Na Natureza Selvagem (2007)

“Vou parafrasear Thoreau aqui. Em vez de amor, em vez de dinheiro, de fé, em vez de fama, de justiça… Me dê a verdade.”

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Título: Na Natureza Selvagem (“Into the Wild”)

Diretor: Sean Penn

Ano: 2007

Pipocas: 10/10

Nunca sabemos de onde virá uma demanda simples para sermos mais do que já somos. Às vezes vem de um amigo com um conselho que abre nossos olhos, outras vezes vem de uma lembrança querida, e noutras um filme sobre liberdade pode te fazer questionar o quão livre você realmente é.

Essa é a sua história através dos olhos de Christopher McCandless, o Supermendigo, em tudo o que você sempre quis perder.

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Chris McCandless (Emile Hirsch) tinha uma graduação numa ótima faculdade, dinheiro sobrando e um futuro brilhante provido por pais controladores, mas ele não queria nada disso. Perdido entre suas poesias, seus livros e seus sonhos de ser qualquer outra coisa diferente do que era, Chris se lança nas estradas dos Estados Unidos em busca de algo que não sabe se pode encontrar. Ele muda seu nome para Alexander Supertramp (“Supermendigo”, em tradução livre), se livra de todos os seus documentos e posses e põe tudo para trás.

Mas quando começamos nossa viagem com Alex, não sabemos de nada disso. Vemos um rapaz de olhos bondosos e cansados registrando sua presença em lugares com seu canivete e em pessoas com sua visão de mundo completamente avessa ao senso comum. A trilha sonora composta por Eddie Vedder, do Pearl Jam, é uma obra de arte à parte que embala magistralmente a nova vida de Supertramp; a simplicidade e beleza simultaneamente delicada e intensa das canções de Vedder nos ajuda a enxergar essa nova vida que Alex decidiu viver.

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E ele vai rompendo laços, e deixando o nada que ele carrega para trás, com o único objetivo de ir para o Alasca e viver somente da natureza – e é perto daí que o encontramos no filme. Despido de si e despedido da sociedade, Alex não tem nada que não seja tudo que o cerca, e passa a ver o valor de flor e fruta e animal, seja para sua sobrevivência ou para a composição do quadro natural disposto à sua frente. Enquanto essa história, escrita e dirigida por Sean Penn, vai assumindo contornos cada vez mais radicais em sua definição de liberdade – lembrando muito a forma que autores da geração beat, como Jack Kerouac, buscavam viver -, o mundo vai ficando mais selvagem – e somos civilmente lembrados que a conotação negativa dada à selvageria corresponde muito mais à sociedade à qual insistimos em pertencer do que às bestas e árvores lá fora.

Personagens vêm e vão, passando pela vida de Alex e sendo marcados na interação com o rapaz – que também não sai incólume desses encontros. Seja com a jovem (demais) aspirante à cantora Tracy T (Kristen Stewart) ou com um senhor desacreditado da vida (Hal Holbrook), a forma que Alex decide viver deixa atrás de si um rastro de transformação, enquanto ele fica mais longe de outras pessoas e mais próximo de quem, talvez, seja ele mesmo.

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“Na Natureza Selvagem” é um filme transformador para pessoas de espírito inquieto, e profundamente forte para aqueles que anseiam por uma liberdade semelhante. Quando descobrimos, ao fim do filme, de onde veio a história do jovem Alex, percebemos que ele pagou (literalmente) todos os preços por uma verdade – a qual ele nos concede de graça. Ainda assim, o gosto amargo que fica em sua boca vem do fato de que a verdade só soa verdadeira quando descoberta por você mesmo.

Seus sapatos estão em o que era seu quarto. A carteira que continha o que no passado foram seus documentos e dinheiro está sobre a mesa. A porta da casa que um dia foi sua está logo a sua frente. Fim.

Vamos?

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.