Lista #27: Brasileiros e as 10 músicas que entendemos errado

Brasileiro é uma coisa muito curiosa. Nós gastamos incontáveis horas fabricando – e rindo de – memes (e sua evolução natural, o mene), fazemos piada de nossas piores desgraças e gostamos de destruir músicas com versões mequetrefes traduzidas – isso quando não simplesmente temos músicas que entendemos errado e usamos para fins completamente diferentes do que elas foram planejadas. E é isso que essa lista veio te contar: essa sua sexy/romântica/raivosa playlist pode estar meio torta, colega.

músicas que entendemos errado
The Walking Boys.

Em tempo: essa lista não é sobre letras que você cantava errado, até porque já tem cerca de 6 bilhões e meio de textos assim pela internet. Aqui estamos falando daquelas músicas que entendemos errado completamente mesmo – tipo eu fazendo prova de matemática. Vem ver.

#10: “What Goes Around… Comes Around”, do Justin Timberlake, não é uma música legal para esquentar sua relação

Talvez a principal armadilha dessa lista de músicas que entendemos errado esteja na melodia. Assim como outras músicas que vou apresentar aqui, “What Goes Around…” tem uma batida forte com uma letra que intercala a suave voz de Timberlake com sussurros discretos. Sexy, não?

Não.

Pega a letra de “What Goes Around… Comes Around” e você vai ver que Timberlake está cantando coisas sensuais como “deveria ter sido mais esperto quando você apareceu e sabido que você ia me fazer chorar” e “você descobriu que ele está fazendo com você o que você fez comigo” (no caso, trair). Nada funciona tão bem para aproveitar um belo momento a dois como um “bem feito, babaca”, não é?

 

#9: “Slide”, dos Goo Goo Dolls, é uma canção simpática sobre aborto

Outra música bacana na lista de músicas que não entendemos é essa radiofônica canção do Goo Goo Dolls, “Slide”. Embora não seja tão famosa quanto sua irmã mais rica, “Iris”, “Slide” ganhou seu espaço nas rádios mundo afora graças ao seu tom simpático e promessas de “quero acordar onde você está”.

O que a maioria das pessoas não percebeu é o fato de que o vocalista, John Rzeznik, critica sua amada pelo aborto que ela fez. “Você não ama a vida que você matou? Seu padre está no telefone, seu pai socou a parede e sua mãe te desonrou” pode passar facilmente como a “antiga vida” que você matou, mas o próprio Rzeznik confirmou no VH1 Storytellers qual é a origem da canção: dois adolescentes católicos que se veem grávidos precisam decidir o que fazer da vida e do feto que a moça agora carrega.

Perfeita para uma divertida roadtrip, eu sei.

 

#8: “Mr. Brightside”, do The Killers, é uma música sobre homicídio doloso

E bem cruel, por sinal. Pros fãs da banda, isso não é novidade, mas se você só escuta “Mr. Brightside” na sua baladinha indie, pode ser meio chocante para você saber que “Mr. Brightside” foi composta para ser o epílogo de uma trilogia musical do The Killers sobre um homem que comete um crime passional enforcando sua amada (em “Midnight Show”) depois de ser abandonado por ela (“Leave the Bourbon on the Shelf”), tendo que se explicar para a polícia depois (“Jenny Was a Friend of Mine”).

A canção mais sanguinária dessas músicas que entendemos errado conta como o narrador acaba sendo preso, e é por isso que “Mr. Brightside” começa com o cantor “saindo de sua jaula” e buscando ver o lado bom da vida, agora que está em meio à sociedade de novo. Agora quero ver bater cabelo de boa com esse hino homicida.

 

#7: “Like a Stone”, do Audioslave, é sobre esperar a morte para reencontrar sua família

Ok, eu sei que à luz da morte de Chris Cornell essa música pode ganhar uma perspectiva mais sombria. Assim sendo, o mínimo que eu posso pedir é: caso vá cantar essa música para ser romântica, compreenda o quão sombria ela é.

É claro que isso não a torna menos bela e relevante. Sem querer deixar essa lista muito para baixo, a morte é a única certeza da vida, e a esperança de encontrar depois dela aqueles que se ama é bonita. Então lembre-se: “Like a Stone” não é sobre esperar o seu disco do Outback vibrar para entrar para jantar com sua paixão.

 

#6: “I Want it That Way”, dos Backstreet Boys, que ninguém entendeu porque não faz nenhum sentido mesmo

Se você estava vivo no início dos anos 2000, você já cantou essa música à plenos pulmões em algum momento de sua existência. Quando os Backstreet Boys começa toda charmosa na base de “você é meu fogo, meu único desejo”, você acha que a música vai para um lado.

Aí o refrão chega e nada faz sentido.

Depois de todo o romance das primeiras estrofes, a banda-sem-instrumentos me manda:

Tell me why | Me diga por que
Ain’t nothin’ but a mistake | Não é nada senão um erro
Tell me why | Me diga por que
I never wanna hear you say | Eu nunca quero te ouvir dizer
I want it that way | Eu quero isso desse jeito

Desde seu lançamento, no saudoso ano de 1999, filósofos, cientistas da NASA e pessoas bêbadas em karaokês têm se debatido com as dúvidas dessa música. Será que ele não queria que ela falasse essas coisas? Será que ele queria as coisas do jeito dele? Será que eu estou lúcido demais para estar ouvindo Backstreet Boys? Ninguém sabe. A única certeza é que essa música é garantida em toda festa que se preze, e nós queremos isso desse jeito.

 

#5: “You’re Beautiful”, do James Blunt, fala de um stalker doente e drogado

Você nunca se perguntou por que o cantor, no refrão, está cantando uma música sobre uma garota que ele só viu no metrô, sendo que ela “estava com outro cara”? Isso não é só uma paixão de busão, colega: esse cara estava doidão e, pior, ele não ia desistir de ir atrás dela.

But I won’t lose any sleep on that | Não vou perder sono com isso
‘Cause I’ve got a plan | Porque eu tenho um plano

You’re beautiful, you’re beautiful | Você é linda [duas vezes, porque é linda mesmo]
You’re beautiful, it’s true | Você é linda, na moral
I saw your face in a crowded place | Eu vi seu rosto em um lugar lotado
And I don’t know what to do | E agora não sei o que fazer
‘Cause I’ll never be with you | Porque nunca estarei com você

Então, companheiro, decide: tem um plano ou não sabe o que fazer? Se tinha alguma dúvida quanto ao estado mental desse camarada, esqueça: se na versão do rádio ele canta “flying high”, “voando alto”, na versão original ele manda um “f*cking high”, que é “drogado pra cacete”.

Doidão, cara. Doidão e stalker. Como diria o poeta Anderson Leonardo e companhia: cilada.

 

#4: “Like a Virgin”, da Madonna, não é sobre sexo

Plot twist dos grandes! Aqui a lista de músicas que entendemos errado vai na contramão do nosso podcast de duplo sentido e mostra que as pessoas com problema de mente poluída somos nós mesmos.

Originalmente pensada para ser cantada por um homem, “Like a Virgin” foi explicada pelo seu compositor como o retrato da sensação que temos ao nos apaixonarmos: como se tudo fosse fresco e novidade na vida. Olha que bonito! E você aí com o Mr. Blonde e Mr. Brown discutindo se era sobre tamanho de genitália ou moças delicadas. Seu/sua tarado/a.

 

#3: “Imagine”, do John Lennon, é o Manifesto Comunista em forma musical

E antes que você me critique, foi o próprio Lennon quem disse isso. No meio da sua imaginação de um mundo ideal, Lennon desenha o que seria uma sociedade perfeita, mas ele não se limita a isso.

Ele desenha muito precisamente a fórmula para chegar a este resultado, o qual passa, dentre outras coisas, pelo fim da religião e da propriedade privada – o pesadelo dos ricos, basicamente. Será que dá para continuar cantando felizão apesar do seu alinhamento político?

Ah, e Lennon afirmou que “Lucy in the Sky With Diamonds” não é sobre LSD. Mas isso fica para outro dia, para a “mais músicas que entendemos errado” #ad

 

 

#2: “Born in the USA”, Bruce Springsteen, fala sobre como é uma merda ser nascido nos Estados Unidos

Donald Trump decidiu, em certo momento de sua campanha, entrar no palanque ao som de “Born in the USA”. Entre debates de ter sido de maneira irônica ou não, o fato é que ninguém nos Estados Unidos entende o que está sendo cantado em “Born in the USA”.

Por mais que o título possa despertar um impulso patriota (como você pode ver no vídeo abaixo, enquanto bandeiras tremulam), a letra fala sobre a desgraça e as perdas da Guerra do Vietnã. Certamente você ir para a guerra, perder o seu amigo e voltar para casa, só para não ter um emprego… Não é exatamente a música que você quer como seu hino nacional.

 

#1: “Winds of Change”, Scorpions, que achamos que é romântica

Dentro dessa nossa lista de músicas que entendemos errado, essa talvez seja a canção mais mal-interpretada de toda a nossa história desde que Dom Pedro cantou “você me dá sorte” à beira do Rio Ipiranga e as pessoas confundiram a música do Caetano Veloso com um grito de independência. Canção que embalou muitos casais desde 1991, “Winds of Change” é qualquer coisa menos romântica.

I follow the Moskva | Eu sigo o Moskva [rio russo]
Down to Gorky Park | Até o Parque Gorky
Listening to the wind of change | Ouvindo o vento de mudança

Mas só porque a música tinha uma melodia mais charmosinha, várias pessoas se amassavam cegamente no escuro, considerando aquela canção o hino de seu amor, quando Klaus Meine só falava como a glasnost era boa e como o fim da União Soviética trazia mudanças para o Leste Europeu.

Sim, você basicamente estava se pegando ao som de uma aula de geografia.

De qualquer forma, assim como as demais músicas, dificilmente essa aqui vai deixar de ser seu “olha, amor, a nossa música!” só por causa disso, mas minha contribuição para a sua vida é: na próxima vez que você trocar olhares com a pessoa objeto de seu desejo e você ouvir o belo assobio que inicia essa canção, saiba que isso pode significar tanto um grande amor quanto várias pessoas passando fome e frio após a falência de um regime cruel.

De nada.

*

E você? Quais são as músicas que entendemos errado a vida inteira e que mais te marca? Conta para gente no nosso grupo do Telegram ou aqui embaixo.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.