Análise | Os três filmes de “O Chamado” (2002 – 2017) – do auge ao fundo do poço

É fato que “O Chamado” se tornou um dos filmes de terror mais memoráveis, desde 2002, sendo que se trata de mais um remake de filme japonês – aqui “Ringu” (1998). Por ter sido positivamente recebido e influenciado outras adaptações (como “O Grito”, de 2004, por exemplo), logo vieram as suas sequências: “O Chamado 2” (2005) e o mais recente, “O Chamado 3” (2017).

No ano 2000, enquanto o neoslasher ainda dominava com “Pânico 3”, Hollywood investia também em produções de terror com temática sobrenaturais – como esquecer de “Premonição”, não é mesmo? Aqui a premissa é simples: uma fita. Uma chamada. Sete dias para morrer. Assim “O Chamado” encontrou o seu espaço se habilitando como uma boa versão americana de um filme de terror, apesar das diferenças. Três anos depois, a sua sequência chegou, se mantendo na bilheteria, mas não agradando tanto com a trama, e o seu mais recente capítulo não foi diferente, amargando a vida para Samara mais uma vez.

O Chamado
Daveigh Chase como Samara em “O Chamado” (2002).

Mesmo os últimos dois filmes não conquistando o mesmo feito da versão de 2002, cada um tem seu papel a desempenhar sobre a história de Samara, e é isso que analisaremos aqui: o arco da menina cabeluda e como uma franquia de terror no auge voltou ao fundo do poço.

 

O Chamado (2002) – Resgatando o que tem de bom para o terror

Dia 1: 7,5/10

Primeiro você assiste, depois você morre. Assim se dá a maldição da garota Samara. Como remake, “O Chamado” tinha uma missão importante para desenvolver: ser bom o suficiente para conquistar o público e crítica, devido ao contraste com o original japonês, enquanto conta a perspectiva de sua história. Foi aqui que entendemos o contexto da fita amaldiçoada: o porquê, como funciona, e em parte, os significados das bizarras cenas mostradas em flashes de poucos segundos e, claro, a história de Samara.

Na trama, conhecemos a jornalista Rachel Keller (Naomi Watts, da série “Gypsy”) que, após perder a sobrinha Katie (Amber Tamblyn), de quem era próxima, decide investigar o que resultou numa morte aparentemente misteriosa. Logo, descobre uma fita que quem a assiste tem apenas sete dias até morrer caso não faça uma cópia da fita e repasse para outra pessoa. Nisso, Rachel tenta desvendar sobre o que se trata a maldição da fita antes que seja muito tarde.

Muito do que fez o longa ser bastante elogiado se deve a sua excelente e complexa trama. Muitos são os filmes do gênero que se perdem ao contar a sua própria história, fugindo do potencial que tinha para preencher a tela de sustos fáceis e batidos, e isso não acontece na primeira parte da franquia.

Foi por se afastar do desgaste do gênero e incrementar o seu enredo que “O Chamado” garantiu o seu bom feito. Felizmente, os seus 115 minutos de duração valem a pena por contar uma história de forma envolvente ao espectador; não que os sustos não façam parte do filme, mas estão ali de maneira bem alinhada, de forma que não comprometem o bom roteiro.

A fotografia é outro aspecto que acompanha a trama do filme. Sempre carregada de um tom sombrio e frio, combinado com uma variação azulada – desde os primeiros minutos -, as escolhas visuais do longa ampliam seu impacto e garantem o máximo de imersão possível.

Sem pressa, o filme encerra seu princípio de maneira grandiosa, e com muito significado que vai além do que contar uma história sobre uma maldição. Seus últimos minutos o levam para outra perspectiva e, mais uma vez, ressalta como a sua trama não se preocupa em se fazer boa por pequenos sustos. Muitos podem reclamar e apontar o filme como fraco, longe de ser assustador, mas para se tornar uma referência apenas o seu enredo vale, resgatando o que o gênero tem de bom.

 

O Chamado 2 (2005) – Uma sequência interessante e mediana

Dia 4: 6,2/10

Lançado em 2005, o filme se trata de mais um exemplo da fórmula de qualquer sucesso em bilheteria: capitalizar em cima de uma sequência desnecessária. Dá quase para ouvir a conversa nos corredores: “ah, mesmo que a ideia central não seja tão boa, o importante é repetir algumas coisas que deram certo no antecessor, mudando pequenos detalhes, provavelmente o povo deverá curtir…”. Desta forma, o sucesso de Samara em se tornar um símbolo tornou-se sua própria maldição.

Como dito, o que justifica o segundo filme da franquia foi o seu sucesso caloroso nas bilheterias. No entanto, algo muito difícil de ser alcançado sem desgastar um feito excelente de um longa é a beleza de entregar uma película a altura do primeiro. Bem, “O Chamado 2” quase fez isso – não chegou à altura, mas o suficiente para entreter e assustar com uma trama curiosa. Vamos lá explorar a segunda parte da maldição dos egoístas.

Seis meses depois dos eventos traumáticos do primeiro filme, Rachel Keller (Naomi Watts de novo) e seu filho Aidan Keller (David Dorfman) decidiram mudar para Seattle a fim de recomeçar tudo, só que não contavam que um caso recente de uma morte estaria ligado ao que ambos pretendiam esquecer: Samara e a maldita fita. É assim que eles começam a viver, novamente suas, experiências aterradoras. Que bom que te encontrei, mamãe!

E deu play…

Para uma sequência de um filme de terror lançado em 2005, “O Chamado 2” mandou muito bem. Quem diria que a sua trama conseguiria ser interessante e inteligente no que diz respeito ao seu desenvolvimento? Poderia, sim, fraquejar no caminho para tentar findar um longa de sustos fáceis e vazio só para ter o que preencher os minutos em tela que se tratava de uma continuação.

Porém, Hideo Nakata quis ir mais a fundo no enredo construindo um filme importante ao justificar a volta da temerosa Samara, a criança inocente que busca ser amada pelo amor de uma mãe. Se no capítulo anterior descobrimos como a fita funciona, aqui somos levados a entender mais sobre o passado traumático e conturbado de Samara, indo mais além de detalhes não mostrados na fita.

O suspense e o terror aqui estão na medida certa, acrescentando positivamente ao tom do filme, embora os papéis de alguns personagens não se mostrem realmente importantes para a trama, apenas elementos para somar ou repetir aspectos do primeiro filme. Contudo, o longa soube agradar na sua proposta para o gênero e deu espaço para a história de Samara não ser qualquer coisa numa caixinha de jump scares e aparições demoníacas para dar alma ao filme. Felizmente, a trama aqui foi muito bem explorada de maneira curiosa.

O Chamado 3 (2017) – De volta ao fundo do poço

Dia 7: 5,0/10

Contém spoilers sobre essa fita VHS.

Adiado por pelo menos três vezes para chegar ao cinema, o antes titulado “Chamados” depois alterado para “O Chamado 3” finalmente deu as caras e foi lançado no dia 2 de fevereiro de 2017. O que era para ser motivo de comemoração logo despontou para o desgosto de quem esperava por um terceiro capítulo da franquia americana que faria jus ao legado de Samara. Primeiro você assiste, depois se desaponta.

Como mencionei no início desse texto, cada filme tem uma perspectiva a contar sobre Samara: o primeiro falou sobre a fita e a maldição; o segundo, ao mesmo tempo que se tratava de uma sequência direta com os personagens, funcionou como um prequel (um prelúdio à história) ao abordar o passado de Samara. Agora, o terceiro capítulo quis voltar às origens e contar mais um pouco sobre a história da garota com problemas capilares. O problema é que nem sempre boas intenções garantem qualidade e coesão. Vamos por partes.

“Queremos produzir uma sequência do filme da menina do poço, vai ser muito bom. Mas o que podemos fazer para o mal renascer? ” — Alguém pergunta — “História de origem com algumas liberdades criativas sempre dá certo” – outro responde. “Maravilha! Vai ser isso mesmo…“ Nada melhor do que investir num remake maquiado de sequência trazendo um enredo voltado para a origem do personagem. Certo que quando conhecemos a história da maldição ela se apresentou através de uma fita VHS, mas como a intenção aqui foi se afastar dos dois primeiros filmes, era hora de modificar algumas coisinhas – cá entre nós, a Naomi Watts não iria querer conhecer mais um pouco do passado da Samara logo depois de entender tudo. A maldição foi atualizada sem sucesso!

A aparição do vídeo cassete e a fita VHS foi só para os nostálgicos mesmo. O negócio agora é chique: iPhone, TV de plasma, notebooks… Samara agora pode surgir até mesmo por um vírus de computador – imagine ela num óculos de realidade virtual! Por outro lado, o que assusta mesmo é a qualidade do roteiro. O filme já inicia com aquelas aberturas meio isca para fisgar e chocar o telespectador, mas no decorrer do mesmo não parece fazer sentido e muito menos parte do mesmo filme que você assistia.

Daí você acha uma fita pedindo para ser assistida, risos.

Um salto de temporal de dois anos acontece e dois desconhecidos (Johnny Galecki e Aimee Teegarden) aparentemente se interessam por um aparelho de vídeo cassete numa loja de antiguidades. Algum tempo se passa e nos deparamos com o casal Holt (Alex Roe) e Julia (Matilda Lutz), ambos bem felizes, mas tudo muda quando Holt precisa passar algumas semanas na faculdade e lá Julia perde o contato com ele à medida que coisas estranhas surgem e ela tenta descobrir o que aconteceu com o namorado.

Julia acaba descobrindo que seu mozão se envolveu em um ciclo perigoso – o que justifica o antigo título para o filme – envolvendo um vídeo, aqui que os desconhecidos do primeiro filme se encaixam na história dos dois pombinhos: o comprador do vídeo cassete é o professor de Holt, a segunda pessoa desconhecida se envolveu com o mesmo. No momento em que obteve o aparelho, o professor acabou descobrindo a fita da maldição. Não sabendo o que fazer, desenvolveu um ciclo envolvendo jovens na promessa de que, no final, o estudo sobre “O Enigma de Samara” – como é chamado – traria uma confirmação para a vida após a morte, quando na verdade esse foi o meio que ele arranjou para se salvar, deixando que outros continuassem a se sacrificar “por um bem maior”.

Os pombinhos Alex Roe (Holt) e Matilda Lutz (Julia).

Até aí o filme estava confuso ao tentar amarrar os personagens e os arcos que os envolviam, porém aparentemente algo bom poderia surgir desse enredo embaralhado, ainda mais considerando uma interessante cena de morte. Tudo isso nos primeiros trinta minutos de filme porque, depois disso, foi com certeza uma aula de como estragar uma história com potencial. O diretor F. Javier Gutierrez soube muito bem como jogar tudo por água abaixo. Samara estava prestes a renascer com tudo, mas já escorregava para o fundo do poço sem nem perceber.

A talentosa Matilda Lutz estava muito bem como a protagonista coadjuvante não se envolvendo com Samara, até que decide se sacrificar pelo namorado e fazer parte da maldição dos egoístas. O que ninguém contava era que Samara ia se simpatizar por Julia e acrescentar mais detalhes ao seu vídeo – e sim, você não leu errado. Samara revelou partes ocultas do seu vídeo que a fita VHS não mostrava – e muito menos mostrou para Naomi Watts – graças as funcionalidades que o sistema de computador pode proporcionar. Essa é a Samara XP.

Dessa vez, Samara não quis uma mãe, mas ser entendida para ganhar sua liberdade. Uma marca dos dois primeiros filmes foi como inseriram ilusões para os personagens sem soar clichê, o que “O Chamado 3” não fez. Ao querer contar a sua história de origem, fez tudo o que os coleguinhas não fizeram: se resumir a clichês e sustos fáceis para fisgar audiência com medo barato. Até Samara findar o seu desejo, o desenrolar é uma baboseira desnecessária, conduzindo o desfecho do longa para o momento mais exagerado que poderia suceder para o filme: Samara querendo ferrar com todos.

Seja qual foi o desejo dessa Samara Millennial, o terror foi mais agradável quando ela curtia a fita VHS. “O Chamado 3” não vingou como pretendia e nada mais fez do que ser o capítulo desnecessário da franquia.


A franquia precisava mesmo de um terceiro filme meia boca? Qual o melhor filme para você? A franquia nem fede nem cheira e muito menos revolucionou uma onda de remakes americanos? Diz aí nos comentários ou no nosso grupo do Facebook ou do Telegram.

 

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.