Resenha: Misto Quente – a adolescência de Charles Bukowski

O problema era que você precisava ficar constantemente escolhendo entre uma opção horrível e outra pavorosa. – Charles Bukowski, Misto Quente

Situado entre os grandes romances de formação do século XX, “Misto Quente” (1982) é o quarto romance de Charles Bukowski e se tornou a porta de entrada de novos leitores para o autor marginal. O teor autobiográfico e a escrita simples e direta fazem do texto algo semelhante à um diálogo ou uma conversa de bar, onde Henry Chinaski abre (em partes) seu coração e relata sua história de vida desde o nascimento até o encontro com a tão esperada vida adulta.

Nascido em família alemã e levado para os Estados Unidos logo cedo como forma de fugir da pobreza, Henry Chinaski Jr. cresce em meio a uma família conservadora, tendo de enfrentar a autoridade imposta pelo pai ao mesmo tempo em que observa a mãe adquirindo uma postura omissa também por medo do velho Henry e suas ameaças.

O ambiente violento e hostil fez de Chinaski um garoto observador, mas os tempos de escola se tornaram ainda piores quando teve de lidar com um problema de pele que, além de causar dores intensas e insuportáveis, desfigurou o adolescente tornando-o ainda mais impopular e indesejado no meio em que buscava se inserir. Chinaski teve de lidar com a rejeição não apenas familiar como também de amigos e desconhecidos devido à sua aparência, adquirindo na solidão uma companhia sincera.

Durante a jornada, Chinaski se vê obrigado a encarar seus maiores medos e aprende a usufruir das vantagens de sua pseudo-invisibilidade na Los Angeles marginalizada e falida do século XX. As primeiras páginas remetem às primeiras lembranças de Henry, mas a infância fora apenas um teste de persistência para que pudesse enfrentar aquilo que a vida colocaria em seu caminho.

Por que começar a ler Bukowski com “Misto Quente”?

Dentre os romances de Bukowski, “Misto Quente” é o que mais explora seu personagem como indivíduo, explorando sua trajetória por completo e apontando as necessidades que fizeram com que Chinaski se tornasse esse homem difícil, intenso e insatisfeito com as injustiças e mazelas de sua realidade.

Nesse livro é possível conhecer fatos da vida de Bukowski mascarados em sua personagem, como a crise de espinhas e os problemas de pele sofridos na adolescência e a grande dificuldade em conviver com o pai. Chinaski é um prolongamento de Bukowski em seus textos, uma visão idealizada daquilo que o autor pode viver e desejou relatar. Chinaski, assim como Bukowski também possuía seus vícios e inseguranças, mas dentro de todas as incertezas, ainda trazia a resiliência necessária para sobreviver em uma realidade tão desgastada e sofrida.

Misto Quente

A leitura de Bukowski não é carinhosa ou poética, mas sim dura, direta e por vezes, asquerosa. Inspirado na objetividade de Hemingway, Bukowski transmitia tanto em suas poesias quanto em seus romances, mensagens claras e livres de academicismos, de modo a explorar em sua escrita a dura realidade que tinha de lidar diariamente.

Começar com “Misto Quente” é mergulhar no que há de mais sincero sobre Charles Bukowski, portanto, ultrapassa a barreira da simples apresentação para apontar a realidade do velho safado. Embora o romance não tenha tantas marcas do lírico de Bukowski, sua narrativa mostra o suficiente para o leitor decidir se deseja ou não seguir jornada junto a esse autor.

Misto Quente não é um livro complicado, mas jamais será um livro fácil. “Misto Quente” é Bukowski.

 


Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.


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