Magia ao Luar (2014)

-Eu não posso te perdoar. Só Deus pode.

-Mas você disse que Deus não existe.

-Exatamente o meu ponto.

Magia-ao-Luar

Título: Magia ao Luar (“Magic in the Moonlight“)

Diretor: Woody Allen.

Ano: 2014

Pipocas: 7/10

Já faz bons anos desde que a comunidade cinematográfica em geral desistiu de ver algo totalmente diferente que venha das mãos experientes e cultuadas de Woody Allen. O mestre por trás de clássicos como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977, tradução inexplicável do título original “Annie Hall”), já facilmente reconhecível por sua estética, formatação de personagens e modo de contar estórias, não se faz de rogado e cumpre a entrega anual que seu público fiel já aguarda – embora, em termos de qualidade, “Magia ao Luar” (“Magic in the Moonlight”) seja aquém de outras películas do cineasta.

“Magia ao Luar” conta a estória de Stanley (Colin Firth, um dos melhores e mais versáteis atores britânicos, indo desde “Mamma Mia!” e “Bridget Jones” até “O Espião que Sabia Demais” e “O Discurso do Rei”), um mágico também conhecido por seu nome artístico Wei Ling Soo e por seu ego incrivelmente inflado, assim como por sua carreira sólida desmascarando médiuns e magos farsantes. Isso o leva a ser convidado por seu amigo de longa data Howard (Simon McBurney, também de “O Espião Que Sabia Demais” – a Inglaterra e seus 30 atores, fazer o quê?), que apesar de também ser mágico e desmascarar fraudes, não conseguiu desvendar o engodo por trás dos aparentes poderes da americana Sophie Baker (Emma Stone, que estava mais bonita em “O Espetacular Homem-Aranha 2”). O cético Stanley, então, torna sua missão pessoal descobrir e expor as mentiras da garota.

Se você já viu dois filmes do Woody Allen, você provavelmente já imagina como este filme se desenrola. Tudo o que se espera de um filme do diretor está ali: o filme abre com créditos em letra branca contra um fundo preto ao som de uma canção dos anos 50 (“You do something to me / something that simply mystifies me…”, que encaixa perfeitamente); ao fim desta sequência, estamos em 1928 e conhecemos o avatar de Allen para esse filme: a pessoa de meia-idade, cética e desgostosa com a vida, que afasta todas as pessoas de si por causa de seu sarcasmo inveterado e seu ego exacerbado. E, é claro, não demora muito para estarmos em uma terra estrangeira (sul da França, para ser mais específico) cheia de charmes (o que não é realmente uma regra para o cineasta, mas uma marcação extra na sua cartela de bingo cinematográfico).

Ainda assim, o que tornou os filmes de Woody Allen respeitados e esperados pelo mundo afora não foi sua extrema criatividade na trama, mas seus diálogos bem construídos e uma ótima dinâmica entre os atores – e é exatamente nessas áreas que “Magia ao Luar” não atinge as expectativas. Embora Colin Firth esteja incrível e totalmente no comando de seu personagem (como sempre), o roteiro corrido não dá muito espaço para sentirmos a química entre Stanley e Howard e, mais crucialmente, entre Stanley e Sophie. Ainda assim, Eileen Atkins (a Gramma de “Dezesseis Luas” – se é que alguém viu esse filme) se sobressai como a tia-papel-materno de Stanley, rendendo algumas das melhores cenas do longa-metragem ao contracenar com Firth.

Apesar destas falhas, o visual do filme compensa os incômodos. A fotografia valoriza intensamente a incrível região francesa onde o filme se passa, e a paleta de cores quentes usada por Allen nas cenas de mágica/mediunidade servem para diferenciá-las do resto do filme, além de fazer uma ponte de julgamento moral entre as duas atividades (ilustrando a visão do diretor sobre elas). Além disso, o humor ácido do cineasta continua presente, pontuando com uma visão única cenas triviais.

Como um todo, “Magia ao Luar” funciona de forma constante, porém não excepcional. Woody Allen posicionou seu filme temporalmente para unir o útil ao agradável – consegue que sua persona que se sobressai por ser cética não pareça anacrônica, enquanto possibilita que ele transite na sua época favorita – e toda a dinâmica ceticismo/ingenuidade que perpassa o filme segue esta mesma ideia. Contudo, esta também acaba por ser a falha de Allen, ao contar uma estória que demandaria um grau de inocência dos espectadores que já não temos desde os anos 20. Ao fim da exibição, sentimos o filme artificial; parece que, dessa vez, conseguimos ver parcialmente o jogo de espelhos e fumaça, e a magia teve de se contentar em ser um belo e agradável truque.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.