Lista #15 – Samba Meu: Nem Ruim da Cabeça, Nem Doente do Pé

Sabe aquele encantamento e intimidade que você desenvolve com um lugar, mesmo sem nunca ter ido lá? Foi assim que surgiu o Dia Nacional do Samba, conforme a versão mais difundida sobre a origem da data. A escolha do dia 02 de dezembro foi para homenagear a ocasião em que Ary Barroso visitou a terra da felicidade pela primeira vez, aquela que não conhecia de fato, mas que não saía de seu pensamento desde quando fez a canção “Na Sola do Sapateiro”: a Bahia (ô Bahia…).

Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”, o maior “samba-exaltação” de todos, conseguiu realizar seu desejo de chegar à Bahia de seus sonhos em 02 de dezembro de 1940 e, a partir de 1963, o Dia Nacional do Samba foi instituído. E foi justamente na Bahia que surgiu o embrião do samba, derivado de danças e ritmos africanos. Os primeiros registros do samba de roda datam de meados do século XIX, já com muitas das características que permaneceram até os dias de hoje. Inclusive, em 2004, o samba de roda do recôncavo baiano foi registrado como Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), além de ser declarado Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 2005.

A partir do final do XIX, após o fim da escravidão e a fundação da República, houve o movimento de migração de negros do nordeste para o Rio de Janeiro, os quais entraram em contato com os também escravos libertos do estado do Rio, que saíam das fazendas do interior em rumo ao meio urbano, ainda em formação. Após muitos encontros e trocas culturais nas casas das “tias” – como no requisitado quintal de Dona Ciata -, o samba foi se formando e incluindo influências de outros gêneros musicais populares entre os cariocas, como a polca e o maxixe. Falando em maxixe (sem sanduíches), a primeira canção de samba registrada na história tinha grande influência daquele gênero musical e, em 1916,  Ernesto dos Santos (mais conhecido como Donga) imortalizou na Biblioteca Nacional a canção “Pelo Telefone”, que seria o primeiro grande sucesso do samba.

Cartola 1979

Passando pelos poetas do Estácio e da Mangueira, pela Vila Isabel de Noel Rosa e por muitos outros cenários, o samba urbano passou por muitas transformações ao longo de quase um século, tornando a cidade ainda mais maravilhosa, além de expandir-se para todo o país . Samba-rock, samba de breque, samba de partido alto, samba-enredo  e samba-canção são apenas alguns dos muitos subgêneros que foram surgindo, sem contar os híbridos contemporâneos, como os sambas chorados.

Aproveitando que 2016 será o ano do Centenário do Samba, o PontoJão selecionou dez canções para celebrar esse gênero que, mais que um ritmo musical, é parte da história viva e pulsante do Brasil.

Vale lembrar que não há pretensão alguma de escolher “as dez melhores” ou “os dez melhores artistas” (pff… Quem sou eu?! Não ousaria) e que as músicas estão apresentadas sem ordem de preferência. Obs.: Ao final, uma playlist com todas as músicas!

1 – “Samba da Minha Terra” – Dorival Caymmi:

Como boa sujeita que sou, escolhi esse samba cheio de malemolência para iniciar a lista e como inspiração para o título desse texto. A voz firme e o jeito de cantar suave de Caymmi caem como uma luva nessa faixa criada pelo próprio, a qual foi gravada pela primeira vez pelo grupo Bando da Lua. Fala como o samba faz parte da vida de Caymmi e de como é difícil entender quem não gosta nem um tiquinho dessa maravilha, afinal, “Quem não gosta de samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça/Ou doente do pé”.

 

2 – “Juízo  Final” – Nelson Cavaquinho:

Esse tijucano de nascimento teve o apelido “Cavaquinho” incorporado ao nome enquanto ainda era bem jovem. Depois de ter contato com as músicas de choro na Gávea, Nelson Cavaquinho fez história no Morro da Mangueira ao lado de sambistas incríveis, sendo Cartola um deles. Em parceria com Élcio Soares compôs “Juízo Final”, um de seus maiores sucessos, lançada em 1973 em seu álbum homônimo. Nessa música podemos perceber uma linha melódica muito rica, marca registrada de suas composições. O típico lamento de suas canções também está presente,  mas de uma forma diferente, pois mesmo em meio às turbulências o eu lírico consegue vislumbrar a possibilidade de tempos melhores, com o triunfo do Bem sobre o Mal e o Sol anunciando a eternidade do amor. (link indisponível para celular)

 

3 – “Mas Que Nada” – Jorge Ben Jor:

Em 1963, surgiu a figura de Jorge Ben (posteriormente Jorge Ben Jor) com uma proposta que não era nem bossa e nem samba tradicional. Era Ben Jor armando seu esquema inovador, mais especificamente seu ótimo primeiro álbum “Samba Esquema Novo”. “Mas Que Nada” abre o álbum com o violão aguçadamente rítmico de Jorge e seu jeito de cantar intimista, perpassando o samba, o rock, o jazz e o funk, sem esquecer do maracatu, claro – adicione a isso tudo muito suingue e sensualidade. A canção fez um estrondoso sucesso e foi o primeiro dos muitos convites que Jorge Ben Jor fez aos seus interlocutores para arrastar os pés no chão. Ah, e como é bom sambar ao som de Jorge Ben Jor! E com um samba como esse tão legal, você não vai querer que ele chegue no final. (link indisponível para celular)

 

4 – “Agoniza Mas Não Morre” – Nelson Sargento:

Enteado de Alfredo Português, um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, Nelson Sargento teve contato com o samba desde cedo e tornou-se uma das principais vozes da história do samba. Isso, pois além do seu vasto repertório de mais de 400 canções, Nelson sempre fez questão de reafirmar o samba como uma das principais manifestações da música popular brasileira, e “Agoniza Mas Não Morre” sintetiza justamente esse esforço.  A canção de arrepiar, fala da perseguição sofrida por quem fazia samba, seguida da apropriação do gênero por parte da elite, para depois sofrer com o esquecimento desta por conta da “invasão” das músicas estrangeiras. Uma música que virou símbolo de resistência social e cultural, além de um atestado de que o samba nunca morrerá.

 

5 – “Foi Um Rio Que  Passou Em Minha Vida” – Paulinho da Viola:

Não tem como retratar a história do samba sem falar desse artista incrível de canto manso, marcante, repleto de elegância e com uma vasta carreira que vem nos garantindo várias preciosidades. Se na genial “Bebadosamba” Paulinho criou uma verdadeira enciclopédia do gênero nos aconselhando a beber das melhores fontes, ao compor “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida” ele fez uma de suas maiores obras em um contexto bem curioso. Paulinho compôs ao lado de Hermínio de Carvalho o belo samba “Sei Lá Mangueira”, algo que causou uma ciumeira na Portela, sua escola do coração. Para apaziguar os ânimos, Paulinho compôs “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”, como a declaração definitiva ao seu amor azul e branco. E foi assim que Paulinho resolveu diplomaticamente a pendenga e, de quebra, presenteou a todos nós com essa linda obra.

 

6 – “De Qualquer Maneira” – Candeia:

Outro portelense que fazia samba de todo tipo, além de ser mestre em partido-alto (subgênero  com improvisos sobre um refrão fixo). Com versos certeiros e cheios de lirismo, Candeia cantava sobre a necessidade de o negro se orgulhar e se afirmar na sociedade, como em “Dia de Graça”, e militava pela cultura do samba. A emocionante “De Qualquer Maneira” faz parte do álbum “Filosofia do Samba” (1971)  e foi lançada em uma apresentação histórica no  Teatro Opinião. A canção foi a melhor forma que Candeia achou de expressar sua dor e poder desabafar (anos antes havia ficado paraplégico), além de atestar seu amor incondicional ao samba nos versos: “Quem é bamba não bambeia/Falo por convicção/Enquanto houver samba na veia/ Empunharei meu violão”.

 

7 – “A  Voz do Povo” – João do Vale:

Maranhense radicado no  Rio de Janeiro, João do Vale cantava sobre o cotidiano com simplicidade e poesia. João do Vale foi um sertanejo que, ao ter contato com o cenário musical carioca, pegou o samba emprestado para incorporar à sua expressão e emprestou o baião ao samba. O samba “A Voz do Povo” abre lindamente seu álbum de estreia “O Poeta do Povo”, que tem forte importância política e social. Assim como “Carcará” e “Pra Mim Não”, a canção “A Voz do Povo” dá espaço ao oprimido, para que este critique abertamente a desigualdade social e suas crueldades, reconhecendo no samba um grande aliado. E foi assim que esse grande poeta de pouquíssimo estudo mandou o recado de que o povo deve buscar romper o silenciamento de sua voz. Indispensável.

 

8 – “Estação Primaveril” –  Monarco:

Grande figura da Portela desde a mais tenra idade, Monarco foi convidado a integrar a ala de compositores da escola já na adolescência e hoje em dia é patrimônio absoluto da Velha Guarda. Poderia escolher dentre vários clássicos do vasto repertório interpretado por Monarco, mas um álbum tão recente  e cheio de inéditas de figura tão ilustre deve ser apreciado com atenção. Lançado em 2014, o ótimo álbum “Passado de Glória – Monarco 80 anos” nos brinda com a bela “Estação Primaveril”, uma canção bucólica que coroa delicadamente a primavera com o título de estação do amor. A participação da voz inconfundível de Marisa Monte arremata com perfeição a sutileza da faixa.

 

9 – “Sonho Meu” –  Dona Ivone Lara:

Ainda jovem, a futura dama do samba Dona Ivone Lara foi regida pelo grande maestro Heitor Villa-Lobos no Orfeão dos Apinacás. Posteriormente, as aulas de cavaquinho com seu tio Dionísio Bento colocaram Ivone de vez na música e no samba e, em 1965, ela entrou para a ala de compositores da escola Império Serrano, até então exclusivamente masculina. O grande sucesso “Sonho Meu” surgiu de uma inspiração repentina de Ivove com os primeiros versos, que evocam a saudade do que se deseja. Terminou a letra com Délcio Carvalho e depois criou a melodia que conferiu o clima suave de um sonho acordado, que, mesmo sendo muito idealizado, pode impulsionar a busca de real liberdade.

 

10 –  “Inverno do Meu Tempo” – Cartola:

Admiro tanto o genial poeta e sambista Cartola, que escolher apenas uma música sua para uma lista torna-se quase um suplício. Temos o mesmo sobrenome, nossos aniversários são separados por um dia, e sinto que sua arte aproximou nossos corações (o meu e o de muitos outros admiradores). A contribuição desse Mangueirense para a MPB é incalculável, com diversas maravilhas, como “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho”, “Sala de Recepção” e “O Sol Nascerá”, indo desde sambas-canção (seus preferidos) até sambas corridos  – tudo com uma beleza ímpar. Estou trapaceando agora, então creio que a solução seja falar novamente dele por aqui, em outra ocasião, embora nunca se precise de pretextos para falar de Cartola. Por ora, deixo “Inverno do Meu  Tempo”, uma linda canção que marcou o inverno da vida do Mestre Cartola; depois de muitos caminhos tortuosos, ele chegou ao final de sua trajetória rodeado de amor. Pareço começar do fim, mas, na verdade, trata-se de um registro da confirmação de sua imortalidade.

Samba é euforia, lágrima, sofrimento e regozijo, tudo ao mesmo tempo. Espero que tenha gostado dessa pequena viagem nesse universo tão importante da identidade brasileira.

Se quiser cair no samba, ou apenas marcar o ritmo com sua caixinha de fósforos, é só conferir nossa playlist.

Até mais!

Playlist PontoJão no YouTube

Bônus:

Para o pessoal que mora no Rio de Janeiro, a Caixa Cultural está apresentando (até o dia 13/12) a mostra de cinema “O Samba Pede Passagem”. Confira a programação.

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