Comentário | Literatura brasileira – como se entender como parte de um mundo maior?

Sempre que se teoriza sobre literatura – a literatura brasileira inclusive – muitas coisas são levadas em consideração: discurso, ideologia, cultura, época, biografia, e mais tantas outras variáveis. Assim sendo, nada mais natural do que, a princípio, pensar em uma literatura para cada país ou, ao menos para cada idioma. Entretanto, em um mundo cada vez menor (ou mais globalizado, se preferir), esse tipo de divisão talvez não faça tanto sentido.

Recordo-me que, durante a faculdade de Letras, fui surpreendido muito positivamente pela literatura lusófona feita por Mia Couto e José Eduardo Agualusa,  respectivamente, Moçambicano e Angolano. Não apenas suas histórias soam frescas, por darem vozes a personagens de países cujas as histórias normalmente não são contadas, mas elas também são inundadas de uma cosmovisão única e interessantíssima. A obra de ambos os escritores agrega muito valor para tudo o que já foi escrito na língua portuguesa de Camões, Pessoa e de Machado de Assis.

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Além disso, como enquadrar livros como Lolita, de Nabokov, nascido na Rússia, mas cuja a obra foi escrita em inglês. Ou então, o que dizer de Ítalo Calvino – coincidentemente, um ítalo-cubano. Por esses, e tantos outros motivos, fazer divisões literárias por países e, às vezes, mesmo por idiomas, talvez não seja tão interessante quanto exaltar o esforço de quem sentou, planejou e escreveu a obra. No fim das contas, literatura é literatura – onde ela é feita é uma circunstância (que pode influenciar muito no resultado final).

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Entretanto, quando falamos de Brasil, precisamos lembrar que o país tem fama de ser mau leitor. Isso acontece por vários motivos que misturam um ensino pobre e defasado de literatura nas escolas (públicas principalmente), elitização do livro enquanto mercadoria e meios de comunicação que até se preocupam com campanhas no estilo “ler também é um exercício”, mas, por causa dos motivos anteriores, é visível que as bibliotecas domésticas não vão pra frente. Nem se quer existem, na verdade.

Nesse caso, talvez fosse interessante trabalhar para, primeiramente, promover a leitura (mesmo que de literatura comercial) como parte do cotidiano das pessoas para, em seguida, trabalharmos com a exposição dos nossos autores novos e clássicos, não como salvadores da pátria, mas da mesma forma como estrangeiros tendem a ver escritores de tais nacionalidades: como grandes autores.

Assim, pode-se dizer que promover a literatura brasileira é um trabalho posterior a promover a leitura no Brasil. Algo que exige a criação de uma base cultural fundamental e complexa que faça com que a maioria das pessoas entenda que existe um mundo maior e que todos fazemos parte dele.

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.