Liga da Justiça (2017): como a DC fez jus aos herois que tem

É difícil dizer o que esperávamos de “Liga da Justiça” à essa altura. Um marketing deplorável, designs duvidosos e um histórico incerto da DC gritavam mais alto do que o fato de que esses são os maiores herois da cultura pop. Ícones significativos como a Mulher-Maravilha e o Superman – ainda mais juntos – mereciam um filme que os elevasse à posição quase de deuses que eles já têm na sociedade. Então vamos tirar isso logo do caminho: “Liga da Justiça” não é um filme à plena altura de seus herois, com falhas bobas e parecendo ser feito às pressas. Ainda assim, faz justiça aos semideuses – e milionários – ao alinhar suas personalidades e finalmente colocá-los na posição para a qual eles nasceram: serem símbolos.

liga da justiça

Título: Liga da Justiça (“Justice League“)

Diretor: Zack Snyder

Ano: 2017

Pipocas: 8,5/10

Quanto ao filme em si, é basicamente o que você já viu em outros lugares mesmo. Temos mais piadas – poucas, das quais Barry Allen/The Flash (Ezra Miller, “Precisamos Falar Sobre Kevin“) se encarrega com sucesso -, um tom mais leve, boa ação, efeitos de computação gráfica de gosto tão duvido quanto seu roteiro e uma história que é basicamente retirada de uma HQ: herois se unem em torno de uma ameaça espacial. O filme é isso; ame-o ou o odeie, ele claramente nunca se pretendeu a ser mais do que isso, e reclamar que uma adaptação de quadrinhos tem uma história digna de quadrinhos é reclamar de água que molha.

Ainda assim, é um filme adorável.

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Isso não significa que o filme não tenha defeitos, porque ele tem, e muitos: do já citado CGI ao fato do Batman agora ser super-amigo do Superman e sentir mais falta dele do que a mãe (Martha!), passando pela trilha sonora esquecível e a trama convoluta. A questão de gostar ou não de “Liga da Justiça” se dá por ele ser tão divertido que somos capazes de relevar grande parte dos problemas do filme pela simples força de seu carisma. Isso, por sua vez, não reside somente nas piadas; não é pelo fato de Bruce e Alfred trocarem farpas ou porque o Superman finalmente sorrir que isso acontece.

O que faz “Liga da Justiça” ser um filme adorável é o fato de que a Warner finalmente descobriu, com o excelente “Mulher-Maravilha“, como fazer superherois serem carismáticos. A longevidade dos herois da DC na cultura pop se dá porque eles são capazes de inspirar sentimentos diversos, como coragem, justiça e esperança, e é impossível inspirar qualquer coisa se você não consegue gerar simpatia no público. Assim, não há nada essencialmente errado com “Homem de Aço”, como filme, por ele ser obscuro e cinzento. O caso é que, em tal ambiente, o Superman jamais poderia ser o Superman.

Daí veio “Mulher-Maravilha”, e a DC notou que poderia contar, sim, uma história com peso dramático – com mortes e pesos reais – sem tornar seu filme uma demonstração de quantos tons diferentes de cinza o Snyder conseguia na pós-produção. A Guerreira Amazona provou, de uma forma paradoxal, que era preciso ser simpático para inspirar, e que para inspirar precisava ser simpática. Então ela foi e se tornou ambos: a heroína que todos precisavam e a amiga que todos queriam ter.

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Enquanto “Liga da Justiça” emula isso, ele funciona. O Superman, principalmente, é discutivelmente o maior acerto do filme: após passar pela última etapa de sua cristificação, Superman volta dos mortos, gera alguns minutos (completamente dispensáveis) de briga com seus colegas de firma e logo se reencontra nos braços de Lois Lane. A partir daí, finalmente aparece o Homem de Aço que há tanto tempo queríamos ver – o mesmo que encantou toda uma geração em 78. Um Atlas moderno que, apesar de sentir o peso do mundo em suas costas, claramente se diverte em ser quem é.

É por esse caminho que também segue o Aquaman/Arthur Curry de Jason Momoa. Mais uma vez provando que não se precisa de piadas para se ter carisma, o Aquaman de Momoa ganha a simpatia do público pela imposição bruta de seu temperamento peculiar e porque, assim como o Azulão, está se divertindo muito enquanto salva o mundo dos mortais. Se alguém conseguiu não gostar dele até o momento que ele salta comemorando sobre um alienígena e termina surfando ele prédio abaixo, dificilmente conseguiu se manter indiferente quanto ao Rei dos Mares depois disso.

Se por um lado o Flash se destaca, chamando para si a responsabilidade quanto ao humor do filme, o Ciborgue amarga exatamente o problema clássico da DC no cinema: falta de carisma. O Flash é o engraçado, o Aquaman é o badboy, a Mulher-Maravilha é a guerreira brilhante, o Superman é o quarterback popular, o Batman é o playboy ranzinza e o Ciborgue… É o hacker da equipe. Não resta para ele nenhum traço marcante que não seja seu poder aplicado, de forma que ele contribui muito pouco para a dinâmica da equipe, e nos faz lembrar do motivo pelo qual “Batman vs Superman” foi o que foi.

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Com tudo dito e feito, é importante ressaltar mais uma vez que “Liga da Justiça” não é um erro escabroso como foi “Esquadrão Suicida“, nem uma questão puramente de gosto como foi “Batman v. Superman – A Origem da Justiça“. O longa tem pontos que funcionam muito bem, bem como tem um ar de mal acabado e cenas desconexas que enfraquecem o filme – como a cena do Aquaman com o laço da verdade, que soa constrangedora por ter nada a ver com o tom mostrado até ali. Porém, mais do que um filme que certamente dividirá opiniões por se basear principalmente em seu carisma, “Liga da Justiça” é uma declaração que a DC faz quanto aos herois em seu panteão: nós sabemos do que eles são capazes. Nossos símbolos vivem.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.