Segundas Impressões #17: O Exorcista

O Exorcista é um daqueles filmes que merecem ser revistos milhares de vezes e recentemente ganhou uma série de TV. Ao assisti-lo de novo, tive a impressão praticamente sobrenatural de que ele nunca é tão bom que não possa melhorar. Lançado em 1973, o filme é dirigido por William Friedkin e baseado num romance homônimo de William Peter Blatty, que conta simplesmente a história de um exorcismo. A premissa extremamente simples do filme confirma o ditado de que “menos é mais” e é nesse terreno que Friedkin criou uma obra prima do horror com características que podem (e deveriam) ser usadas em filmes de terror de qualquer época.

O Exorcista

Na história, baseada num suposto exorcismo feito em 1949, a jovem de 12 anos Regan MacNeil (Linda Blair) é possuída por um demônio e, a partir de toda espécie de comportamento que surge desse transtorno, sua mãe, Chris MacNeil (Ellen Burstyn), a leva para diversos médicos procurando explicações e soluções para os estranhos acontecimentos que envolvem sua filha. Por fim, na falta de qualquer explicação natural, Chris pede ajuda ao padre/psicólogo Damien Karras (Jason Miller), que conduz um ritual de exorcismo junto com um padre mais experiente, Lankester Merrin (Max von Sydow).

Primeiras Impressões de O Exorcista

Admito que a primeira vez em que vi O Exorcista eu era mais novo do que deveria e, ao contrário de ficar aterrorizado com filme, tive a errônea impressão de ele ser uma galhofa que tenta te assustar e falha miseravelmente. A verdade, é que eu já conhecia a mística por traz da história e tomei duas atitudes (ridículas) para acompanhá-la: 1) fiz questão de assistir o VHS alugado às 11 da manhã, num dia ensolarado, com todas as janelas abertas e a casa bem iluminada; 2) movi céus e terras para ridicularizar o máximo de cenas possíveis e não ficar com medo.

O Exorcista

Deu certo. E é claro que, à época, achei que eu tinha assistido um filme qualquer. O que esperar de um jovenzinho de 11 anos, não é mesmo? Contudo, o que ficou de mais forte das duas vezes em que o assisti foram todas as cenas marcantes, que nunca mais saíram do meu imaginário, e uma fascinação incômoda. É claro que acabei assistindo o filme novamente, e com olhos mais maduros, mas a primeira experiência com O Exorcista foi marcante pela qualidade indelével do filme apesar das lentes com as quais decidi assisti-lo.

O que Mudou?

A mudança vem, principalmente, da minha atitude em relação a forma como eu encaro o medo. Como disse, hoje eu sei exatamente o que me causa fascinação em filmes como O Exorcista, e isso já não é mais um incômodo. Além disso, ao não forçar uma ridicularização do filme, não foi difícil perceber que não há nada para ser ridicularizado ali e isso é um mérito em conjunto de toda equipe da produção. Desde a direção nada ortodoxa de Friedkin, que estapeava atores e disparava armas de fogo no set de filmagens para obter reações mais legítimas durante as gravações, passando pelas inúmeras ideias “simples” dos efeitos práticos, dublagens e maquiagens que fazem com que o filme envelheça muito bem, até as atuações brilhantes de atores que dificilmente serão lembrados por quaisquer trabalhos feitos antes ou depois dessa obra de arte.

O Exorcista

Além disso, vale ressaltar que existem grandes características extremamente eficientes para o gênero, como a utilização pontual de uma trilha sonora medonha, a disposição de cenas que fazem você pensar que há algo errado acontecendo ou por vir e, também, a utilização de várias formas de chocar a audiência, através de uma fotografia lúgubre de tons proeminentemente frios, textos chocantes e cenas que são fisicamente incômodas de serem assistidas. Certamente, o fato de vários dos gritos terem sido autênticos na frente das câmeras durante as filmagens fazem com que eles pareçam absurdamente críveis até hoje. Some a isso uma polêmica discussão entre ciência e esoterismo em que até quem esteve numa cama que se debatia sozinha prefere acreditar que foi alucinação, mesmo sendo completamente saudável. Se não fosse assustador, seria cômico perceber que nem os médicos acreditam nas explicações que encontram para os sintomas de Regan.

Por fim, não há o que questionar em O Exorcista, o filme é uma obra prima e uma aula de horror. Todos os elogios que ele pode receber jamais serão bastantes. Seria mais fácil exorcizar o demônio do que achar defeitos nesse clássico.

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