Comentário | Leitura, excesso de informação e sobrevivência

Com tanto conteúdo midiático circulando o tempo todo, em todos os lugares e para praticamente todas as pessoas, a leitura tornou-se algo quase inconsciente — passamos o dia inteiro visualizando mensagens, postagens, correntes, manchetes, tuítes e mais o que vier pela frente (numa tela ou não) e, na verdade, mal percebemos que estamos fazendo pequenas leituras. Aliás, muito do que é recebido/visto acaba sendo massivamente comentado, compartilhado e acrescido de mais um pedaço de texto, que dará continuidade ao processo narrado no início deste parágrafo.

Por leitura, entendemos, na maioria das vezes, o tempo dedicado a decodificação das letras de um texto qualquer. Mas o ponto aqui (e talvez de todo o site) é enxergar leitura como algo que vai além de simplesmente decodificar letras do alfabeto em um determinado idioma para produzir algum sentido.

Qualquer prática comunicativa, a leitura inclusive, envolve três partes: um enunciador (quem fala/escreve), uma mensagem (o que é falado/escrito) e um enunciatário (quem ouve/lê).  Assim, aquilo que é dito/escrito pode chegar ao destino de maneira mais ou menos direta – a depender de quem estiver enunciando, seus interesses e os resultados pretendidos, além, é claro, dos meios usados para transmitir as ideias e a capacidade de compreensão do enunciatário.

Levando em consideração o fato de que é completamente intangível tentar comunicar algo de que não se tem conhecimento (no sentido literal de “não saber”), é possível dizer que a comunicação sucede algum tipo de conhecimento, mesmo que instintivo ou involuntário. Tendo consciência disso, qualquer pessoa pode pensar para além da mensagem que está sendo dita e analisar também suas motivações e implicações. Enfim, em determinadas circunstâncias, comunicar-se pode ser um tiro certeiro ou no escuro.

Nesses casos, “ler” precisa transcender a mera barreira das letras e sons que se juntam para formar palavras, frases, parágrafos e textos complexos com significados diversos. Os objetivos do comunicador são parte intrínseca da mensagem e nem sempre quem está falando quer que você esteja totalmente ciente de tudo o que está sendo dito, principalmente se houver persuasão em jogo, ou o estímulo a tomar uma decisão “por conta própria”.

leitura

Com o turbilhão de fake news e a pós-verdade se tornando um conceito cada vez mais internalizado para as pessoas (involuntariamente inclusive), ler direito pode ser a diferença entre entender a realidade tal qual ela é, no que há de mais incrível e miserável, ou enxergar apenas o que se quer ver, ouvir apenas o que deseja ouvir e falar apenas para quem pensa da mesma maneira. Na melhor das hipóteses, isso garante uma pacata vida dentro da Matrix, mas sabemos que, eventualmente, o trem da realidade pode descarrilar totalmente em cima de nós.

Buscar verdades absolutas parece antiquado e absurdo, mas a alternativa a isso é aceitar qualquer coisa como real.

Qualquer coisa(!).

 

The following two tabs change content below.
Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.