que as pessoas se doem. Elas apenas se conectam umas às outras para autossatisfação, o  que é brilhantemente ilustrado nos posteres de divulgação do filme.

O LagostaO Lagosta

Naturalmente, tudo isso cria uma forma muito burocrática de desenvolver relações humanas. Assim, surge um grupo oposto que vive nas florestas e só ouve música eletrônica, porque só dançam sozinhos. A sociedade autoproclamada “Loners”, abomina o estilo de vida codependente de todo o restante das pessoas e, pune, severamente quem, uma vez no grupo, intenciona se apaixonar. Aqui está o outro extremo do nosso conflito, numa crítica às pessoas que só conseguem ver realização como algo individual e que, não bastando, sentem-se perseguidas pelos codependentes (como de fato, e literalmente, o são) e procuram, de alguma maneira, invalidar o estilo de vida daqueles de quem discordam.

“O Lagosta” é um filme que será sempre melhor entendido como uma comédia de constrangimento, pois ele expõe o sujo falando do mal lavado. É um tipo de humor exótico que, em geral, as pessoas evitam por parecer errado. Livrar-se dessa amarra rende boas gargalhadas e ótimas reflexões.

 


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.