O Estranho Caso do Cachorro Morto (2003): sobrevivendo do nosso jeito

O nosso entendimento sobre o autismo é recente e limitado. Entre preconceitos e complexidade dos casos, somos pegos no contrapé e temos resistência em nos relacionarmos com pessoas que se enquadram no espectro desta condição. Escrito por Mark Haddon e lançado no Brasil em 2004 pela Editora Record, “O Estranho Caso do Cachorro Morto” nos faz entender um pouco melhor o mundo de pessoas autistas ao dar voz a um protagonista que o é.

Christopher Boone é um jovem de 15 anos que possui a Síndrome de Asperger, de forma que suas dificuldades de relacionamento e adequação social só são pareadas por sua habilidade com números e matemática. Também interessado por suspense e investigações sherlockianas, Christopher se vê impelido a escrever sua própria aventura quando o cachorro de sua vizinha aparece morto atravessado por um garfo de jardim no quintal de sua dona. Em meio à recente perda de sua mãe e seu relacionamento complicado com seu pai, Christopher se apoia na sua orientadora escolar, Siobhan, para explorar seus limites e transpor para as páginas a história curiosa que o está envolvendo.

Mark Haddon, autor do livro, trabalhou com crianças autistas, e dessa experiência nasceu a percepção de que essas pessoas precisam lidar com as mesmas questões diárias que nós, embora sob uma perspectiva específica. Desta perspectiva peculiar decorrem as demandas desta parcela da sociedade – demandas estas que tendemos a chamar de “necessidades especiais”. Christopher, por exemplo, odeia a cor marrom, e tende a associar carros amarelos que passam em sequência como o prenúncio de um dia ruim.

É uma tentação pensar desta forma, mas essa lógica que nos diferencia a este grau de pessoas com autismo pode nos afastar delas, mesmo que sendo fruto de um esforço de compreendê-las melhor. Dentro de nossas rotinas, todos nós criamos padrões; em forma de hábito, rotina ou mesmo da quebra dos mesmos, buscamos instaurar lógica onde muitas vezes não há, para que possamos nos sentir confortáveis e dar sentido para o mundo.

Christopher também o faz, e, embora de forma alguma estejamos buscando afirmar que não precisamos adequar nossa sociedade às necessidades específicas destas pessoas, sua forma de enxergar o mundo se mostra como sendo uma formatação de lógica, assim como tantas outras que nós estruturamos ao longo das nossas vidas. E é aí que reside a principal qualidade do livro: na sua sensibilidade que sempre se mostra presente, mas nunca exagerada. Haddon não trata seu protagonista como alguém que precisa ser protegido, mas uma pessoa que busca suprir da melhor forma que consegue suas próprias necessidades de segurança.

O estranho caso do cachorro morto
Mark Haddon.

Em termos de ritmo, no entanto, Haddon peca. Devido às limitações de Christopher, temos que seguir os eventos de sua vida dentro dos parâmetros do menino, porém o autor não consegue compensar a quebra em sua narrativa com sua cadência na escrita. Essa debilidade torna o livro de 287 páginas moroso, exigindo perseverança em alguns pontos. O carisma e dificuldades de Christopher são a motivação que levam o livro a frente uma vez resolvido o mistério principal – o qual não é deixado para ser resolvido ao final da história.

Não fica para o fim porque o objetivo principal de “O Estranho Caso do Cachorro Morto” nunca foi descobrir, de fato, a verdade sobre o tal estranho caso do cachorro morto. A história fala sobre como uma pessoa com limitações específicas lida com situações que são igualmente traumáticas para todos nós. Jamais uma “história de superação”, “O Estranho Caso do Cachorro Morto” é um relato de adaptação, mostrando que nossas peculiaridades só realçam tudo o que nos torna iguais.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.