Mogli: O Menino-Lobo (2016)

“Você diz que quer ir para a vila dos homens para se tornar um homem.

Eu digo que você pode se tornar um homem aqui.”

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Título: Mogli – O Menino Lobo (“The Jungle Book)

Diretor: Jon Favreau

Ano: 2016

Pipocas: 9/10

Como adaptar um filme onde só temos um humano e todos os outros personagens são animais falantes? Mais do que isso: como adaptar este filme de forma a ser acessível e atraente a todos os públicos? A Disney tinha esse problema em mãos para trazer “Mogli – O Menino Lobo” para as telas, logo depois de entregar o novo “Cinderella” (o qual foi bem de bilheteria, mas bem mediano de aprovação). A Casa do Mickey mostra que aprendeu a lição e entrega uma linda versão de um belo clássico, que é certo de agradar aqueles que são crianças por fora ou só por dentro mesmo.

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Mogli (Neel Sethi) é um órfão que foi encontrado na floresta pela pantera Bagheera (Ben Kingsley/Dan Stulbach). Esta leva o garoto para ser criado por lobos, que o aceitam em seu meio, embora Mogli, propenso à usar ferramentas e truques em vez de seus instintos, nunca consiga se sentir adequado em meio à sua alcateia. Quando o tigre Shere Khan (Idris Elba/Thiago Lacerda) quer se vingar da humanidade através do garoto, Mogli precisa fugir em uma jornada perigosa para se tornar o homem que precisa ser.

Eu não sou fã de excesso de computação gráfica, então fui com um pé atrás assistir um filme que só tem um humano de verdade em cena. Ainda assim, mesmo eu tive que reconhecer que “Mogli” é algo belíssimo de se ver. A direção de fotografia, e a direção, como um todo, entregam cenas que parecem pinturas ou ilustrações que saíram direto de “O Livro da Selva”, de Rudyard Kippling,  que deu origem ao filme.

THE JUNGLE BOOK

Quanto aos animais, embora eles de fato pudessem parecer muito artificiais, eles nos conquistam por suas vozes. Com nomes de gabarito como Bill Murray, Christopher Walken e Scarlett Johansson, não tem urso, orangotango ou cobra que consiga ser antipática. Além disso, cabe um destaque para a versão dublada, que conseguiu transpor com competência o desafio que era trazer a credibilidade do original para nosso idioma. Por mais que eu tenha tentado, não consegui adivinhar as vozes de Alinne Moraes, Marcos Palmeira e Julia Lemmertz no meio do filme, e ver seus nomes ao final finalizam um jogo divertido para a audiência.

O mérito do filme vai além ao trazer vários diálogos interessantes para o nosso tempo. Ao contrário do viés ambiental, que seria bem fácil de tratar, a escolha do roteiro é bem mais ousada para um filme infantil: ele nos pergunta o que diferencia meninos e homens – e mais do que isso, que tipo de homens queremos ser. Em um diálogo decisório para o filme, Mogli se vê confrontando o que esperam dele no futuro com o que ele mesmo quer para si. Ao se referirem ao garoto como “filhote de homem”, eles deixam implícito – e, através da história de Shere Khan, explícito – o potencial destrutivo que o ser humano pode ter. Ver o homem como uma força selvagem da natureza, através dos olhos da própria selva, faz com que o filme ganhe um contorno maduro – e de amadurecimento – para nós.

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E mesmo a decisão de ser civilizado na selva – ponto também debatido, de forma bem adulta, no incrível “O Abraço da Serpente” – tem seus desdobramentos no filme. A abordagem do urso Baloo, de esperar que a natureza lhe dê somente o necessário para sobreviver, contrasta com a expectativa de Bagheera de que o jovem Mogli seja um verdadeiro lobo. Por outro lado, a atitude inventiva de Mogli faz com que ele se aproxime mais dos humanos – por mais que ele queira simplesmente uivar para o céu quando lhe der vontade. É um debate de “natureza vs criação” que nos faz pensar nas nossas habilidades, e o que estamos fazendo com elas no meio que estamos inseridos.

THE JUNGLE BOOK

“Mogli – O Menino Lobo” é um filme delicioso, que enche os olhos e esquenta o coração. Uma fábula que é moderna sem precisar se modernizar na sua narrativa, e que usa toda sua tecnologia atual para parecer clássica. Esse filme, apesar de todas as suas lições, vai muito além do que lhe seria pedido inicialmente; roubando e mudando o sentido da principal canção do filme, “Mogli” faz com o que o extraordinário seja realmente demais.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.