Desenhos animados e narrativas – 3 lições essenciais

Se algum dia alguém te disser que desenhos animados são coisa de criança: aceite – é mesmo! Mas isso não é motivo para nenhum tom de demérito, afinal de contas, criança não é (e nunca foi) sinônimo de ruim. Naturalmente, há desenhos e desenhos e eles, mesmo os que sejam voltados exclusivamente para um público (infantil ou adulto), podem ter características bastante singulares. A exemplo, temos, voltados para crianças e pré-adolescentes Du, Dudu e Edu, que funciona como um imenso besteirol na maior parte do tempo e também As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy, que em diversos momentos usa referências rebuscadas e sempre flerta com o sinistro. Da mesma forma, para adultos, temos BoJack Horseman, com uma dose enorme do existencialismo decadente da vida adulta, ou Os Simpsons, que, em termos gerais, está sempre fazendo uma crítica ferrenha a algo ou alguém.

Desenhos animados

Assim sendo, existem pelo menos 3 coisas que podemos retirar de qualquer desenho animado como verdadeiras lições para escrevermos grandes histórias.

Desenhos animados seguem uma lógica

Pode parecer bobagem falar isso, mas, mesmo nas situações mais absurdas de uma animação, ela precisa possuir um conjunto de verdades lógicas que façam seu universo funcionar — isso é fundamental para manter a coerência de uma boa história. Se no início de um conto o personagem tem medo de ratos, esses elementos só vão poder dividir o mesmo espaço em um espécie de confronto. Para narrativas maiores, erros de continuação são até naturais e existem histórias muito boas que os possuem, mas é essencial evitá-los através de múltiplas revisões atentas e a criação de um universo sólido que tenha uma lógica por trás de todas as coisas.

desenhos animados

Desenhos animados podem não fazer sentido 

Apesar de ser bastante importante ter uma lógica dentro do universo em pleno funcionamento, o desenho animado proporciona para quem quiser escrever a opção de não usar lógica nenhuma. Não faz nenhum sentido que absolutamente TODAS as armadilhas do Coiote falhem. É matematicamente impossível que todas não funcionem nunca (mesmo que o Papaleguas não seja pego). Mas, a lógica do universo diz que ele vai se dar mal e cair de um precipício — mesmo que ele esteja na parte firme e o penhasco todo caia para que ele caia também. Ao escrever qualquer outro tipo de história, deve ser reconfortante lembrar de que existem narrativas que podem nos ajudar com esse tipo de desprendimento.

 

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Desenhos animados não são maniqueístas 

Talvez isso não seja assim para toda e qualquer animação, mas, em geral, os cartuns animados têm uma forte tendência a evitar embates de opostos como o bem e o mal, o bom e o ruim, o honesto e o desonesto e por aí vai. Isso, vale lembrar, falando de desenhos que não são adaptações de quadrinhos, ou histórias de heróis, mas sim, de personagens que nasceram para serem animados. Exemplos não faltam: o Pernalonga não é exatamente um mocinho, nem Patolino um vilão. Será que é possível considerar Eustáquio um vilão em Coragem: O Cão Covarde? Billy e Mandy são protagonistas, mas andam junto com a morte, será que isso não faz deles um pouco ruins? Essa falta de definição no caráter dos personagens enriquece as histórias, porque faz com que os escritores saiam do lugar-comum na hora de inventar os problemas de cada episódio.

Enfim, com tudo isso em mente, é possível escrever grandes histórias.

 

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Hippie com raiva.