O Homem Duplicado (2014)

“O caos é a ordem ainda indecifrada”

Título: O Homem Duplicado (“Enemy”)

Diretor: Denis Villeneuve

Ano: 2014

Pipocas: 8,5/10

Quantas vidas diferentes temos? Conjugal, profissional, social, sexual? Quantas mais? É extremante comum vermos essas palavras depois do substantivo vida, restringindo todas as possibilidades da existência àquela parte específica. O Erik já falou mais ou menos disso numa das transversais, mas, é válido nos questionarmos se as pessoas vivem, de fato, apenas uma vida. Dessa forma, chegamos a O Homem Duplicado, que conta a história de um professor universitário de história chamado Adam (Jake Gyllenhaal) que, por acaso, ao assistir um filme aleatório, descobre que existe um ator coadjuvante idêntico a ele. Daí se inicia um processo de pesquisa até que eles decidem se encontrar.

"O caos é uma ordem por decifrar" (Enemy)

O filme tem um clima tenso e arrastado, a questão do dublê é tratada durante muito tempo com espanto, como se um elemento fantástico adentrasse a realidade e causasse estardalhaço na vida de todos os envolvidos, nesse caso, não apenas Adam/Anthony mas também a esposa de Anthony, Helen (Sarah Gadon). O filme se desenvolve de maneira didática, deixando várias pistas do que realmente está havendo e também com várias cenas avulsas, completamente fora da linha do tempo sugerida anteriormente, que não estão ali por acaso. Tudo fica subentendido para que as peças do quebra-cabeça sejam juntas.

Ao fim do longa, a reação mais comum que as pessoas têm é a de total confusão, e como creio que você tenha chegado aqui por causa disso, vamos esclarecer uma ou duas coisas desse filme. Primeiramente, o que é uma suspeita, mas vai se tornando óbvio, é que Adam e Anthony são a mesma pessoa. Dicas são deixadas no ar para validar isso, por exemplo, Helen chamar Adam de Anthony, quando ela atende o telefone, ou num momento em que os sósias trocam de lugar, ela pergunta como foi o trabalho de Anthony, na faculdade. Lembrando que Adam é o professor, e Anthony o ator. Outro detalhe é a predileção de Anthony por mirtilos, mas quando Adam visita sua mãe, e ela oferece a fruta, ele recusa, dizendo odiar. A mãe pergunta “desde quando?”, como se a reação do rapaz fosse estranha. Outros detalhes da mãe que apontam para isso são uma mensagem de voz que ela deixa para “Adam” na primeira cena, dizendo estar preocupada com ele morando nesse novo apartamento, muito feio e vazio, e ainda, na visita, o comentário sobre o trabalho respeitável que ele tinha na universidade e que essa história de atuar era bobagem.

O Homem Duplicado - Foto

Outro agravante é que Helen está grávida de seis meses, e quando Anthony recebe a suposta ligação de Adam, ela pergunta se ele estava falando com uma mulher, fazendo com que, sem razão alguma, o rapaz se exalte e grite que era um homem. Vale lembrar que a cena inicial mostra Jake Gyllenhaal (não se sabe de Adam ou Anthony) num clube de sexo em que mulheres realizam os desejos dos homens. Aparentemente, o desejo do protagonista era que uma mulher esmagasse uma aranha, animal usado como símbolo mais de uma vez ao longo do filme. Além disso, as primeiras cenas de Adam, são ele dando aula, explicando um conteúdo (sintomático) sobre o desenvolvimento de ditaduras e também fazendo sexo com sua namorada, Mary (Mélanie Laurent). Isso nos diz que, na existência de apenas um deles, o que teremos é um marido infiel e que tem problemas com relacionamentos, dica também dada pela sua mãe.

Por fim, o roteiro do filme põe ordem no caos, e quem for capaz de pegar essas pistas dadas ao longo do roteiro será capaz de entender toda a crise de identidade e o desfecho final dela. Porém, a questão das aranhas permanece inexplicada. Acredita-se que a aranha seja um símbolo para os relacionamentos que Anthony não consegue manter, porque sente-se preso a uma teia, e não deixar isso evidente de alguma forma é o grande erro do filme, pois a cena final depende totalmente dessa compreensão para fazer sentido. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com a obra de origem, o livro do português José Saramago, mas ainda assim, uma obra bem adaptada não precisa ser dependente da obra de partida para ser plenamente compreendida.

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Hippie com raiva.