O Modelo de Negócios da Netflix: a arte em apostar bilhões de dólares

Olá, Pontoreaders! Chegamos ao fim da nossa trilogia netflixiana e como último ato das minhas análises streamísticas, quero trazer a vocês uma discussão sobre um assunto que permeou a internet nas últimas semanas: os estratosféricos investimentos em conteúdo audiovisual de grandes empresas do entretenimento e o modelo de negócios da Netflix.

Há algum tempo especula-se a longevidade do modelo de negócios inegavelmente bem-sucedido da Netflix. A dependência do conteúdo de terceiros gerou na provedora de streaming a necessidade da produção de conteúdos originais. Em entrevista à Variety, o diretor de conteúdo, Ted Sarandos, revelou que a Netflix passou a investir em produções originais prevendo que a dependência em relação a outros estúdios poderia se tornar um empecilho para o futuro da empresa.

 

Como assim?

No início de agosto deste ano, a Disney anunciou o lançamento do seu próprio serviço de streaming e a imediata retirada dos seus títulos do catálogo da Netflix. Felizmente, a medida será aplicada apenas em solo norte-americano… Por enquanto.

No primeiro semestre de 2017, foi noticiado que a Fox não renovou o contrato de exibição de seus títulos para a Netflix. Séries como “Glee”, “Modern Family” e “How I Met Your Mother” estão – ou estavam – com os seus dias contados na grade de programação e provavelmente só serão transmitidas pelos Fox Play, o serviço on demand da própria Fox. Além disso, recentemente a Apple anunciou que pretende também pretende se lançar nesse mercado e projetou um investimento de 1 bilhão de dólares (!) em conteúdo televisivo.

modelo de negócios da Netflix
Tim Cook, CEO da Apple.

Esse comportamento migratório de grandes empresas mostra que o mercado de conteúdo sob demanda é extremamente lucrativo. É, portanto, natural que outras empresas também queiram uma fatia deste bolo que a Gigante Vermelha vem assando há muito tempo, estando de olho em formas de reproduzir o modelo de negócios da Netflix.

Como isso afeta o consumidor?

É seguro dizer que o futuro reserva um embate cada vez mais acirrado por assinantes desses serviços.  Por esse motivo, espera-se que as empresas elevem a qualidade dos seus produtos uma vez que séries bem avaliadas podem servir como um chamariz para assinantes.

Outra consequência direta, é a diversificação do conteúdo original. Se a melhora na qualidade das produções não for suficiente para atrair assinantes, talvez a abrangência maior de temas menos usuais seja a solução.

As recentes contratações de Shonda Rhimes – conhecida por “Grey’s Anatomy”, “Scandal” e outras séries de sucesso -, David Letterman – que havia se aposentado depois de 22 anos no comando do “The Late Show” – e a aquisição da Millarworld (empresa de quadrinhos de Mark Millar) são retratos dos movimentos da Netflix para atrair grupos específicos de espectadores.

Mudança de paradigma

É bem verdade que o modelo de negócios da Netflix aposta em um volume colossal de estreias originais em seu catálogo. Na mesma entrevista já citada, Ted Sarandos deixa claro esse é um esforço administrativo para que a empresa não dependa do conteúdo de terceiros; a ideia de que os canais seguiriam em caminhos próprios, sem a Netflix, já era prevista pelos executivos da Netflix. Por outro lado, os serviços de TV a cabo estão começando a se associar à Netflix e a incluir o acesso do streaming ao pacote de TV.

No momento em que os estúdios começam a criar seus próprios serviços sob demanda, uma consequência possível é que se tornem concorrentes diretos não só da Netflix como também das próprias operadoras de TV a cabo. Afinal, por que você assinaria um pacote de TV a cabo quando existe a possibilidade de pagar menos para assistir onde e quando quiser?

O movimento da Netflix, nesse caso, se mostra um tanto quanto contraditório e inverso. Enquanto os estúdios caminham para a independência da transmissão, a Gigante Vermelha cada vez mais se aproxima do modelo de vendas tradicional.

O valor da aposta

A Netflix espera não reportar fluxo de caixa negativo que por muitos anos perdurou no mercado estrangeiro (fora dos EUA). Segundo O Globo, 2017 pode ser o primeiro ano lucrativo fora do território norte-americano devido ao crescimento do número de assinantes que em Junho ultrapassou a contagem dos EUA pela primeira vez.

Os investimentos netflixianos no Brasil não se resumirão à série “3%“. Na mesma entrevista à Variety, Sarandos afirmou que a empresa pretende produzir de 70 a 100 títulos originais fora de solo estadunidense, sendo o modelo de negócios da Netflix nos últimos dois anos.

modelo de negócios da netflix

O Brasil, então, se tornou uma área bastante lucrativa para a Gigante Vermelha, haja visto que alguns eventos, como as filmagens de cenas de “Sense8” aqui, mostram o interesse e a pretensão de aproximação da empresa com os consumidores tupiniquins.

De todo modo, com os vários de serviços de streaming a baterem às portas, a conclusão é que nós, consumidores, teremos simplesmente de tomar a decisão de qual – ou de quantos – serviços assinar. Também é possível que voltemos à estaca zero, numa situação em cada estúdio possua uma plataforma própria de streaming e estes sejam vendidos em pacotes num modelo semelhante ao das operadoras de TV a cabo. Na dicotomia da possibilidade desses futuros utópicos e distópicos, a melhor opção talvez seja esperar que os nossos “Eus” mais velhos saibam lidar com essas decisões – por ora, já basta a pressão de ter que escolher um filme para ver na Netflix em um sábado chuvoso.

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Esse belíssimo texto sobre o modelo de negócios da Netflix – bem como os outros textos desta trilogia, linkados no primeiro parágrafo – foram escritos por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.