Resenha: Mr. Robot – 2ª Temporada

A segunda temporada de Mr. Robot começou mostrando um mundo rumando para a distopia. Contudo, a série explora com precisão as falhas do ser humano e, dessa forma, após o hack contra a E Corp ,o que vemos é um mundo tentando restabelecer o status quo de antes, variando o sistema monetário com as E Coins, e fazendo articulações políticas entre EUA e China para resgatar o sistema bancário, além de outras medidas menos ortodoxas para sobreviver ao 5/9. Fica o sentimento de frustração da fsociety, que empurra as pessoas para evolução sem sucesso porque, afinal de contas, existe um poder estabelecido tão forte quanto os seus ideais.

Nesse panorama, a trama ficou ainda mais intrincada, pois as investigações do FBI começaram a ir para algum lugar e o cerco vai ficando cada vez mais fechado para os hackers, ameaçados, ora pela lei, ora pelo Dark Army.

Mr. Robot

Nesse ambiente, Sam Esmail, o “faz tudo” em Mr. Robot, tem desenvolvido personagens e uma história com características muito fortes. É possível perceber um estilo sendo criado tanto nas imagens quanto na escrita. Enquadramentos estranhos, uma linha do tempo flexível, portas que se abrem e continuam assim por tempo indeterminado e a própria narração dos fatos, que muda de perspectiva porque, caso contrário, seria completamente impossível confiar em qualquer relato feito por Elliot, um narrador nada confiável. Na segunda  temporada ele dá provas disso que vão muito além dos costumeiros diálogos com a audiência e de, eventualmente, dizer que nós não existimos. Elliot “nos enganou” durante metade da temporada e no processo ele ainda pôde “se enganar”. Os muros da realidade em Mr. Robot estão em constante ruína.

Por outro lado, mais uma vez, vimos um arco inteiro da temporada ser baseado num determinado plot twist. Em tempos de Netflix lançando temporadas inteiras de uma vez e pessoas discutindo os episódios simultaneamente, criar viradas enormes de roteiro em episódios que vão ao ar semanalmente pode tirar um pouco a graça da série. Talvez esse seja um ponto a ser avaliado para terceira temporada, para evitar que as teorias da conspiração acabem estando certas, não porque são boas, mas porque em uma semana as pessoas conseguem avaliar todas as possibilidades e propagá-las nas redes sociais.

Mr. Robot

Apesar disso, em vários momentos a série consegue ser surpreendente e pegar qualquer um de guarda baixa. Exemplos disso são o sexto episódio (eps2.4m4ster-s1ave.aes), que em seus primeiros trinta minutos consegue destruir toda e qualquer lição sobre estrutura narrativa que já tenhamos aprendido e, em eps2.9_pyth0n-pt1.p7z, há um diálogo inteiro lembrando o experimento do Quarto Chinês. Os plot twists podem ser previsíveis, mas determinadas opções feitas por Esmail jamais serão.

Em suma, Mr. Robot termina a segunda temporada com o mesmo status que adquiriu ao longo de sua caminhada – é certamente um ponto fora da curva no mundo das séries, seja pela criatividade dos roteiristas, atualidade de temas ou uma consultoria técnica técnica incrível (comentada à exaustão no Hello, friend do Villa Cast).

Assistir Mr. Robot não é apenas entreter-se, mas adquirir uma nova visão dos tempos em que vivemos.

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