Lista #8 – Sua Majestade, O Rei do Blues

Apenas uma nota.

Grande parte dos músicos discípulos e fãs em geral dizem que uma nota já é o suficiente para reconhecerem o som do Blues Boy King e sua Lucille.  Aliás, esse nome que B.B. King batizava todas as suas guitarras tem uma história curiosa. O que parecia ser mais uma noite comum de show quase se transformou em tragédia, pois uma briga entre dois homens acabou causando um acidente que colocou o prédio em chamas. No meio da correria, B.B. King lembrou que havia esquecido sua Gibson, então arriscou sua vida para ir buscá-la. Acabou batizando o instrumento com o nome da mulher por quem os homens brigavam – Lucille -, para lembrar de nunca mais fazer algo doido assim de novo.

king

Nascido Riley B. King, no estado do Mississippi (de onde vieram outros grandes nomes do blues, como John Lee Hooker, Muddy Waters e Skip James, só para citar alguns), em setembro de 1925. Desde os sete anos, já trabalhava pesado nas plantações de algodão, e foi lá que ouviu pela primeira vez as canções de blues cantadas pelos trabalhadores rurais para amenizar a dureza dos dias. Crescido em um meio extremamente hostil por conta do ódio e da opressão racial em ascensão no sul dos EUA, B.B. King teve que lidar com ameaças constantes durante sua trajetória.

Seu imortalizado pseudônimo surgiu no início da carreira em Memphis, quando ainda trabalhava como dic-jóquei na estação de rádio WDIA. Uma mistura de seu nome com o apelido Beale Street Blues Boy, fazendo alusão à uma rua boêmia do lugar.

Influenciado por nomes como Django Reinhardt, Charlie Christian e, principalmente, T-Bone Walker, B.B. King alçou voos cada vez mais altos, levando o blues para todo o público e abrindo caminho para outros músicos negros. Influenciou nomes da música e grupos de diferentes gerações, fazendo parceria com vários. Dentre eles U2, Eric Clapton, Jimi Hendrix, Rolling Stones (fez uma turnê com eles em 1969), Led Zeppelin, George Harrison, Slash, Peter Green, John Mayer, dentre muitos outros. Muito do que você curte de blues, rock e até de outros gêneros hoje passou pela influência dele.

Mesmo após ganhar 15 prêmios Grammy e entrar para o Hall da Fama do Rock, B.B. King não se achava o Rei do Blues e dizia que queria sempre evoluir, pois um dia sem aprender nada seria um dia perdido.

Na última quinta-feira (14), o mundo teve que lidar com a triste notícia de seu falecimento, aos 89 anos. Para homenagear a imortalidade de sua voz, guitarra e carisma, o Resenhas.Jão separou algumas das tantas canções memoráveis gravadas por essa lenda.

1 – Three O’Clock Blues:

Em 1951 B.B. King chegou pela primeira vez ao topo das paradas de R&B, com esse single, permanecendo no posto por diversas semanas. Por um tempo aproveitava o êxito do single para fazer o máximo de shows que conseguia e voltava para trabalhar na rádio no dia seguinte. Posteriormente, tal sucesso possibilitou que começasse a fazer a primeiras turnês pelos EUA. A voz de B.B. King na faixa e o som rasgado de sua guitarra soam como uma lamuriosa conversa na madrugada.

2 – Rock Me Baby:

Lançado em 1964, esse blues de 12 compassos (progressão de acordes mais comum no blues tradicional) escrito por B.B. King em parceria com Joe Josea ficou no Top 20 das paradas de R&B e  no Top 40 das paradas de música pop. A grande exposição fez com que a música se tornasse um clássico do blues, sendo tocada por vários guitarristas. Provavelmente a mais marcante das outras interpretações seja a de Jimi Hendrix durante o Festival Internacional de Música Pop de Monterey, em 1967. A letra é de uma sensualidade bem direta que combina perfeitamente com a atmosfera musical da faixa.

3 – Sweet Little Angel:

B.B. King e Jules Taub fizeram “Sweet Little Angel” como uma versão da gravação de Robert Nighthawk’s de uma faixa chamada “Sweet Black Angel”, mudando o título e algumas passagens da música. Também foi um de seus maiores sucessos nas paradas de R&B no início dos anos 60. Após voluptuoso solo com sua guitarra, entra a voz de B.B. King conduzindo a faixa até seu clímax, pontuado pela seção de metais. Uma balada bastante sugestiva.

4 – The Thrill is Gone:

Lançada no final dos anos 70, sem dúvidas esse é o maior sucesso pop da carreira de B.B. King, fazendo uma releitura da música de Roy Hawkins. King utiliza uma base blues-rock para a melodia principal, inserindo uma pegada inspirada no jazz ao longo da música. O groove e a atmosfera de tensão acentuada nas aparições dos metais casam perfeitamente com dramaticidade da voz de B.B  King (que lhe rendeu o Grammy de Melhor desempenho vocal masculino de R&B) e dos solos de sua guitarra, com seus vibratos inconfundíveis, contando a história de libertação de um amor destrutivo. Aumente o volume!

5 – Everyday I Have The Blues:

Após a regravação feita por Memphis Slim em 1949, essa canção se tornou um blues standard, ficando por conta de B.B. King a versão mais marcante, ganhadora do prêmio Grammy Hall of Fame. Com a primeira versão gravada em 1955, “Everyday I Have The Blues” chegou ao oitavo lugar nas paradas de R&B e se tornou uma das músicas essenciais do repertório de B.B. King, aparecendo em diversas gravações. B.B. King atribuiu o sucesso ao arranjo solto de Maxwell Davis. “Ele criou uma atmosfera que me deixou relaxar”, acrescentou.

6 – There Must Be a Better World Somewhere:

Uma canção belíssima e reflexiva feita por Dr. John que ficou ainda mais especial com uma interpretação inspirada de B.B. King, dando à faixa toda sua potência vocal e emoção. A canção rendeu o Grammy de Melhor Gravação Étnica ou Tradicional, em 1982.

7 – To Know You Is To Love You:

Stevie Wonder faz uma música incrível (quase uma redundância dizer isso) e te oferece. O que você faz? Grava, é claro! Escrita por Stevie Wonder e Syreeta Wright, a canção também virou o título do álbum lançado por B.B. King em 1973. O arranjo instrumental vibrante e suingado com um estilo meio funk expandiu ainda mais os novos horizontes que B.B. King havia explorado com “The Thrill Is Gone”. Um bom exemplo disso foi a participação de B.B. King no programa Soul Train. 


8 – Sweet Sixteen:

Lançada em 1960, com B.B. King voltando ao seu melhor após um período de certa estagnação nas paradas de R&B. King prezava muito pela emoção ao contar as histórias em suas músicas. Nessa, ele faz sua Lucille entoar uma melodia sinuosa que consegue passar muito sentimento com poucas notas aqui e ali, enquanto canta para a amada da música com um vocal carregado e em tom de apelo.

9 – Why I Sing The Blues:

Clímax do álbum “Live & Well”, de 1969, o primeiro de King a entrar no Top 100. Uma canção com um groove animado e dançante ao mesmo tempo, que traz uma fortíssima crítica social da condição dos negros nos EUA, desde os tempos do tráfico negreiro até a situação de pobreza e segregação da época. Nas letras ele deixa claro que canta o blues porque este é sua paixão e também por ser uma forma de expressar sua indignação. Sensacional. (música disponível apenas no formato desktop)


10 – Riding With The King:

“Riding With The King” – do excelente álbum homônimo – é uma colaboração entre B.B. King e Eric Clapton (é muita lenda para pouco metro quadrado, gente!) ganhadora do Grammy de Melhor Álbum de Blues Tradicional. Os músicos ingleses acabaram sendo importantes para os  estadunidenses prestarem mais atenção no berço do blues e Clapton foi um dos maiores entusiastas. “Riding With The King” de certa forma representa também a grande amizade dos dois. Com algumas alterações na música original de John Hiatt a faixa caiu como uma luva para representar o grande ícone do blues.

Entrevistador: “O que você deseja fazer com sua música?”

B.B. King“Tocar o melhor que eu puder, alcançar o máximo de pessoas, o máximo de países… Em outras palavras, queria que o mundo todo pudesse ouvir B.B. King cantar e tocar o Blues.”

Felizmente, ele conseguiu. E como gostava de dizer para a nova geração cheia de sonhos: o céu é o limite. Lindo. Com olhos marejados – não mais de tristeza, e sim de admiração e inspiração – deixo nossa humilde homenagem e agradecimento.

Obrigada, Riley. Obrigada, B.B. King.

 

Se você gostou da nossa lista, poderá gostar de:

B.B. King – Live at the Regal (1965)

B.B. Kin – Live in Cook County Jail (1971)

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