O Ano Mais Violento (2014)

“- Sinto-me vulnerável

– Que bom. Porque você é vulnerável. Todos somos.”

A MOST VIOLENT YEAR IMAGEM

Título: O Ano Mais Violento (“A Most Violent Year“)

Diretor: J.C. Chandor

Ano:2014

Pipocas: 8,5/10

“O Ano Mais Violento”, terceiro longa de J.C. Chandor, apresenta uma mudança no que usualmente vemos e esperamos de um filme sobre máfia já a partir do jogo com seu título. Apesar deste fazer referência a um contexto agressivo (o ano de 1981, que teria sido o mais brutal em Nova Iorque, de acordo com registros oficiais), Chandor brinca com o espectador com um título que sugere um tipo de violência que, na verdade, não é superexplorada no filme – ao menos não de modo considerado convencional, porque a cena de uma criança brincando com uma arma carregada e destravada é bem marcante nesse sentido. É uma espécie de provocação acerca de como a violência pode perder seu significado ao ser banalizada nas obras atuais. Em seu filme o diretor faz o caminho inverso, com uma reflexão sobre os custos e riscos do uso da brutalidade e o efeito desta nas pessoas.

O longa mostra a grande empreitada de Abel Morales para expandir sua empresa de distribuição de combustível (comprada do pai mafioso da esposa), enquanto seus planos começam a ser frustrados por infortúnios, como atentados, roubos de mercadoria e o fato de sua vida pública ser revirada pelo procurador Lawrence (David Oyelowo, o Martin Luther King em “Selma”), que o processa por uma série de irregularidades em seus negócios. Morales não sabe de onde vêm as ameaças, o que o deixa em um estado de constante desconfiança e observação. O caráter contido, atento e sombrio que Oscar Isaac (estrela no vindouro “Star Wars: O Despertar da Força“, que estamos fazendo terapia para poder esperar) talentosamente imprime a Abel Morales lembra um pouco o comportamento de Michael Corleone, interpretado por Al Pacino em “O Poderoso Chefão”, embora as trajetórias dos protagonistas sejam bem distintas.

Quanto vale a sua ambição e o que está disposto a arriscar por ela? Trata-se de uma questão que permeia todo o filme. Abel tenta constantemente manter suas ações no âmbito da legalidade, mas não por honestidade imaculada, e sim porque acredita que certos atos de corrupção e violência são contraprodutivos. Já sua esposa Anna (Sangue Nos Olhos) pensa diferente e se mostra o tempo inteiro disposta a dar ordens para que entrem em uma guerra com seus rivais. Ela percebe que o cerco da competição predatória está se fechando cada vez mais. Impulsionada pelo grande entrosamento dos atores, a dinâmica entre Anna e Abel rende momentos marcantes, como o em que ela o confronta dizendo que Abel não conseguiria vencer no “sonho americano” sem ela. Além disso, as ações de Anna assumem um caráter determinante no destino da trama, pois ao mesmo tempo em que consola o marido e o põe como o protetor da família, age muito por contra própria. Toma para si o posto de chefe financeira da empresa, por ter muito conhecimento técnico dos negócios e por sua postura ameaçadora ao liderar nos bastidores. Os traços de impetuosidade e esperteza de Anna são ressaltados pela atuação poderosa de Jessica Chastain (de “Interestelar”).

Há, sim, implicações morais no comportamento de Abel, mas o sucesso tem maior precedência, fazendo com que o protagonista saia da legalidade quando julgar necessário. Só não fica claro até onde Abel estaria disposto a ir em tais concessões. Aliás, as muitas lacunas e as informações de fundo na composição psicológica dos personagens estão entre os grandes atrativos do filme, de modo que tentar ir além da personalidade fechada de Abel e decifrá-lo é um exercício interessante e praticamente inevitável para o espectador. Aos poucos uma imagem dele vai sendo montada, com algumas informações mais diretas e muitas sugestões. Bons exemplos são o fato de ser casualmente revelado que já foi motorista de caminhão, o desconforto dele ao ser questionado sobre sua ascensão nos negócios e quando demonstra não gostar de falar espanhol em público. Seu passado o incomoda profundamente e por isso Abel tenta se reinventar, suprimindo sua identidade de imigrante latino que conseguiu ser bem-sucedido, para se sentir mais aceito como um legítimo capitalista estadunidense.

As características misteriosas do enredo e o período de crise da Nova Iorque da época são bem acentuados pela fotografia sombria e amarelada de Bradford Young (também responsável pela fotografia de “Selma”), juntando elegância e decadência no mesmo espaço. Para capturar mais do espírito do contexto, Young se inspirou no fotógrafo nova iorquino Jamel Shabazz, famoso por registrar a essência da cidade nos anos 80. Alex Ebert fez um belo trabalho ao ambientar o suspense e a crítica social com sua trilha sonora, principalmente com os temas “I Am and We Are” e  “America For Me”.

“O Ano Mais Violento” explora muito bem as ambiguidades ao reforçar o sonho americano ao mesmo tempo em que o desmascara, mostrando seu lado decadente e hipócrita, algo muito bem representado em um dos momentos finais do filme, quando sangue e petróleo escorrem e se misturam. Indissociáveis por natureza.

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bellecris

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