O Apartamento (2016) – Um filme iraniano para falar de justiça e vingança

Texto com spoilers, mas leia assim mesmo! 

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Título: O Apartamento (“Forushande“)

Diretor: Asghar Farhadi

Ano: 2016

Pipocas: 10/10

Por incrível que pareça, em um mundo cada vez mais polarizado em que as pessoas anseiam por divisões bem definidas de certo e errado, justiça e vingança parecem se confundir com uma frequência incômoda. No filme iraniano O Apartamento (Forushande em iraniano, que significa “vendedor”), temos a história da vida simples de Emad e Rana, um casal obrigado a sair de um apartamento que está correndo risco de desabar. Felizmente, um amigo da  companhia de teatro em que ambos são atores tem um outro apartamento para alugar para eles. A partir daí, a vida parece seguir normalmente, até que, em um momento de descuido de Rana, um homem invade o apartamento e a violenta enquanto ela estava no banho.

O casal se vê às voltas com o trauma causado por esse infeliz acontecimento e é a partir daí que Asghar Farhadi, escritor do roteiro e diretor do filme, começa a desenvolver alguns pontos interessantes sobre a trama. A princípio, nos é mostrado que Emad é, além de ator amador, professor e, talvez por causa de sua formação e experiências, ele parece ser um homem com pensamentos diferenciados dentro da própria cultura. Numa cena específica, ele demonstra sensibilidade à posição das mulheres na sociedade iraniana. Assim sendo, talvez ele seja o único personagem a não julgar o descuido da sua esposa, numa tentativa de “dividir” a responsabilidade do agressor com a vítima. Ele ainda a incentiva a procurar a polícia para dar queixa do acontecido. Por outro lado, alguns vizinhos (mulheres inclusive) congratulam Rana por decidir não envolver as autoridades no caso, já que, assim, teria que dar muitas explicações e o abusador jamais seria pego.

É curioso, porém, notar que Emad se encontra extremamente irritado com o amigo que alugou o apartamento. Acabamos descobrindo isso porque a antiga inquilina que ali morava era conhecida na vizinhança como uma “mulher de má reputação” e que “recebia vários homens”. Assim sendo, o marido de Rana não pode deixar de associar a culpa do ocorrido à ela, visto que o homem que invadiu o seu lar estava, provavelmente, à procura da antiga moradora. Contudo, uma vez que não poderia rastreá-la para lhe dizer qualquer coisa, o rapaz tem todo o seu rancor descontado no companheiro de teatro. Isso nos mostra que, apesar de sensível, talvez Emad não seja tão bem intencionado quanto parece ao longo de toda a trama.

Filme iraniano

Outro fator preponderante para a história é que o agressor esquece no apartamento as chaves de uma picape que acaba levando Emad até um estabelecimento, onde ele descobre que o responsável pelo veículo era um rapaz. Na ânsia por extrair uma confissão e um pedido de desculpas, o ator cria uma situação para se encontrar com o suposto agressor a sós, mas é surpreendido pelo sogro do rapaz. A surpresa vem novamente, quando ele é levado a crer (e confirma) que o velhinho que reclama de problemas do coração é quem abusou da sua esposa. A cena faz o abusador passar por todos os estágios possíveis desde a negação até a negociação de culpa, chegando à confissão.

filme iraniano

Nesse ponto, é válido notar como a intenção de Emad não era fazer qualquer tipo de mal diretamente ao agressor, mas apenas que ele confessasse para a sua família os seus atos. Naturalmente, a punição imposta por Emad traria enorme desonra e provavelmente acabaria com toda a estrutura familiar do senhor, que é um caixeiro viajante (lembre-se disso). Contudo, até onde se pode pensar, esse tipo de atitude não configura nenhuma ação vigilantista, de abuso de poder ou de tomada da justiça. Como o objetivo de Emad era apenas que o abusador da sua esposa assumisse o seu crime, podemos entender isso como uma relação problemática somente em âmbito individual e em relação aos métodos usados para extrair a confissão. A vingança, nesse caso, é evidente, mas seria ela imoral ou antiética? Seria pedir demais que uma pessoa culpada de um crime assumisse publicamente a sua culpa?

O questionamento fica em aberto pois o desfecho trágico é, tal qual o nome da peça de Arthur Miller em que Emad e Rana estão atuando, a morte do caixeiro viajante. Assim, Asghar Farhadi envolve uma história dentro da outra através da metalinguagem (quase uma regra em narrativas pós-modernas) e nos dá um fechamento extremamente incômodo em que, na falta de soluções mais justas que aquela sociedade poderia garantir aos seus cidadãos – mais especificamente às mulheres, parece que a vingança foi o único caminho para o casal, embora que de maneira inesperada. Na última cena, Rana e Emad trocam um olhar que transmite algo entre o ressentimento e a conivência.

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Hippie com raiva.