O Exercício Metalinguístico de Jô Soares

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Título: As Esganadas

Autor: Jô Soares

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2011

O romance de Jô Soares “As Esganadas”, lançado pela Companhia das Letras em 2011, trata-se de um romance policial envolvendo o que há de mais comum em livros do gênero, um assassino psicopata, policiais comuns e um outro com nível maior de genialidade, uma bela moçoila, e um mini romance. Porém, existem alguns pontos muito interessantes que o estilo pessoal de Jô Soares compor suas obras artísticas (sejam elas peças teatrais, shows de humor, um talk show ou mesmo as personagens de um livro).

Um desses pontos a serem comentados é que o livro é um caldeirão intertextual, o livro desmembra várias referências a livros, poemas, ditados populares e principalmente personagens históricos. Outro ponto interessante é que a história se passa no Rio de Janeiro da década de trinta, e Jô Soares remonta minuciosamente o cenário da época. Em relação a todas essas referências, nas últimas páginas, existe uma série de referências bibliográficas que vão desde Aleister Crowley até vários livros com a nomenclatura das ruas do Rio de Janeiro ao longo da história. Esse trabalho de pesquisa fez toda a diferença, principalmente, na descrição dos cenários, no que diz respeito a torná-los mais verossímeis. Uma pessoa carioca, ou moradora do Rio de Janeira pode se deleitar na nostalgia de vários detalhes.

A história se inicia (e nesse ponto um tanto diferente das literaturas policiais usuais) com a apresentação do assassino. Caronte (homônimo do barqueiro que atravessava as almas mortas no Hades, segundo a mitologia grega) é o nome do psicopata. Seu nome não foi posto por acaso, pois ele rege os negócios da família, uma loja funerária de luxo chamada Estige (o mesmo nome do rio por onde os mortos seguiam para chegar ao Hades, também da mitologia grega). Os nomes, como já dito, não foram colocados aleatoriamente. Durante o livro todo, Jô Soares apresenta uma pontinha de todas as áreas do seu conhecimento. Se o livro não fizesse parte do que chamamos de literatura de entretenimento, seria avaliado como raso em conteúdo ideológico. Mas este é um livro que não tem como objetivo ampliar os horizontes ideológicos e literários de alguém. As Esganadas é um livro para apreciação. Quantos julgamentos ruins podem ser feitos de um livro por querer extrair dele mais do que ele pode nos proporcionar?

Caronte, como vários estereótipos “pastelão” de assassino, teve problemas com a mãe, uma doceira portuguesa que não o deixava comer seus maravilhosos doces. Esse conflito, medíocre, culminou em seu primeiro assassinato. Caronte assassina a própria mãe, e não conseguindo conviver com seus conflitos psicológicos por causa disso, prossegue matando o alvo que mais se assemelha fisicamente à sua querida mamãe: obesas. O assassino mata todas de forma brutal, arrancando seus globos oculares e entupindo-as com alguma receita da culinária portuguesa de sua mãe. Por isso, o caso dos assassinatos em série foi batizado como o “Caso das Esganadas”.

Para tal investigação, a delegacia de polícia investiga o caso (até o fim do livro, basicamente sem sucesso). O investigador mor é Mello Noronha e seu ajudante estabanado e ignorante Valdir Calixto. Aos investigadores cariocas juntam-se Diana, uma repórter, e Tobias Esteves. Este último, um personagem bem particular que Jô soares arrancou do poema Tabacaria de Álvaro Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Esteves é dono de uma série de confeitarias famosas (inclusive, até os dias de hoje). Ele assumira os negócios da família depois de ser afastado da polícia lisboeta por envolver-se numa armação com Fernando Pessoa e Aleister Crowley para forjar a morte deste. No decorrer da história, Esteves desenvolve um pequenino romance, que por ma série de fatores passa batido, podendo inclusive ter sido melhor explorado, haja vista que seria um casal bastante explorado na parte de humor. Não é preciso dizer que a criatividade de Jô Soares ao juntar tantos fatos fictícios e reais para criar as tramas do romance é um primor.

A história segue, os assassinatos seguem, e a trama segue sem solução. O assassino além de muito astuto não tem digitais, pois sofre de uma síndrome rara (Síndrome de Nagali). Este último fato dificulta todo o trabalho da medicina forense. O livro continua seu enredo até o final, quando, por uma resolução de Esteves, eles começam a ir atrás de uma pista que possivelmente leve ao meliante. Como dito anteriormente a história prossegue normalmente o livro inteiro, porém isso não torna o livro monótono por uma coisinha muito importante nesse livro: o humor. Jô Soares solta piadinhas aqui e ali, é interessante perceber como o timing tão característico do gordo é percebido facilmente. Isso faz com o livro não canse o leitor. Além disso, os fatos históricos são jogados muito bem na história, tanto os acontecimentos da era Vargas no Brasil quando o início da disseminação do nazismo/fascismo na Europa.

“Agora falando sério”, como diria Chicão, chegamos às seguintes conclusões:

1-      O livro tem um valor intelectual grande, ou é significativamente representativo para leitura brasileira?

Digam o que quiser, mas a resposta para todas essas questões embutidas nessa questão é não. O livro nada mais é que uma representação da literatura mundial atual, ou seja, é um livro que contém um enredo interessante e que atrai a atenção de um público mais generalizado. Entretanto, isso não significa dizer que Jô está no nível de Crepúsculo ou Cinquenta Tons de Cinza, muito pelo contrário. Mas o fato é que Jô Soares escreveu um livro extremamente acessível e sem grande valor intelectual. Não que isso seja um problema, como dito acima, nem todos os livros devem ser escritos para nos tornarem pessoas melhores.

2-      O livro é ruim?

Certamente não. O livro possui um humor inteligente, além de uma história muito interessante. Creio que somente Jô Soares poderia escrever um livro sobre um psicopata que mata obesas com tanto bom humor. Talvez por isso eu acredite também que o livro é uma espécie de exercício metalinguístico transexual. Além disso, é interessante ler o livro de alguém que parece saber conversar sobre qualquer coisa, e isso fica bastante explícito durante o livro. Importante para saber que esse não um livro feito para dividir opiniões, ou mesmo para trazer a paz ao planeta Terra, ele apenas entretém.

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Hippie com raiva.