Primeiras Impressões – Notorious (2016)

Os diversos procedurais investigativos que conhecemos buscam sempre criar um novo atrativo para o público. Quando a audiência não aguenta mais ver uma equipe de policiais resolvendo crimes, colocam o FBI junto a uma importante analista forense (como na longeva “Bones”), ou pareiam uma agente com um escritor renomado (“Castle”), criam uma atração com um homem com falsos poderes psicológicos (“The Mentalist”), e nem o diabo escapa desses acordos com a polícia (“Lucifer“). Em “Notorious”, a dinâmica muda, mas só um pouco: Jake Gregorian (Daniel Sunjata), um renomado advogado de defesa, tem um relacionamento simbiótico com Julia George (de Covert Affairs), produtora executiva do maior programa de notícias da TV a cabo.

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Os dois têm uma regra de não mentir um para o outro, e entram com frequência em uma dança de ajudar um ao outro, seja dando notícias em primeira mão para o programa, ou fornecendo informações privilegiadas para a defesa de um figurão. Claro que os dois – egoístas, como parece ser indispensável em qualquer série investigativa – colocam sempre seus interesses em primeiro lugar, mesmo que isso tenha que prejudicar o outro.

É desse baile de meias verdades que nasce o slogan de “Notorious”: os casos dele são as manchetes dela.

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Enquanto a premissa oferece certo grau de novidade e frescor para uma dinâmica e relação muito batida e desgastada da TV, a falta de carisma dos personagens dificulta que nos importemos com eles. Jake tem um irmão com quem troca frases superficiais, só para forçar a trama a andar, e a equipe de notícias que cerca Julia tem menos carisma acumulado do que a bola Wilson d’O Náufrago. Não há ninguém que chame atenção no episódio piloto, exceto a apresentadora do programa que Julia produz, Louise Herrick. A personagem, com um estilo blasé, é charmosa e competente, e arranca os poucos sorrisos do piloto.

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Apesar disso, a trama se mantém relevante quando observamos o poder que a mídia tem em manipular a opinião pública, criando vilões e mocinhos, vítimas e criminosos – como diz uma personagem em um diálogo muito brega, mas não menos verdadeiro. Em outro momento, melhor escrito, Jake informa a uma pessoa que será entrevistada em alguns momentos que é para ela pintar o melhor retrato possível do cliente do advogado; “você nunca sabe se um juiz ou futuro júri está assistindo”, ele diz, entre tapinhas cínicos no ombro de seu interlocutor.

“Notorious” parece ser uma série que sabe o conteúdo que tem, embora a sua embalagem seja tão visualmente atraente quanto um maço de cigarros. Com pouca sutileza, mas tentando atrair o público para um caso que não se resolve no piloto, é uma série que não foi bem em audiência na sua estreia, mas que tem potencial se conseguir tornar seus personagens mais relacionáveis.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.