Mulher-Maravilha (2017): a figura heroica para inspirar uma geração (resenha sem spoilers)

mulher-maravilha

Título: Mulher-Maravilha (“Wonder Woman)

Diretor: Patty Jenkins

Ano: 2017

Pipocas: 9/10

A Mulher-Maravilha já teve muitas vidas ao longo de suas décadas, desde sua criação em 1941: de personagem de histórias em quadrinhos, ela ganhou as TVs na década de 70, virou símbolo feminista, chegou a ser embaixadora honorária da ONU, e, em 2016, ganhou uma nova versão, roubando a cena em “Batman vs Superman“. Quando finalmente vemos seu filme solo, a sensação é de que a DC conseguiu finalmente trazer para o cinema o que faz há meio século nos quadrinhos: criar um símbolo.

“Mulher-Maravilha” é um filme que inspira, e isso já é mais do que podemos falar sobre grande parte dos inúmeros filmes de herois que nos atingem mês após mês. Contando a história de Diana, desde sua infância dentre as amazonas até sua vida adulta e envolvimento na Primeira Guerra Mundial, conhecemos a personagem sempre através das lentes do mito: as circunstâncias de sua concepção e criação são dúbias, mas o que importa é que Diana vem à Terra como uma mensageira dos deuses.

Mulher Maravilha

E isso não fica exposto só na maneira como a Mulher-Maravilha nasce: a maneira como ela enfrenta batalhões inteiros e se expõe em combate para salvar seus companheiros nos remete aos Hércules e Aragorns aos quais fomos expostos ao longo da nossa vida; como eles, Diana é uma líder nata, com capacidade estratégica de combate e poder para por em prática seu próprio plano. Depois desse filme, é difícil ver qualquer outra pessoa liderando a Liga da Justiça nos cinemas que não ela.

Mulher Maravilha

Mas esse não é o seu maior poder. Num mundo permeado de crueldade, contrastando entre soldados entrincheirados e generais em suas salas requintadas durante a primeira Grande Guerra (e todas as que se seguiram), a Mulher-Maravilha chega como um símbolo não só de força, mas de valores. Ela é a moral e a honra em forma humana, e o choque de cultura que ela tem ao encarar o ambíguo mundo dos homens fica claro na fotografia, que vai dos tons vivos de Themyscira ao cinza-azulado de Londres em um estalo.

Mulher Maravilha
Compara com as cores do GIF acima ou da foto abaixo, por exemplo.

Ainda assim, se o filme poderia ficar mais sombrio com esta transição, o elenco de apoio dá o suporte necessário para que “Mulher-Maravilha” não se obscureça, equilibrando a seriedade com o humor. Com o auxílio de Steve Trevor (Chris Pine, em um ótimo papel), Diana pode ser a inocente valente e imbatível em um mundo desconhecido, enquanto os homens ao seu redor se atrapalham com seus erros e falhas de caráter, pontuando o longa com piadas que funcionam em seu contexto, mas também adicionando peso dramático quando necessário. É mais uma entre as várias provas da boa direção de Patty Jenkins: os personagens são relevantes, mas Diana continua sempre em primeiro plano – literalmente, inclusive.

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E não é só o núcleo dos mortais que se destaca em sua capacidade de apoio: Themyscira, além de um lugar lindo, também é um mundo de atrizes excelentes. O fato de Gal Gadot não ser uma atriz muito conhecida colaborou para que a abraçássemos como Diana: ela é a Mulher-Maravilha, assim como Lynda Carter foi há 40 anos. Sua inocência, espontaneidade e doçura transparecem tanto quanto sua força e bravura, tornando-a perfeita para o papel. Ainda no núcleo das amazonas, destaca-se também a general Antíope (Robin Wright, de “House of Cards“), que traz uma presença inebriante quando aparece em cena. A Rainha Hipólita (Connie Nielsen) também é relevante, desempenhando bem o clichê da mãe que se impõe como obstáculo para a personagem.

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Robin Wright como Antíope.

Isso, inclusive, é um indicador de que “Mulher-Maravilha” tem suas falhas. Alguns pontos da história soam estranhos (assim como todos aqueles alemães falando em inglês com sotaque alemão), e certas cenas pontuais só têm o propósito de serem bonitas – uma prova de que Zack Snyder não dirigiu esse filme mas certamente colou uns Post-Its no roteiro. Além disso, a duração do filme também faz com que nos questionemos se ele não poderia ser mais curto – são algumas dessas questões que mostram que “Mulher-Maravilha” não é um filme perfeito.

Mas… Quem disse que precisava ser perfeito? Meu superheroi favorito sempre foi o Superman pela sua complexidade em lidar com múltiplas identidades e demandas, sua necessidade em equilibrar todas as áreas da sua vida e não ceder sob o peso de ser praticamente um deus – e fazer tudo isso enquanto se mantinha como um símbolo de esperança para todo o mundo. Após “Mulher-Maravilha”, com tantas cenas que se tornaram automaticamente icônicas e que certamente serão lembradas por anos nas rodas de amigas e amigos listando os melhores filmes baseados em quadrinhos, eu vejo que a personagem veio, neste filme, representar para muitas e muitos o que o Superman sempre simbolizou para mim.

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Cinema é arte por ser uma experiência; se fosse somente uma fórmula com um propósito, seria uma ciência. Ao fim de “Mulher-Maravilha”, temos a certeza de que, independente de termos gostado mais ou menos do filme, temos, ali, uma experiência capaz de consolidar valores e transformar toda uma geração que atualmente está em formação. Se para alguns o filme não foi um divisor de águas, certamente para muitas garotas e garotos “Mulher-Maravilha” veio para ser o símbolo de esperança e maravilha o qual o nosso cinzento mundo (e o universo cinematográfico DC) precisava.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.