Nota: David Bowie

Parece um sonho ruim.

Eu ia fazer um grande texto sobre David Bowie. Eu ia falar de sua vida e obra, ia falar de suas conquistas e sobre como ele revolucionou a música e se tornou um ícone inegável e indelével da cultura mundial. Ia dizer como ele era pintor, ator, compositor e multi-instrumentalista. Mas não vou conseguir fazer isso, e desde já peço desculpas.

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Sei das falhas que o grande público também sabe; sei que ele viveu a base de cocaína, pimentas e leite durante algum tempo, e que sua vida desregrada o obrigou a se isolar em Berlim durante alguns anos. Mas eu também sei que ele decidiu ir. Sei que ele decidiu não se entregar, e em Berlim compôs três álbuns em três anos – um deles sendo nada menos que “Heroes”.

Ele era um ícone. Era o Major Tom, era o Homem das Estrelas, era aquele que nos convidava a dançar e falava dos jovens americanos como se fosse um deles. Ele viveu como o Heroi, mesmo que somente por um dia, e transcendeu como a Estrela Negra. Curiosa e tristemente, cheguei a comentar no meu texto sobre seu último álbum, lançado na última sexta-feira, dia de seu aniversário:

Não consigo deixar de pensar, entretanto, que mais uma vez Bowie parece se ver como seu personagem; talvez o arco de Major Tom, da sua ascensão em “Space Oddity”, sua queda entre histórias e entorpecentes em “Scary Monsters”, e sua ressurreição em “Blackstar” seja o arco do próprio Bowie, ou ao menos a maneira como ele o vê; talvez ★ seja David Bowie encarando sua própria mortalidade.

Na canção-título, ele diz que “algo aconteceu no dia que ele morreu / seu espírito subiu um metro e se distanciou / outro assumiu seu lugar e conclamou: ‘eu sou uma estrela negra’”. Dentro dos labirintos de interpretação da letra, podemos considerar que Bowie se vê como um profeta do anti-status quo, sempre apontando a próxima barreira a ser quebrada, ou como a própria Estrela Negra, que morrerá e será substituída por outro arauto do amanhã, embora sua luz permaneça após sua extinção.

Nunca estive tão triste por estar certo. E o que me resta dizer?

Sabe, um tema recorrente nos quadrinhos do Batman é como ele é mais que um homem, mas um símbolo, e como isso o torna indestrutível. Ao desbravar novos gêneros musicais e desafiar todo e qualquer status quo, Bowie se tornou os dois. Independentemente dos seus hábitos, sua existência e sua memória sempre nos lembrarão que há um mundo lá fora com o qual não devemos nos acostumar; que há hábitos e leis e normalidades que não devem ser seguidas. Ele sempre me lembrará que eu posso, e devo, quebrar quaisquer barreiras que me impeçam de ser eu mesmo, da forma que eu me conceber.

Para um símbolo, a morte é somente uma transição desconfortável da vida à lenda, porque

Somos nada, e nada poderá nos ajudar
Talvez estejamos mentindo, então é melhor que você não fique
Mas podemos ficar seguros, só por um dia

Nós podemos ser herois
Apenas por um dia.

Viva em paz, Bowie. Viva entre as estrelas, nos conte se há vida em Marte e não tenha medo de explodir nossas mentes. Apenas queria tê-lo conhecido antes, para eu me sentir um heroi… Por apenas mais um dia.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.