Lista #30: Por que as animações da DC funcionam e o DCEU não?

O DCEU – como é chamado o universo dos personagens da DC no cinema – é, na melhor das hipóteses, bem-intencionado, mas não muito mais que isso. Enquanto Aquaman e seus amigos têm sofrido para conseguir emplacar um ou outro filme bom, as animações da DC recebem louros e elogios desde o início da década de 90. Quase trinta anos depois, desenhos como “Batman: A Série Animada”, “Jovens Titãs” e “Liga da Justiça” são referenciais destes herois para duas gerações que os viram nas TVs antes de irem buscar os encapuzados nos quadrinhos. Nesta lista vamos pensar nas principais razões pelas quais isto acontece.

animações da DC

Animações da DC vivem, DCEU mal sobrevive

Caso você seja uma daquelas pessoas em negação, é preciso aceitar os fatos: o DCEU está longe de ser um sucesso, seja em qualidade ou bilheteria. Em cinco filmes, investiu 1 bilhão de dólares e teve cerca de 3 bilhões de retorno; somando os custos de marketing e semelhantes, que não estão inclusos nestes valores, o lucro da Warner Bros., dona dos personagens, não é muito gratificante. O universo dos X-Men, por exemplo, investiu 1.3 bilhões (com o dobro de filmes) e faturaram 5 bilhões. Outro exemplo da falta de sucesso da franquia de Superman e companhia está no que deveria ser o ápice dele: “Liga da Justiça”, o filme que fãs de quadrinhos imaginaram por décadas, faturou $657 milhões de dólares, contra, por exemplo, $746 milhões do horrível “Esquadrão Suicida“.

Se os números são duvidosos, a qualidade dos filmes segue o mesmo caminho. “Homem de Aço” (2013), primeiro filme da franquia, encontrou uma recepção morna, enquanto “Batman vs Superman” (2016) segue como o longa de herois que mais divide opiniões até hoje. Se “BvS” gerou dúvidas, todos tivemos certeza de que “Esquadrão Suicida” (2016) é uma desgraça cinematográfica com poucos paralelos. “Mulher-Maravilha” (2017) deu um fôlego para a moribunda DC com um filme que arrebatou audiências e mostrou que ainda havia possibilidades de resgate para esses personagens, mas “Liga da Justiça” (2017) chegou logo depois cercado de problemas em sua produção, surgindo como um quebra-cabeça mal montado a partir das visões díspares de dois diretores muito diferentes em seus estilos – e mais uma vez dividiu seu público, amargando a pior bilheteria do DCEU até o momento.

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Mesmo que a qualidade do universo da DC seja questionável, os números não mentem: não é o que o estúdio esperava para figuras que se tornaram ícones mundiais. Por outro lado, se no cinema a franquia respira por aparelhos, as animações são recipientes de elogios desde a chegada de “Batman: A Série Animada” em 1992. Este desenho, além de varrer as premiações da época, inspirou muitas outras produções da Warner Bros., definiu características de design, iniciou um universo animado que introduziu herois para uma nova geração e ainda criou a Arlequina – e estamos falando somente do primeiro desenho. Além das já citadas, “Super-Choque”, “Liga da Justiça Sem Limites” e “Justiça Jovem” arrebataram e arrebatam crianças e jovens mundo afora, enquanto o estúdio segue produzindo longas-metragens voltados para públicos distintos, inclusive adultos.

Assim sendo, não há discussões: as animações da DC funcionam, seus filmes em live-action, não. Mas… Por quê?

 

1) Foco nas histórias, não no universo

Embora de fato tenha havido um universo compartilhado das animações da DC na década de 90, nenhum dos desenhos envolvidos existia em função deste universo. As séries animadas do Batman e do Superman – as duas primeiras da franquia – funcionavam independentemente do que acontecia nas demais produções. Isto gerava uma capacidade narrativa ilimitada para os desenhos: não havia limitações de para onde a história poderia seguir e como ela poderia afetar as outras. Foi assim que elas conseguiram estabelecer suas continuidades com histórias excelentes que funcionam para todas as idades até hoje, vinte e cinco anos depois de seus lançamentos.

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Não é, nem de longe, o caso do DCEU. Filmes como “Batman vs Superman” e “Liga da Justiça” claramente foram produzidos em correria, tentando competir com a Marvel – que estava cinco anos e anos-luz à frente da Distinta Concorrência na produção do seu universo cinematográfico. Feitos às pressas, os filmes que uniam seus herois eram suas prioridades mal-acabadas, sempre com roteiros furados e dependendo da boa vontade das pessoas para conquistar seus corações.

Esta é a primeira lição que o DCEU precisa aprender com as animações da DC: se você conta boas histórias, o público vai se importar com seus personagens, e os esperados crossovers acontecerão de forma natural.

 

2) Conhecimento dos personagens e planejamento de seus arcos

São duas coisas que andam de mãos dadas: quando você conhece seus personagens com profundidade, seus arcos são construídos com muito mais clareza. Além disso, se você tem o domínio do que é crucial na representação de cada um deles, o público vai aceitá-los com mais facilidade, mesmo que estranhem mudanças que você pode fazer em características tangenciais do personagem para o andamento da trama.

As animações da DC, ao focarem nas histórias, conseguem aprofundar nas identidades de seus herois e vilões, conseguindo manter suas representações fidedignas enquanto brincam com diversos cenários possíveis. O episódio “Planeta Arena” do desenho da Liga da Justiça traz uma ambientação que lembra bastante o arco “Hulk Contra o Mundo”, colocando o Superman como prisioneiro em um planeta de gladiadores. Ainda assim, mesmo fora de seu elemento, Superman continua sendo o heroi que amamos (ou não?) ao se recusar a matar seu adversário caído e inspirar todo um mundo a se rebelar contra um ditador que queria distraí-los através de uma tática óbvia de pão-e-circo, só que sem o pão. Ali vemos o Último Filho de Krypton nos termos que o definem: mesmo sendo capaz de subjugar, sempre escolhe a reconciliação, e inspira o mundo à esperança e paz.

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Aí lembramos de “Homem de Aço”, dirigido por Zack Snyder, com o inexperiente Super-Homem fazendo massagem forçada no pescoço do General Zod. Embora isso faça sentido com o personagem criado ali, vai contra a construção do heroi como símbolo, gerando grande parte da rejeição que o filme recebeu. É entendível: não é a capa vermelha e o S no peito que faz o Superman, são seus valores. Zack Snyder repetiu este erro em “Batman vs Superman”, tendo reações semelhantes da audiência em relação à forma como o Batman estava mais fascistinha do que normalmente já é, usando armas de fogo e matando (ou condenando à morte) sem ter muitos problemas de consciência.

A DC animada compreende o valor de conhecer a essência de seus personagens suas animações, e “Mulher-Maravilha” deu sinais de que talvez haja esperança neste âmbito também nos cinemas. Só talvez.

 

3) Bruce Timm

Se o MCU é o que é graças ao produtor/mentor/planejador Kevin Feige, as animações da DC são um paradigma incrível de qualidade graças à mente e aos traços de um certo Bruce Timm. O animador “só” criou “Batman: A Série Animada” e co-criou “Superman: A Série Animada”, “As Novas Aventuras do Batman”, “Batman do Futuro”, “Super-Choque”, “Liga da Justiça” e sua continuação “Liga da Justiça: Sem Limites”. Não era pouca coisa.

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Além do seu traço distinto, Timm também influenciou as animações da DC com seu estilo narrativo, configurando as personalidades dos herois de maneira marcante ao ponto de defini-los para além das séries animadas com as quais estava envolvido. A série de jogos “Arkham” traz muito do Batman taciturno, com quase nada de Bruce Wayne, que Timm estabeleceu no desenho de 1992, e sua criação, a Arlequina, é talvez a personagem mais rentável do DCEU atualmente.

Ter uma mente referencial na qual se possa confiar faz muita falta para o universo da DC nos cinemas. Zack Snyder foi esta pessoa durante um tempo, mas o tom individual que ele estabeleceu – com suas metáforas, 52 tons de cinza e bas. Tan. Te. Slow. Motion – fez com que ele precisasse assumir pessoalmente a criação de todos os filmes do estúdio, de forma a manter alguma regularidade narrativa. O problema é que, além de levar seus filmes excessivamente a sério, Snyder é incapaz de desenvolver um roteiro que não seja complexo demais para o seu próprio bem. Se duvida, só lembrar e tentar explicar o plano de Lex Luthor em “BvS”, ou o arco de Zod em “Homem de Aço”. Em poucas palavras, Snyder não é confiável o suficiente para ser o Bruce Timm do DCEU. Queremos realmente uma série de filmes que copiem a recusa do diretor em usar cores?

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Zack Snyder dirigido por Zack Snyder.

A falta de um produtor, planejando o arco maior dos filmes acima dos diretores, é sentida constantemente no cinema da DC. A confusão em “Liga da Justiça”, sendo dirigido por Joss Whedon e Zack Snyder e nenhum dos dois ao mesmo tempo, é falta de um Bruce Timm dando direções concretas para a evolução da trama; a desconexão de “Esquadrão Suicida” em relação aos outros filmes também grita “saudades de um produtor com visão de longo prazo”. O mundo seria um lugar diferente se o DCEU tivesse seu Bruce Timm.

É claro que acontecem vários problemas e questões de bastidores os quais jamais saberemos. As razões listadas aqui não buscam esgotar as explicações dos problemas do estúdio, mas apontar que, se o DCEU está morto, as animações da DC têm o que é preciso para esmagar esta rata que é ter uma franquia de sucesso – tudo isso sem nem comentar sobre as animações em longa-metragem que a DC têm feito para adultos, mas isso é matéria para outro artigo. Com quase três décadas de experiência e construindo herois e heroínas – ícones! – para duas gerações, as séries animadas trazem uma bagagem de sucesso indiscutível. Aprenda consigo mesma, Warner.

 


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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.