O Grande Hotel Budapeste (2014)

“Viu? Ainda temos pequenos vislumbres de civilidade nesse açougue bárbaro um dia conhecido como humanidade. É isso que provemos da nossa forma modesta, humilde, insignificante e… Ah, f***-se.”

grande hotel

Título: O Grande Hotel Budapeste (“The Grand Budapest Hotel”)

Diretor: Wes Anderson

Ano: 2014

Pipocas: 8/10

Considera-se normalmente que para uma obra ser notável ou sua embalagem ou seu conteúdo precisa ser inovador de alguma forma. “O Grande Hotel Budapeste” explora um meio termo, sendo meio inovador na forma e meio inovador em sua história, sem realmente surpreender em nenhum dos dois mas, de alguma forma, angariando um largo apoio por parte dos críticos – provado pelas nove indicações ao Oscar.

Presta atenção que a história é meio complexa: uma garota, lendo próximo a um monumento, nos transporta ao escritor de seu livro, quando este era mais jovem (Jude Law, o Watson do cinema). Este escritor visita o hotel do título que, um dia um bastião de glória e riqueza, agora está largado às traças. O Escritor então encontra o atual dono do lugar, Zero Mustafa (F. Murray Abraham, o Antonio Salieri em “Amadeus”), que volta à sua própria juventude para contar como foi apadrinhado por um famoso concièrge, Gustav H. (Ralph Fiennes, Aquele que Não Deve Ser Nomeado), e os eventos que fizeram com que o hotel passasse a lhe pertencer.

“O Grande Hotel Budapeste” é aquele rapaz ultrarromântico que todas as garotas acham fofo, mas que nenhuma delas chama para o baile – preferindo o músico ou o popular. Ainda assim, esse romantismo é evidente, seja na fotografia onírica ou nos cenários que por vezes parecem serem feitos de doces. Esta caracterização se mostra extremamente importante porque, embora um bom pedaço do filme se passe fora do hotel, a construção figura como um personagem central à trama – o lugar de onde sempre tem alguém saindo ou para onde querem voltar. Assim sendo, para que este arranjo funcionasse, se fez necessário que o hotel tivesse uma personalidade tão marcante quanto aqueles que nele passam suas vidas.

Essa ânsia por ser distinto ressoa nos outros personagens do filme com muito mais força. Graças a traços caricatos e diversas participações de atores famosos (de Feiticeiras Brancas a Caças-Fantasmas), os personagens de dentro e fora dos muros do hotel são facilmente reconhecidos como “aquele guarda, com o bigode”, ou “o vilão com o cabelo estranho”; isso acrescenta uma camada infantilizada ao filme que, somando a todo o resto da linguagem utilizada, é claramente proposital, mostrando que o filme não se leva como um drama – embora sua trama aponte nesta direção.

E talvez aí resida o maior trunfo do filme: o roteiro abraça essa proposta lúdica com habilidade. Desde o fato do país ser fictício até Gustav H. que, com suas nuances de poeta e de cínico, consegue trazer realismo para um mundo fantasioso; o relacionamento entre os jovens Zero e Agatha também dança no limiar entre o pueril e o dramático, enquanto o núcleo do filme – um homicídio e o “desaparecimento” de uma pintura rara – ajuda a deixar a película, se não mais séria, pelo menos mais real.

As atuações, por outro lado, são enfraquecidas por essas caricaturas, e os seres em tons pasteis que transitam nas cenas são, em sua maioria, unidimensionais. São exceções Gustav H e o rapaz Zero; com papeis melhores construídos, principalmente devido aos saltos temporais, Ralph Fiennes e o estreante Tony Revolori estão no controle de suas personas em tela, e a química presente entre os dois ajuda a consolidar o relacionamento quase paternal que se estabelece ao longo do filme.

“O Grande Hotel Budapeste” é um “A Origem” lúdico, com um hotel que é por vezes um personagem mais forte e presente do que os interpretados pelos atores em cena. Um filme simpático, com poucas pretensões, que não te conquista pela força, mas pelo charme. E como outro filme de Wes Anderson (Moonrise Kingdom – excelente, por sinal) nos ensinou, fofura sem drama normalmente não vai muito longe no tapete vermelho.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.