Resenha: Mulheres (1978) – uma jornada de experimentações

‎”As mulheres me conheciam por antecipação por causa dos meus livros. Eu me expunha neles. Por outro lado, eu nada sabia delas. O risco era todo meu.”

Após quatro anos sem ir para cama com nenhuma mulher, Henry Chinaski percebe que está com 50 anos e que sua vida está apenas começando. O trabalho exaustivo nos Correios não faz mais parte de seu dia-a-dia e finalmente a escrita e a leitura de seus poemas são o bastante para pagar as contas e as apostas nas corridas de cavalo.

O sucesso como poeta e as leituras realizadas nas universidades fizeram de Chinaski um homem desejado entre o público feminino, especialmente entre mulheres jovens e pertencentes à cena literária de sua época. Para elas, pouco importava o rosto desfigurado pelos problemas de acne ou o corpo moldado pelos litros e mais litros de cerveja; elas buscavam o poeta, o velho safado e o eu lírico que Chinaski tanto esbanjava em seus textos. Lydia, April, Lilly, Dee Dee, Mindy, Hilda, Cassie, Sara e Valerie são algumas das mulheres que tiveram a oportunidade de conviver com Henry Chinaski e fazer parte da jornada solitária e desgastada do escritor maldito.

mulheres

“Mulheres“, publicado em 1978, não se trata de um romance romântico, tampouco de uma história de amor, mas sim da jornada em experienciar tudo, mesmo que para isso seja necessário largar tudo o que está dando certo mais de uma vez. Para quem não conhece o autor, o enredo pode ser maçante e repetitivo, mas esse é o verdadeiro ponto a ser considerado quando o assunto é relacionamento para Bukowski.

Assim como os demais romances, “Mulheres” tem seu viés autobiográfico e comprova que as relações humanas ajudam a construir cada personagem, mas não interferem em sua essência. O amor é vivido tanto por Hank quanto por suas mulheres em sua forma mais intensa, mas não é o suficiente para fazer do velho poeta um homem completo e satisfeito com sua situação.

Para quem trabalhava arduamente nos correios, a vida de escritor trouxe o glamour e a tranquilidade necessários para viver e usufruir de sua relativa fama; contudo, nem todas as mulheres nem toda a bebida parecem suficientes para o poeta, fazendo com que Chinaski reflita sobre sua condição e, de certo modo, também levando o leitor a refletir sobre o quanto o amor é socialmente visto como meio de conquista e transformação.

“As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas à mão, voos a jato, Nova York, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas têm de achar o que fazer enquanto esperam a morte.”

Bukowski se inspirou em diversas mulheres de sua própria vida para escrever seu terceiro romance, deixando nas entrelinhas parte do carinho e do amor que tivera por cada uma dessas mulheres. Assim como nos demais livros do autor, “Mulheres” não trata do amor como forma pura, mas dá ao sentimento seu caráter denso e grosseiro, como um verdadeiro cão dos diabos.

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A leitura de “Mulheres” não é leve e não é recomendada para pessoas sensíveis; dentre os romances de Bukowski, este é o que tem a escrita mais crua, mas também mais insensível. Bukowski não economiza nos palavrões nem nos termos de baixo calão, o que nos coloca diretamente na posição social na qual o escritor se encontrava, pois, mesmo sendo parte da casta literária norte-americana, Bukowski ainda vivia às margens, bebendo e apostando em cavalos para fugir de mulheres e de seus próprios demônios.

 


Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.


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