O Abutre (2014)

“Eu nunca pediria para que vocês fizessem algo

que eu mesmo não fosse capaz de fazer!”

Título: O Abutre (“Nightcrawler”)

Ano: 2014

Diretor: Dan Gilroy

Pipocas: 8,5/10

Estreando nos cinemas brasileiros dia 25 de dezembro, O Abutre foi um presentão para os cinéfilos tupiniquins. Confesso que numa primeira visão do poster não fiquei muito animado, mas uma olhada rápida na sinopse e no fato de que Jake Gyllenhaal (Donnie Darko, Nascido para Matar, O Segredo de Broke Back Mountain, entre outros)  seria o protagonista da história, foi o empurrão que faltava para mim.

A história gira em torno de Louis Bloom, que começa o filme como uma espécie de ladrão barato, roubando fios de cobre e tampas de bueiro para vender. Apesar disso, o rapaz mostra-se tão interessado em sair desses pequenos furtos e obter um emprego formal que chega a ser humilhante e embaraçosa sua forma de pedir (implorar educadamente) por um emprego. Aparentemente, o mundo fechou as portas para Bloom e a sina que lhe resta é ser de fato um verme estadunidense. A luz no fim do túnel aparece, por acaso, através da desgraça alheia. Ao presenciar um acidente de carro logo após o seu acontecimento, o protagonista nota a presença de dois homens com câmeras que filmam a tragédia. Lou Bloom procura saber do que se trata e eis que surge sua grande descoberta: a mídia independente, que faz a cobertura de acidentes, incêndios, ações policiais e coisas do tipo para vender as imagens para os noticiários. Encantado com a possibilidade de finalmente fazer algo que, apesar de várias vezes ser imoral, definitivamente não é totalmente ilegal, Louis arranja um material precário para começar sua carreira, aprende rapidamente aquilo que é mais necessário, contrata um ajudante, e se lança no mercado.

Hollywood já se valeu dos paparazzis como estrelas em seus plots, mas o que acontece em O Abutre é diferente. As imagens feitas aqui não são de socialites importantes ou pessoas famosas, mas gente normal que está passando por algum infortúnio terrível. Louis começa a ganhar muito espaço com seus vídeos por atravessar uma suposta linha do aceitável que vários outros cinegrafistas não atravessam.

Em cima de tudo isso, sobre o bem construído cenário de Los Angeles, fica uma muito bem tecida crítica a esse tipo de jornalismo, que muitas vezes usa imagens inescrupulosas de histórias extremamente pessoais com um “bem intencionado” pretexto de informar, entretanto, o objetivo de ganhar audiência é muito mais proeminente. E, se por um lado, as emissoras e jornalistas, estão mais interessados na atenção que essas histórias vão chamar, por outro, quem filma e vende esse tipo de imagem, está mais preocupado em quanto vai lucrar com isso. É uma denúncia evidente do filme, feita com maestria e de maneira bastante crua.

Por fim, seria injusto terminar o texto sem dizer que boa parte da qualidade de O Abutre se deve ao seu ator principal, Jake Gyllenhaal. O rapaz inclusive perdeu por volta de 20 quilos para interpretar o cinegrafista Louis Bloom. Em entrevista, ele disse que gostaria que seu personagem tivesse alguns aspectos de um coiote faminto (animal comum na região de Los Angeles). Além disso, Jake entrega ao seu personagem uma atuação que vai da alienação mais deprimente à sociopatia mais letal, de suas frases curtas e grossas, a discursos motivacionais clichés, inflamados com uma eloquência assombrosa. Enfim, talvez a única tristeza de uma atuação tão bem feita, é que parece que o elenco, apesar de muito competente, não acompanhou Jake tão de perto, e isso faz com que todos os demais pareçam apenas elenco de apoio para ele, mas é claro que isso não altera a qualidade do filme, e, certamente, quem assistir não vai se arrepender.

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Hippie com raiva.