Resenha | Mate-me Por Favor (2015) – o terror da adolescência

Título: Mate-me Por Favor (“Kill Me Please”)

Direção: Anita Rocha da Silveira

Ano: 2015

Pipocas: 8/10

Nem sempre a Sétima Arte se resume, em suas obras, a querer nos contar uma história. Seja baseado em uma história real, numa harmoniosa animação ou na beleza e plenitude de um filme musical, o enredo tem um papel fundamental para complementar o que está sendo apresentado. Mais do que isso, não basta a história ser boa ou não, e sim no que tem a dizer, talvez na sua estética ou na estranheza com que foi conduzida.

Dito isso, “Mate-me Por Favor”, o primeiro filme da diretora Anita Rocha da Silveira – que fez a sua estreia no Festival de Veneza em 2015 e depois passou pelo Festival do Rio 2015 -,  é uma pérola do cinema brasileiro. A sinopse diz o seguinte: Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma onda de assassinatos invade o bairro. O que começa como uma curiosidade mórbida se apodera cada vez mais da vida dos jovens habitantes. Entre eles, Bia, uma garota de 15 anos. Após um encontro com a morte, ela fará de tudo para ter a certeza de que está viva.

Lendo essa descrição – que só ao chegar nos minutos finais do filme entendi o quanto diz muito sem dizer nada – faz parecer que o longa remete muitíssimo há um filme slasher, o que não é o caso. O que temos aqui é uma verdadeira trama repleta de mistérios e significados que te deixará inquieto até o final.

Muitas vezes, o cinema usa de uma técnica um pouco incomum para expressar a sua obra, o que vem a seguir é uma recepção negativa de um público que não é acostumado com essa forma diferente, que não precisa apostar em familiaridades – e clichês, para os acomodados – e conquistar os seus méritos. Assim, Anita Rocha dirigiu o seu roteiro. Uma mistura de drama e suspense de aspecto atípico, composto de uma fotografia ora roxa, ora fria azulada e humor ímpar, introduzindo até aspectos religiosos para firmar a sua obra.

Primeiro somos apresentados à protagonista, Bia (Valentina Herszage) – premiada como melhor atriz no Festival Rio 2015) -, e suas três melhores amigas: Renata (Dora Freind), Mariana (Mariana Oliveira), Michele (Julia Roliz), o típico grupo de amigas inseparáveis que compartilham seus momentos e passam por tudo juntas. Enquanto elas garantem a parte agradável e alegre do filme, o terror toma conta dos adolescentes conforme a misteriosa onda de assassinatos confirma a cada dia uma nova vítima. Aos poucos, acompanhamos suas virtudes e relacionamentos se perderem pelo abalo da violência.

mate-me por favor

Na lógica, o que queremos são respostas e que um responsável pelos crimes seja apontado. Enquanto nos apegamos ao retrato da violência contra a mulher ser desenvolvido, ficamos incomodados pela resolução desse mistério. E Anita Rocha não se poupa em apontar suspeitas manjadas à medida que uma metáfora se ascende.

 

A protagonista, Bia, é o pilar deste cenário. Suas alterações, obscuridades, inclinações e desejos repentinos são o que levanta mais questionamentos sobre o que está se desenrolando. Do mais chocante e angustiante estilo, Anita Rocha fez de sua obra são um retrato da adolescência: das dificuldades, das incertezas, da puberdade, da aceitação, da autodescoberta, da depressão, da rejeição e de muitos sentimentos que nos invadem, enquanto, no íntimo, soltamos um “mate me, por favor”, na esperança de que esse gemido nos liberte dessa sensação que nos rói aos poucos. Para cada morte, um adeus às personalidades que se foram.

“Mate-me Por Favor” é um dos belos casos em que a trilha sonora trabalhada é também um elemento de grande importância para a compreensão da trama e dos aspectos do filme – principalmente a música tocada nos minutos finais. Dito tudo isso, vale ressaltar o cuidado de Anita Rocha em tratar sobre a adolescência, visto a ausência de adultos – se existem adultos no filme, a câmera não focou em seus rostos e só fez uso da voz ou apareceu numa cena de filme/novela na TV.

“Mate-me Por Favor” é uma preciosidade do cinema brasileiro. Se comédias já estão manjadas assim como suas próprias ideias e não te convencem a conferir uma película brasileira, o primeiro longa-metragem de Anita Rocha de Silveira, composto de talentos desconhecidos e incríveis, é um exemplo ímpar de que grandes obras ainda fazem parte do nosso acervo nacional e que não podem ser ofuscadas por puro preconceito.

 


E você, já conferiu essa pérola do cinema nacional, e assim como eu percebeu muitas coisas e precisa comentar? Nos conte aqui, na sessão dos comentários, ou no nosso grupo do Telegram ou Facebook! E para quem nem nunca ouviu falar do filme, também se sinta a vontade para se expressar, aproveitar assistir ao filme.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.