O Abraço da Serpente (2015)

“Eu não vim para ensinar ao meu povo. Eu vim ensinar a você.”

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Título: O Abraço da Serpente (“El Abrazo de la Serpiente)

Diretor: Ciro Guerra

Ano: 2015

Pipocas: 10/10

O arcadismo foi um movimento literário que idealizava o campo e o contato com a natureza como o destino ideal para o ser humano. Para aqueles que participavam deste movimento, só haveria felicidade para eles junto à este paraíso, porém não se questionava se o paraíso se manteria bem com a presença deles. “O Abraço da Serpente”, dentre sua miríade de subtextos, analisa o impacto do homem no paraíso, e como este impacto pode transformar o paraíso em um inferno.

Assim sendo, preciso me desculpar de antemão se o texto ficou longo demais, mas é irresponsável tratar uma obra profunda de forma superficial. Se você está disposto à uma aventura hoje, vamos adentrar a Amazônia. Eu tentarei ser seu guia.

Este é “O Abraço da Serpente”.

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O filme conta as histórias de dois pesquisadores na Amazônia: Theodor Koch-Grunberg (Jan Bijvoet), em 1909, e Richard Evans Schultes (Brionne Davis), em 1940. O que une as tramas é a busca pela yakruna, uma planta mitológica capaz de curar quase todos os males, e o mesmo guia indígena, o isolado Karamakate (Nilbio Torres e Antonio Bolívar), em fases distintas de sua vida. O que se dá a partir daí é uma dramática aventura pelos rios e florestas da Amazônia ferida pelos barões da borracha e missões católicas, enquanto as duas jornadas, mesmo que separadas por mais de 30 anos, caminham para um fim comum.

Pincelando a estética, o filme é visualmente lindo. Por ser filmado em preto e branco, as ricas cores da Amazônia dão lugar ao contraste, o que só realça o trabalho de fotografia e o choque cultural que se desdobra em cena. O design de som é ótimo, e a trilha sonora é pontual, enchendo as sequências nas quais aparece.

abrazo-de-la-serpienteAgora, em termos temáticos, é impossível somente pincelar. A história inicial mostra Theo muito doente, contando com seu companheiro de viagem Manduca (Yauenkü Migue) para encontrar Karamakate, Aquele Que Move o Mundo. Somente com a ajuda de Karamakate o pesquisador e seu ajudante podem encontrar o único remédio para a doença de Theo: a planta mitológica yakruna.

Na segunda história, temos o pesquisador e botânico Evans em busca de verificar se o relato registrado nos diários de Theo, três décadas atrás, é verdadeiro, e se a yakruna realmente existe. Após encontrar um Karamakate já idoso, Evans admite que nunca conseguiu sonhar na vida, nem acordado e nem dormindo, e que a yakruna é sua única esperança de cura. Após Karamakate confessar que sonhou com um espírito branco que pedia sua ajuda, ambos partem em sua jornada rumo à Oficina dos Deuses, o último lugar a ainda ter a yakruna no mundo.

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As duas linhas, embora paralelas, são muito contrastantes. Theo já está na Amazônia há quatro anos, e em seus delírios febris diz que não quer morrer “neste inferno”. Por outro lado, Evans vê na Amazônia e sua flora sua única chance de alcançar um paraíso de sonhos que nunca conseguiu vislumbrar. A partir daí, percebemos que o que separa a visão infernal de Theo das promessas oníricas de Evans é o tempo: qual a duração do paraíso para o ser humano? Por quanto tempo precisamos ser expostos a ele até que suas cores se desfaçam e passemos a ver demônios em coisas que antes víamos como angelicais?

Isso é um assunto profundo, e o filme logo prova que não esbarrou nele por acaso. Em uma de suas sequências mais intensas, Evans e Karamakate encontram um brasileiro (imagino, por seu português) que convenceu vários indígenas de que é o Messias, e os explora em troca de falsos milagres em seu “Éden” secreto, como chamam. Assim como fizera quando viajava com Theo tantos anos atrás, Karamakate não se furta de agir perante o que vê, e os resultados são monstruosos. Sem entregar muito mais, a cena nos faz pensar em como o homem é capaz de transformar o paraíso dos outros em inferno para criar o seu próprio Éden.

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Digo especificamente “homem” porque os homens brancos, na figura dos barões da borracha, são vilões invisíveis neste filme. Não vemos nenhum deles em momento algum, mas suas ações reverberam em árvores mutiladas e indígenas cortados; em um dado momento, o jovem Karamakate, impactado pelo que vira, murmura que “se os barões da borracha são homens, eu sou uma cobra”.

Cobra essa, por sua vez, que tem uma participação forte na temática do filme – como o próprio título aponta. Karamakate, em uma de suas visões guiadas por plantas psicotrópicas, vê uma estrela que cai do céu e se torna uma serpente Boa – uma espécie de cobra constritora. Em um contexto invertido no qual o Éden foi corrompido e se assemelha muito ao inferno, a Boa representa a própria liberdade deste Tártaro. Na linguagem do filme, ela assume diversas formas: é Theo quando este salva alguém, mas também é a própria morte que vem agarrá-lo. Por outro lado, no futuro, Evans recebe a ordem de abraçar a serpente, novamente mostrando que o significado da mesma transcende uma definição de vida ou morte.

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Essa inversão do Éden é entendível, considerando o prisma ruim sob o qual a Igreja Católica é apresentada no filme: um ente que busca catequisar e fazer com que os indígenas abandonem suas crenças, idiomas e hábito, em troca de uma cultura que lhes é forçada como única opção à morte. Se fosse você a passar por isso, não seria o Éden deles o seu inferno?

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Como se tudo isso não fosse o suficiente, o filme é vagamente baseado nos diários dos reais pesquisadores Theodor e Evans. Assim, quando vemos que Evans quer corroborar os diários de Theo e acaba por criar um diário inacreditável para si mesmo, nos questionamos qual é o limiar que separa realidade e ficção na película.

Se para o Arcadismo o paraíso é o natural, e se para Sartre “o inferno são os outros”, “O Abraço da Serpente” se apresentaria como uma antítese de ambos: se o inferno somos nós mesmo, acabamos por levá-lo dentro de nós por onde quer que formos, levando uma entropia inevitável em nosso encalço que afeta todos ao nosso redor. Quando falamos de cultura para cultura, a “civilização” foi ao paraíso e o transformou em seu próprio inferno; no processo, acabou por destruir o paraíso de outrem em busca de sua tal civilização – da qual fugiram em primeiro lugar. Admito tender mais para a visão deste filme colombiano do que para os sonhos setecentistas; é mais fácil o homem corromper o paraíso inerentemente bom do que o paraíso salvar o homem inerentemente mau.

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“O Abraço da Serpente” não está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro à toa. Sua estética abundante só perde para sua riqueza temática, e os conceitos ali inseridos são dignos das maiores obras de aventura do nosso tempo – mesmo que condensados em somente duas horas. É um filme imperdível, feito para ensinar homens brancos a ouvirem e que, mesmo sem yakruna, irá te dar sonhos de liberdade.

***

Este filme está em cartaz na rede CineJoia de cinemas. Viva o Joia! Viva o Cinema!

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.