Miss Violence (2013)

“Nesta casa não temos nada a esconder.”

MISS 2

Título: Miss Violence (“Miss Violence”)

Ano: 2013

Diretor: Alexandros Avranas

Pipocas: 9/10

 Segundo longa ficcional de Alexandros Avranas, “Miss Violence” foi muito bem recebido pela crítica, levando o prêmio Leão de Prata de Melhor Diretor e o Coppa Volpi de Melhor Ator (para o excelente Themis Panou) no Festival de Veneza de 2013, além de ser indicado para o Leão de Ouro de Melhor Filme.

Falar sobre esse filme sem esbarrar demais em informações cruciais da trama exige um tanto de atenção. Fazendo jus às raízes teatrais gregas, berço da dramaturgia ocidental, o filme de Avranas já começa com ares de tragédia. Durante os primeiros cinco minutos o espectador percebe que será um filme pesado, mas nada pode preparar a audiência para a obscuridade que vai se desdobrando.

O drama, que estreou no Brasil em 2014, traz o dia a dia e uma família lidando com a perda de uma das meninas da casa, após o suicído de Angeliki (Chloe Bolota) durante sua festa de aniversário de 11 anos. Partindo dessa premissa, o filme lida com uma série de outros problemáticas dentro de uma família disfuncional.

Em meio à tensão praticamente constante, em um primeiro momento, o filme foca nas ações práticas, enquanto a família busca resolver os procedimentos relacionados à morte da menina. Com isso, surge o receio de Eleni (Eleni Roussinou) de perder a guarda de seus outros filhos, caso haja alguma acusação de negligência, ou de que a família não tem condições financeiras de arcar com as despesas das crianças. Tudo está à flor da pele, mesmo sem gritos ou sentimentos extravasados, e chama a atenção o fato de tomarem todas as providências de praxe, mas acabarem não oferecendo o devido cuidado uns aos outros.

Com o passar do tempo é possível identificar os motivos de tal resistência e frieza (em meio a breves momentos afetuosos), diante das fechadas e intrincadas personalidades dos protagonistas, inseridos em um ambiente marcado por violência e humilhação entre as quatro paredes do apartamento. A tortuosa rigidez moral imperante na família começa a ser explicitada ao mostrar as crianças sendo ensinadas a se castigarem fisicamente, como na cena em que Alkmini (Kalliopi Zontanou) é induzida a dar tapas no rosto de seu irmão Filippos (Konstantinos Athanasiades), por este apresentar um comportamento agressivo na escola (porque faz todo o sentido, claro).

O longa vai jogando bastante com aparências e expectativas. Desde o esforço encabeçado pelo patriarca de estabelecer uma imagem de família unida e compreensiva perante a sociedade, passando pela sensação de os personagens raramente serem sinceros, alem da clausura de seus sentimentos, em silêncios claustrofóbicos; tudo corrobora o contraste de o espectador estar inserido no cotidiano da família, mas não se sentir íntimo de seus membros.

Avranas utiliza vários elementos simbólicos, espalhado-os pelo filme para compor a narrativa. Bons exemplos são o bolo de aniversário não acabado, a câmera Polaroid que registra e constrói (enganosamente) momentos felizes, e a mesa, que aparece como o elemento mais valorizado. Esta representa a moral da casa e o lugar de onde o membro é banido, caso seja considerado indigno pelo patriarca. Ademais, é o local onde as pessoas se reúnem sem estarem de fato unidas. As figuras do patriarca (Themis Panou) e da matriarca (Reni Pittaki) da família também assumem um caráter simbólico, tanto que em momento algum eles são apresentados ao espectador com nomes. Isso reforça a ideia de que os eventos vividos pelos personagens podem acontecer – e de fato acontecem – em muitos lares, desde os exemplos mais horrendos até os mais “corriqueiros”. A fachada de família comum reforça de maneira inteligente a importância de debatermos acerca da violência doméstica e suas diferentes manifestações.

As opções quanto à forma também produzem efeitos interessantes. Durante a primeira parte do filme, é constante o enquadramento na altura das mãos dos personagens, explorando muito bem os sentimentos passados pela linguagem corporal como um todo, ainda de maneira sutil. Em contraste, na segunda parte, existem diversas tomadas que “desnudam” os protagonistas, colocando-os em primeiríssimo plano (big-close) com ângulo normal e frontal, enfatizando as revelações feitas sobre cada um. O plano sequência feito durante a visita do serviço social também se mostra eficiente na sensação de vasculhar a vida da família. A fotografia é (desconfortavelmente) bela, criativa e utiliza cores em tons suaves e opacos. É interessante o caráter provocador ao combinar o incômodo de momentos violentos com planos de aspecto artístico.

Um ponto muito importante e, certamente, um dos melhores atributos dessa obra é a cuidadosa direção de atores, que resulta em atuações muito sensíveis e afinadas. Segundo Avranas, houve uma atenção especial ao elenco infantil para explicar um pouco dos temas sensíveis abordados, preparando as crianças para a forte carga psicológica.

“Miss Violence” é marcado pelo desconforto, o qual aos poucos vai tomando formas diferentes, evoluindo para profunda consternação. A melancolia do longa já é anunciada no início, pela canção de Leonard Cohen que ganha destaque no filme, intitulada “Dance Me To The End Of Love” (“Dance-me Até o Fim do Amor”, a qual também possui uma origem trágica). Um prólogo para a aterradora tragédia que se desvela diante de nós.

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