Mulher Maravilha: um símbolo de esperança

Texto escrito por Leandro Bezerra, do site 11Degraus. Vá conhecer agora!

Nesse texto farei algumas observações a respeito das três maiores personagens do universo cinematográfico DC. É importante salientar que não pretendo fazer nenhuma comparação com os quadrinhos, sendo essa uma análise somente a partir dos filmes. A intenção é examinar como estão dispostos os personagens nesse universo e o que é preciso mudar para que eles sejam mais efetivos para o público.

homem de aço

Em julho de 2013, chegava aos cinemas brasileiros “Homem de Aço”, o filme que trouxe uma releitura das origens do maior ícone dos quadrinhos ocidentais. O longa foi um sucesso de bilheteria, somando mais de meio bilhão de dólares de receita. Apesar dos números consistentes, ele dividiu opiniões (situação que se repetiria com os filmes seguintes desse universo). Dentre os fãs, havia aqueles que aceitaram a visão menos alegre da autodescoberta do herói, e aqueles que preferiam o mundo superheroico menos sisudo e mais aventuroso.

Desprezando sentimentos pessoais a favor ou contra o filme, e partindo para uma análise crítica da construção da personagem, o fato é que “Homem de Aço” falha em consolidar o ícone Superman. Não me entenda mal. Sinceramente, eu adoro esse filme, mas percebo que o desenvolvimento do protagonista é ineficiente, senão inexistente. Devo esclarecer que quando falo sobre falhas, não me refiro à destruição causada pelos combates em Metrópolis e Pequenópolis, à qualidade da atuação de Henry Cavill, nem às coincidências de roteiro marcadas, principalmente, pelo possível poder de teleporte da Lois Lane.

Em “Homem de Aço” somos apresentados a um Clark Kent andarilho, cujo objetivo é ajudar as pessoas que cruzam seu caminho (uma das muitas referências à figura messiânica). O altruísmo de Clark é mostrado em momentos pontuais, como o resgate de trabalhadores de uma plataforma de petróleo em chamas, no salvamento de um ônibus escolar lotado ou na defesa de uma garçonete ao ser assediada.

O grande problema, é que essas ocasiões de escoteirismo são ofuscadas por cenas que desconstroem o caráter salvador do herói e o transformam em um personagem discordante dentro da própria imagem de esperança que o filme tenta firmar. Um bom exemplo disso é na cena final, na qual Clark destrói um drone de vigilância por não querer ser fiscalizado pelo governo. Essa demonstração de força é desnecessária, visto que a situação poderia ter sido resolvida em uma simples conversa entre Clark e o general Swanwick. Também vale citar o estado que Clark deixa um caminhão madeireiro, na metade do filme.

homem de aço

A história se repete em “Batman vs Superman“.

Nesse filme é exposta a divergência de opiniões sobre o papel do Superman na sociedade. Alguns o veem como o salvador, outros como um símbolo de destruição. Esse debate faz todo o sentido para os humanos, que estão indefesos sob a misteriosa proteção do Superman. Clark, por outro lado, não compreende como suas ações podem gerar essa cisão. Ele tenta agir da maneira correta, tenta salvar os humanos.

Pouco antes do duelo que dá nome ao filme, é apresentado o seguinte discurso: “eu tenho que ir à Gotham convencê-lo a me ajudar (…) ou ele terá que morrer”.

Para validar o excerto acima, tudo o que o Superman precisa fazer é conversar com o Batman. Em “Homem de Aço”, Clark mata o general Zod por esse representar um futuro de destruição para a população da Terra. Em “Batman vs Superman” não existe motivo real para que ele tente matar ou sequer lutar com o Bruce, mas o que acontece? No encontro dos dois “heróis” a ideia do diálogo simplesmente desaparece para que haja o combate, e reaparece, convenientemente, na iminência do assassinato do Superman pelas mãos do Morcego.

Parece razoável que parte dos espectadores não tenham saído satisfeitos do cinema, certo? Afinal, como se relacionar com um personagem que não respeita as próprias diretrizes?

Ainda em Batman v Superman, o Morcego é o outro lado da moeda. Algo notável é que, diferente de Clark em dois filmes, Bruce apresenta um arco de desenvolvimento bem definido… Para um anti-herói. Como?

batman

Em uma das primeiras cenas do filme, vemos os acontecimentos finais de “Homem de Aço” sob a visão do Morcego. A partir das tragédias causadas pelo incidente, Bruce decidir iniciar uma cruzada contra a existência do kriptoniano. A mesma motivação é dada a Wallace Keefe, personagem vivido por Scoot McNairy, e a Lex Luthor. Quais as consequências disso?

Em uma discussão com Alfred, Bruce diz: “ele possui o poder de destruir toda a raça humana, e se nós acreditarmos que existe 1% de chance de que ele seja nosso inimigo, devemos tomar isso como certeza absoluta”. Particularmente, imagino essa frase como um momento de deslumbramento de David S. Goyer sobre o próprio trabalho (o que é totalmente aceitável), mas que, por fim, é apenas uma frase de efeito que, se você parar para pensar, não faz muito sentido. Se existe 1% de chance que o Superman seja um inimigo, existe 99% dizendo o contrário. Por que não considerar isso? A menos que Bruce tenha certeza de todas as decisões, para onde foi a probabilidade na mente do detetive?

O Homem-Morcego conserva esse ódio desmedido pelo Superman até o ponto de virada do filme. Sua situação fica ainda mais complicada quando notamos que ele mata pessoas. Veja, o problema não é ele não ser assim nos quadrinhos (como disse, não farei essa comparação). Mas o Batman mata, e odeia o Superman pela possibilidade de que ele mate pessoas. É realmente surpreende que o filme com o maior detetive do mundo tenha tido uma recepção tão controversa?

símbolo de esperança

Finalmente, somos apresentados à Mulher Maravilha. Em “Batman vs Superman” não existe desenvolvimento da personagem. Ela simplesmente está onde precisa estar e funciona nas cenas de ação. Apesar da falta evolução de Diana no filme, expõe-se ao espectador que ela é a heroína mais experiente dentre os futuros integrantes da Liga da Justiça. O que esperar de sua primeira aventura nas telonas?

A razão de existência desse texto é mostrar o quanto o universo cinematográfico DC necessita de uma personagem que convença o espectador das suas intenções heroicas. A Mulher Maravilha precisa ser essa ferramenta. Ela certamente foi o ponto alto das cenas de ação, mas isso não é o suficiente. Para que o universo DC seja realmente um sucesso, o espectador precisa se importar e torcer pelos heróis, suas decisões, seus defeitos, seus objetivos.

Esse é o desafio que Mulher Maravilha tem pela frente. A exemplo de “Deadpool“, “Logan“, e a maioria dos longas do universo cinematográfico Marvel, o mais novo filme da DC precisa de uma personagem que contagie a audiência de maneira positiva, diferente do Batman e Superman apresentados. Alguém em que possamos acreditar. Um símbolo de esperança.

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Artigo escrito por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

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