A maternidade e os costumes em The Handmaid’s Tale

Em algum momento da história, um ser observou os seus companheiros de grupo e viu que eles eram. E, se eles viviam em grupo, eram, de alguma forma, semelhantes. Logo, ele também era. A partir dessa consciência filosófica, deveria haver uma consciência de corpo. De serventia e de significado. A primeira consciência é instintiva, porque é física e observável. É o corpo e o papel reprodutivo. Para fins de análise da nossa sociedade, o homem é responsável pela proteção da cria, enquanto à mulher é delegada a maternidade. Ao longo da História, em diferentes culturas, a consciência deste papel reprodutivo foi representada de maneiras distintas. O ponto em comum, entretanto, é que o corpo feminino sempre foi alvo de atenção diferenciada, seja no enclausuramento islâmico ou no erotismo virginal de Botticelli; na inquisitorial caça às bruxas ou no instinto selvagem de um tabefe no Paul Verhoeven.

Contém spoilers da série até o episódio 4 da segunda temporada.

The Handmaid’s Tale” é o tipo de obra que pode ser observada sob diferentes aspectos e a partir deles surgem outras observações que transformam a análise em uma árvore muito ramificada. Talvez, o tronco dessa árvore, que define a série de maneira mais abrangente, seja a maternidade. As aias são, por definição, mães que as esposas dos comandantes não podem ser e essa escassez de ventres férteis torna todas as relações mais sensíveis. De fato, é curioso pensar que uma sociedade em que a geração de um filho tenha tanta importância se sustente através da opressão das mulheres que podem gerar esses filhos.

Nos episódios 3 e 4 da segunda temporada, vemos June tentando escapar de Gilead. Grávida, ela se preocupa tanto com a saúde do bebê em seu ventre quanto com a da filha que está em poder de Selena. Enquanto o presente descreve as desventuras da aia numa fuga intrincada, o passado mostra June enfrentando as dificuldades do exato tema deste texto, a maternidade. Da vontade de engravidar, da preocupação em cuidar, do julgamento pelos modos como cuida, da finalidade desses cuidados e do projeto de um futuro para a cria. June vive, através dos flashbacks, o papel de ser mãe e de ter mãe.

A mãe de June é uma libertária. Feminista com afinco, ensinou desde cedo a filha a lutar pelos seus direitos. A decisão de June de formar uma família “tradicional” foi uma decepção para a mãe, por essa entender que a luta contra o patriarcado era mais importante que “brincar de casinha”. Por outro lado, a criação de June é o pilar que sustenta toda a própria luta dela pela liberdade em Gilead. Cada vez mais a aia se torna o símbolo da resistência aos novos costumes sociais, embora, por ocasião desses mesmos rituais, ela esteja cada vez mais inserida na cultura da nova nação americana, fato que pode ser observado nos cumprimentos automáticos que ela usa com pessoas que também agem contra o sistema. “Sob o olho Dele” ou “Que o Senhor abra” são os substitutos Gileadianos para “Até mais/ Até logo” ou um “como vai?” transitório.

Seguindo o pensamento ritualístico, podemos partir para uma análise das influências antigas da definição do feminino como um ser servil. As representações idólatras e míticas das principais deusas Gregas, por exemplo, denotam uma função utilitária, enquanto aos deuses principais as incumbências parecem ser mais ativas. Afrodite é a deusa da beleza e do amor; Atena é a deusa da sabedoria; Deméter é a deusa da terra fértil; Hera é a rainha dos deuses, a deusa das damas e dos casamentos. O padrão apresentado aqui é que as deusas representam meio para chegar a uma finalidade e essa finalidade é representada pelos deuses homens: Dionísio, deus das festas, do vinho e do prazer; Apolo, o deus Sol, da ordem, da justiça e da lei; Ares, o deus da guerra etc. Claro que, sendo esse um retrato parcial de uma mitologia vasta como a grega, haverá exemplos contrários como Eros, Têmis e Ártemis e toda  a infinidade de heróis e figuras marcantes dessas narrativas.

maternidade

A capacidade geradora de vida do corpo feminino é o que o torna tão ameaçador ao longo da história. Para que esse “superpoder” de maternidade fosse protegido, um grande número de sociedades humanas optou eximir a presença feminina das linhas de frente das batalhas físicas. Quando essas sociedades se tornaram “menos brutas” e mais políticas, esse evanescimento do poder feminino foi aplicado à tomada de decisão, de forma semelhante à analogia das deusas do parágrafo anterior. Essa é uma das intenções da série, mostrar que os lugares de cada gênero são impostos por costumes, não por limites físicos ou biológicos. “The Handmaid’s Tale” é um grande estudo antropológico.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.