Nojo de barata: uma análise (ou algo próximo disso)

Baratas são, talvez, mas com um certo grau de certeza, a criatura mais execrável do universo – com exceção dos Vogons e sua poesia, seres humanos como um todo e, se formos acreditar em pessoas de índole duvidosa, alguns dubladores. De resto, podemos afirmar que aquelas antenas balançantes, patas desesperadas e a capacidade de voar (sério, quem foi que teve essa ideia?) tornam esta coisa algo completa e totalmente repugnante, de forma que ter nojo de barata parece totalmente justificável. A cultura pop trabalhou para isso também, consolidando a repulsa em nossos corações, de forma que esse horror é basicamente psicológico e cultural.

Ou não.

nojo de barata

Não falta motivo para ter nojo de barata – de forma que eu tenho certeza que você me xingou assim que abriu esse texto, se é que ainda está lendo. Elas são criaturas perniciosas e diabólicas que carregam bactérias como E. Coli e Salmonella, têm capacidade de reprodução espantosa, e uma fama (embora consideravelmente infundada) de que herdariam a Terra em caso de ataque nuclear (o que nos faz pensar se na verdade a tensão entre Trump e Kim Jong-un não é um plano destas criaturas abomináveis para nos dominar). Além de uma forma de protesto contra os cidadãos marginalizados pela sociedade consumista, poucas coisas conseguem definir tão bem esse inseto maligno do que esta música do Titãs lançado no mitológico álbum “Cabeça Dinossauro”:

Ainda assim, é pouco aceito socialmente dizer que temos “medo de baratas”; é, de fato, ilógico ter medo de uma criatura que você pode exterminar com um pisão. Porém, em última análise, não se prova um medo mais irracional do que tantos outros, como a agorafobia ou o pânico relacionado ao escuro em si. Além da nossa percepção relacioná-la com excrementos e dejetos, a cultura pop tem feito um excelente trabalho em reforçar a lógica de que baratas são seres que representam tudo o que há de mais nojento no universo.

Literalmente: tome o clássico “MIB: Homens de Preto”, de 1997, trouxe a fictícia (?) organização secreta do governo que enfrenta ameaças intergaláticas para proteger a Terra. Em uma trama de ficção científica e comédia, J (Tommy Lee Jones) e K (Will Smith) precisam descobrir onde está o artefato conhecido como A Galáxia (dica: está no cinturão de Órion) antes que ele caia nas mãos da criatura mais perversa e cruel que os roteiristas conseguiram pensar.

Uma barata gigante espacial que assume a forma de Edgar.

nojo de barata

Além de “Homens de Preto”, séries e filmes por várias vezes recorreram às baratas quando queriam tratar do que havia de mais repugnante no mundo. O maior expoente deste ângulo é, sem dúvidas, Franz Kafka, em seu livro “Metamorfose“. Nele, Gregor Samsa acorda tranquilamente num dia comum apenas para descobrir que se transformou espontaneamente em um criatura “baratesca” gigante. Sem poder sair de casa e rejeitado por sua família, Samsa apodrece lentamente, em uma história na qual a transformação de Samsa representa como nossa ligação com a sociedade é frágil, e como elementos de isolamento rapidamente nos neutralizam e nos tornam pária em nossa sociedade.

Contudo, nem tudo são sombras na história desses insetos na cultura pop. Um clássico das tardes do SBT, “Joe e as Baratas”, de 1996, trazia uma legião desses bichos cantando, dançando e conversando em um apartamento, impedindo que o Joe (Jerry O’Connell) se desse bem com a namorada. Outra obra que pode ter aliviado a barra desse demônio insectoide e nosso nojo de barata foi a animação “WALL-E” (2009), da Pixar, onde o robô principal tem um desses bichos como animal de estimação. Com o puro poder da Pixar, eles foram capazes de tornar essa criatura – pasme você – fofa. Isto serve para nos lembrar que grande parte das baratas não são pestes transmissora de doenças terríveis e mortais – das 5000 espécies de baratas no mundo, só 30 podem ser consideradas pestes.

nojo de barata

Embora esse texto tenha sido, talvez, motivado pelo fato de uma barata titânica ter surpreendido o redator enquanto este tentava usar o banheiro, isso não muda o fato de que nosso nojo de barata é fundado em anos de evolução que nos provaram que os exemplares urbanos desta criatura, que habitam esgotos, lixões e dejetos, são treta – uma percepção que foi repetidas vezes reforçada pela produção cultural ao longo das nossas vidas. Em suma: elas podem não ser tão vilãs assim, mas, cara… Que nojo de barata.

***

Vem reclamar desse texto nojento ou sobre você ter medo de baratas no nosso grupo do Telegram. O redator está lá para você ofendê-lo pessoalmente.

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.