Resenha | O Doutrinador (2018) – Corrupção. Dos quadrinhos para as telonas

A cada ano o número de produções baseadas em hq’s aumenta, sejam estas no cinema, televisão ou streaming. A boa da vez, que veio em forma de um longa – mas que vai ganhar uma série em 2019 -, foi baseada em um quadrinho brasileiro de mesmo nome. “O Doutrinador”, dirigido por Gustavo Bonafé. O filme traz como proposta adaptar a obra criada por Luciano Cunha, que ganhou uma intensa repercussão por retratar de forma extremamente crítica a corrupção existente no Brasil com um toque de vingança.

Título: O Doutrinador

Direção: Gustavo Bonafé

Ano: 2018

Pipocas: 7/10

 

No longa, Miguel (Kiko Possolato) é um agente federal da Divisão Armada Especial (D.A.E.) que acaba presenciando a morte de sua filha Alice (Helena Luz) após ser vítima de uma bala perdida e não conseguir um atendimento adequado no hospital onde foi levada, pois não havia nenhum médico para atendê-la. Logo em seguida, Miguel começa a nutrir um desejo de vingança contra as grandes autoridades que eram responsáveis pela péssima gestão nacional e que, de alguma forma, teriam participado da morte de sua filha. O longa está inserido totalmente em um ambiente político e que dialoga diversas vezes com a corrupção e os diferentes níveis dessa engrenagem.

Usando isso como base para dar sentido à criação do personagem que seria o Doutrinador, o filme nos entrega uma origem bastante corrida e com a necessidade de passar mais informação – o que infelizmente acaba se repetindo em diversos outros momentos do longa. A cena em que a criação do justiceiro é concretizada, acaba dependendo de algumas coisas bem pontuais e que não se prendem muito em criar uma justificativa para as ações da forma como elas acontecem naquele momento, trabalhando um pouco mais com a aceitação do público de que tudo aconteceu exatamente daquela forma. Mas, ainda assim, no momento em que ele coloca a máscara pela primeira vez, com uma música de rock ao fundo, ficou bem maneiro.

o doutrinador

Essa questão se estende também para alguns aparentes buracos no roteiro. Algumas transições de cenas não estão presentes no filme, o que leva a dúvida ao público sobre como certas coisas aconteceram ou como determinados personagens descobriram algumas informações. Como exemplo, há um momento no filme em que Miguel está algemado em uma sala, mas na cena seguinte ele já conseguiu se livrar das algemas. Em momento nenhum é mostrado de forma explicita – ou até mesmo nas entrelinhas – se ele pegou a chave com alguém que estava na sala ou se ele se soltou depois de sair da sala. Pode ser uma questão de omissão de informação que não se caracterizaria necessariamente como um erro de continuidade ou furo de roteiro, mas é algo para se considerar, visto que esse tipo de situação ocorre algumas vezes durante o filme. Ficaria a critério do espectador deduzir como aconteceu.

Mas existe um problema recorrente que me gerou uma inquietação bem maior que as omissões: a falta de exploração nas cenas de diálogos. Vamos lá. Muitas vezes uma cena com um diálogo bem escrito e que saiba como trabalhar a trama e os sentimentos dos personagens é muito mais válida que uma boa sequência de ação. Em “O Doutrinador” existe um corte constante de cenas que poderiam facilmente trazer uma camada a mais de drama ou de empatia com os personagens. Momentos que supostamente deveriam trazer um grande impacto na história e no público são resolvidos ou finalizados em cinco ou seis linhas de diálogo que se recusam a expandir o que está sendo mostrado. O filme tem diversos momentos aparentemente construídos para ter um embate entre os personagens, mas é tudo muito raso e muito rápido. O que é uma pena, porque alguns desses momentos poderiam ter sido gratificantemente memoráveis.

 

Mas ao mesmo tempo que o filme fica devendo em certos aspectos, ele sabe como entregar outros. O visual do filme sabe traçar uma relação muito bacana com a estética mostrada na hq, mais precisamente quando falamos das cores da cidade. Ao longo do filme podemos ver o Doutrinador nos telhados de alguns prédios ou correndo pelos becos da cidade, e é fácil notar o contraste construído com o neon que está quase sempre presente ao fundo da tela. Fora isso, o terceiro ato do filme traz de forma consolidada e corrigida alguns problemas que foram citados anteriormente por aqui. A impressão que eu tive foi a de que o filme ia evoluindo em determinadas áreas ao decorrer da sua construção, especialmente na ação do filme. Desde o seu início, as cenas de ação se propõem a mostrar muita brutalidade e entregam isso de forma eficiente, mas é na parte final do filme que elas se mostram bem mais físicas e conseguem encher bem a tela. Vale ressaltar aqui a presença de Nina (Tainá Medina) no longa. Ela desempenha um papel bastante importante para a trama e é de longe a personagem mais carismática do filme, que acaba devendo um pouco nesse quesito por parte dos outros personagens.

“O Doutrinador” veio com as veias inflamadas para mostrar a luta de um pai contra a corrupção que ajudou a tirar a vida de sua filha. Mesmo vacilando na omissão de alguns detalhes, evitando explorar momentos importantes para a narrativa e dependendo de certas situações pontuais para caminhar um pouco, o filme é capaz de entregar uma história que carrega a sua própria identidade e testifica a capacidade das produções nacionais de fazer cinema e explorar os mais diversos gêneros possíveis sem medo de entregar no final aquilo que foi intencionado.

 


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Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.