Resenha: Meia-Noite em Paris — a síndrome dos anos dourados

Esse texto contém spoilers de Meia-Noite em Paris, mas leia mesmo assim!

Meia-noite em Paris

Título: Meia Noite em Paris (Midnight in Paris)

Diretor: Woddy Allen

Ano: 2011

Pipocas: 9/10

Dirigido e escrito por Woody Allen em 2011, o filme Midnight in Paris (Meia-Noite em Paris), estrelando Owen Wilson como protagonista, tem características muito singulares e interessantes. As duas mais proeminentes que serão destacadas nessa resenha são a originalidade e a leveza da história. O longa, que foi premiado com o Oscar de melhor roteiro original, flui na tela. Exatamente essa a palavra, Meia-Noite em Paris flui. As cenas vão se passando e o encantamento aumenta até que uma hora, sem mais nem menos, o filme acaba e você ficará se perguntando se ele realmente teria chegado ao fim. Isso se dá por causa da leveza do roteiro, pois, embora este seja um filme com muitas citações intelectuais, não há confusão na cabeça de quem o assiste. É como se o filme se valesse de várias referências complexas sem parecer pretensiosamente difícil.

Em relação à originalidade, deve-se congratular o trabalho maravilhoso de Woody Allen. A história começa quando um casal de noivos está de passagem por Paris, enquanto o pai da noiva tem alguns negócios na Cidade Luz.  O noivo, Gil Pender (Owen Wilson), é escritor e está no término de seu romance. A priori, ele pensa que a viagem seria ótima para que ele se inspirasse e pudesse dar fim à sua estória. Mas não é o que acontece. Gil se vê preso a uma família que é completamente diferente dele, especialmente na sua relação com as áreas mais intelectuais do conhecimento e arte, e isso fica cada vez mais exposto pela relação em que ele e a família da noiva, Inez (Rachel McAdams), mantém com a cidade. As cenas em que isso fica mais evidente, e até gerando antipatia pela família e, principalmente, pela noiva, são as caminhadas na chuva parisiense que Gil não pode tomar porque “não é permitido que pessoas gostem de ficar molhadas”

Meia-Noite em Paris

Somando-se a esses fatos, Inez e Gil começam a fazer vários passeios com amigos (super pedantes) dela. Paul e Carol Bates (Michael Sheen e Nina Arianda) levam os noivos para vários monumentos artísticos de Paris. Paul simplesmente não para de falar e mostrar o quão expert é em tudo. Isso irrita Gil profundamente, até porque sua noiva, que o subestima completamente, o hostiliza em relação a Paul. Sendo assim, sempre que eles saem para uma “emocionante” aventura em casal, Gil evita. Deixa Inez com o outro casal e sai para uma caminhada na madrugada de Paris. E assim, num determinado ponto da cidade um carro vem e o busca e o leva para uma época diferente, Paris, 1920. Nessa época ele se encontra com grandes nomes da arte, como por exemplo, Ernest Hemingway, Gertrude Strein, T.S Eliot, Salvador Dalí e Picasso, entre outros. Numa discussão sobre uma obra de Picasso, na casa de Gertrude Strein, ele conhece a musa do quadro (e de tantos outros quadros), Adriana (Marion Cotillard). A história de amor dos dois vai se desenrolando um pouco mais a cada noite. Quando Gil, que estava confuso por estar vivendo um romance com uma pessoa do século passado, resolve se envolver de verdade, Adriana o transporta para a época que ela achava ideal, o que impede o romance entre os personagens. O final para ele é o término iminente do seu noivado, levando-o a efetivamente se mudar para Paris (como cogitava durante todo o filme). Sobre o final de Meia-Noite em Paris: podemos dizer que ele é deliciosamente inconclusivo.

O filme faz com que pessoas que não lidam muito bem com a época em que tiveram de nascer se identifiquem imediatamente com o protagonista (este que vos fala inclusive). Mesmo assim, o personagem é bastante prolixo e passivo até o final. Isso faz deste um filme com um protagonista sem carisma, o que é bastante incomum. Contudo, nada disso tira a beleza do filme e a reflexão de que sempre haverá um tempo passado que foi melhor que o presente. Isso inclusive acontecerá com o nosso tempo presente um dia (é difícil, mas dá pra acreditar que possivelmente as coisas serão piores daqui pra frente?). A “síndrome dos anos dourados” se realiza, atualmente, na enorme quantidade de nostalgia fabricada que nos é dado. Isso não é, necessariamente, ruim, mas pode fazer mal se evoluir para a completa não aceitação do presente. O que muita gente ignora é que o que é considerado ruim pode eventualmente vir a ser genial e revolucionário no futuro. Não faltam exemplos de escritores como Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa que, enquanto vivos, tiveram suas obras escorraçadas pela sociedade artístico-intelectual da época e hoje são escritores aclamados. Se pensarmos em pintores que viraram verdadeiros pilares artísticos e que viveram de maneira totalmente anônima, teremos mais exemplos ainda.

Meia-Noite em Paris

Somados a tudo isso, existem outros detalhes interessantes dentro em Meia-Noite em Paris. A trilha sonora muito agradável ganhadora de um Grammy, por exemplo. E se você fala espanhol e francês poderá ter bastante contato com esses outros idiomas. Como o filme é rodado em Paris, não é preciso nem falar sobre a fotografia maravilhosa. Em suma, é um filme indicado para todas as pessoas, mas um pouco mais para aqueles que têm alguma inclinação artística. O único enigma é: por que o responsável pelo pôster brasileiro não viu o filme? 

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