Comentário: La La Land: Cantando Estações (2017) e o preço dos seus sonhos

Um viva aos tolos que sonham.”

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Título: La La Land: Cantando Estações (La La Land)

Diretor: Damien Chazelle

Ano: 2017

Pipocas: 10/10

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers leves do filme.

Damien Chazelle, diretor de “Whiplash“, nos presenteou com outro filme excelente, e não há mais adjetivos com substância, ou substantivos adequados, que já não tenham sido usados para descrever o último trabalho do diretor. Concluindo na introdução, “La La Land: Cantando Estações” é um filme dirigido com tamanha maestria que mesmo que não tivesse excelentes músicas, atuações e roteiro continuaria sendo um longa memorável. Dividido em quatro estações, o filme aborda quatro assuntos igualmente relevantes – seja para o cinema, para a sociedade, ou para você, caro leitor, que passa as linhas deste texto buscando algo que não se pode achar.

Mas ainda bem que o tempo passa independente dos nossos anseios – e é assim que nos vemos nas quatro estações de “La La Land”.

Inverno: As Dificuldades de Se Manter Firme Sem Perspectivas

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Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) se esbarraram algumas vezes antes de se conhecerem de fato, e estes encontros não foram nada agradáveis. Mia passara por mais uma de suas incontáveis rejeições na busca por um papel na sua incipiente carreira de atriz; em seu último teste, fora interrompida bruscamente em meio à sua cena, sem chances de se recuperar. Agarrando-se a fiapos de esperança, ela tritura, bate e serve café no estúdio da Warner Bros., em Los Angeles, enquanto espera e busca por sua grande chance.

Sebastian não está muito melhor, devo dizer. Pianista profissional, Seb tocava num lendário clube de jazz na cidade, o qual se transformou num bar-restaurante, que serve samba morno e comida mexicana fria para seus clientes. Frustrado, e agarrando-se ao seu amor pelo jazz, ele risca, volta e decora discos clássicos enquanto ainda precisa tocar canções natalinas para fazer suas contas fecharem no fim do mês.

Quando Mia e Sebastian finalmente se conhecem, não veem um no outro pessoas – pelo menos não inicialmente. Por um lado, calejada e forjada nas negações recorrentes que recebeu em seus testes, Mia encontra na paixão pela música que Sebastian possui uma chama que ela não via mais naqueles que a cercavam – e que havia se apagado principalmente nela mesma. Ela se apaixonou por um rebelde com causa.

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Sebastian, por outro lado, encontrou no potencial dramaturgo de Mia – puro e bruto – a promessa de futuro que já não conseguia ver da janela empoeirada do seu apartamento entulhado. Ela era a perspectiva que ele havia perdido nas desilusões que a vida impôs, apesar de ela mesma se ver sem perspectiva quanto à sua ainda não iniciada carreira.

Ainda assim, os dois subsistem. Entre cafés e gorjetas, Mia e Sebastian se mantiveram firmes até aquele momento em sua busca por seus sonhos, exatamente por saberem o motivo pelo qual enfrentavam aquelas intempéries. Sofrer sem propósito é insuportável; sofrer com um objetivo é martírio. No inverno de suas carreiras e perspectivas de futuro, Mia e Sebastian foram capazes de perseverar e ver o que a próxima estação tinha para eles.

Primavera: Os Sucessos dos Nossos Fracassos

Nossas definições de sucesso e fracasso são meio absurdas, convenhamos. Se você não alcança um objetivo seu que lhe faria mal, isso é um fracasso? Ou seria sua falha um sucesso? Da mesma forma, se você é bem-sucedido em algo que lhe é danoso, não seria isso um fracasso?

Sebastian e Mia fracassavam nos seus projetos de vida, e foi isso que fez com que se encontrassem e se apaixonassem como fizeram; caso tivessem conquistado o que buscavam em algum momento anterior de suas vidas, não teriam travado olhares naquele restaurante genérico num natal qualquer.

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Inclusive, Sebastian parece saber disso. Anacrônico de propósito, com seu carro de painel de madeira e toca-fitas, terno marrom e vocabulário que provavelmente lhe foi transmitido por telegrama, Seb valoriza a mediocridade na qual se encontra; suas limitações o fazem lembrar daquelas que seus ídolos do jazz possuíam. Se não se sente par com eles no talento, pelo menos ele o sente em sua história de vida: Sebastian se vê como um heroi da pureza da música, mesmo que isso precise lhe custar o mínimo conforto na vida – ou seja, pagar suas contas básicas.

De uma maneira irônica, Sebastian bebe de seu fracasso como se este fosse sucesso. Mia, no entanto, não tem essa visão idealista do seu mundo – pelo menos não agora -, então se refugia no sucesso relativo que Sebastian tem no universo que construiu para si.

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Para nós, que estamos fora do musical, e que normalmente não nos comunicamos com músicas (embora eu chegue bem próximo disso, admito), o conceito se mantém quase intacto, mesmo fora da tela prateada do cinema. Com uma geração dividida entre o conforto da tecnologia e o desespero inerente à vida nas cidades, nossos padrões de sucesso e fracasso são desafiados diariamente. Quando o rapaz larga a “carreira promissora” na metrópole em prol de uma vida simples no interior, nos perguntamos se ele é brilhante ou louco; quando a moça abandona o curso de idiomas para fazer aulas de pintura – mesmo não tendo dote artístico algum -, não sabemos dizer se ela é iluminada ou idiota. Nossas definições de sucesso estão sendo atualizadas com frequência, enquanto o medo do fracasso nos infecta como um vírus invasor.

Quando o peso da frustração nos atinge, após exigirmos muito de nós mesmos, é mais fácil ceder às tentações do verão, e nos apoiar em expectativas mais atingíveis para nós, muitas vezes propostas por pessoas que amamos.

Verão: O Perigo de Dar o Que Não Nos Foi Pedido

O erro disso consiste no fato de que você se propõe a mudar pelo outro e não por si. Você se acomoda e, com isso, a responsabilidade de seus atos são projetados para alguém que nunca lhe pediu nada, e você se exime de culpa do único fracasso real: não tentar.

Mia nunca pediu que Sebastian se juntasse a uma banda que vai contra o que ele acreditava, principalmente por ela amá-lo por seus princípios. Assim como a multidão a afastou dele durante seu show, quanto mais Sebastian se sentia confortável em ser a estrela pop que se tornava, mais Mia gravitava para longe dele. Ao ser confrontado com o fato de que abandonara quem era, e o que era importante para si, em prol do conforto do dinheiro fácil em algo que detestava, Sebastian reage e projeta em Mia o desgosto que vinha da contradição que ebulia nele.

Sebastian a responsabilizou por ter dado à Mia algo que ela jamais havia pedido.

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Assim, o sol de verão raiava sobre Los Angeles, mas as perspectivas brilhantes de agora obscureciam frente à felicidade de tempos passados, menos abastados. Mia finalmente conseguiu subir aos palcos e mostrar o que havia de melhor em si, como dramaturga e atriz, mas não havia quem a assistisse – não quem ela queria, pelo menos.

Como muitos antes dele, Sebastian viria a descobrir que ao dar o que não é pedido, muitas vezes nos furtamos de entregar o que de fato é necessário.

Outono: O Preço de Todos os Nossos Sonhos

Assim sendo, quando perdemos aqueles por quem sonhávamos, nos restam somente os sonhos em si. Desiludidos nas expectativas desonestas que projetaram um no outro, agora Mia e Sebastian conversam do lado de fora do Planetário – em plena luz do dia, aquela que mostra as coisas com clareza, em vez de estarem sob as promessas noturnas das estrelas. Ali, enxergando tudo com precisão, decidem que partirão em caminhos diferentes, apenas por escolha própria; Sebastian poderia ir para Paris com ela, visto que “o jazz de Paris é muito bom”, e em sete meses estaria de volta, e resumiria seu sonho.

Mas havia um momento, e o momento era agora. Além disso, há a consciência em Seb de entender que, caso ele a acompanhasse, o foco dela seria dividido entre a grande oportunidade de sua carreira e o amor que sentia por ele. Naquele momento, ambos decidiram pagar o preço pelos seus sonhos. Mia Dolan se tornaria um nome estrelado em Hollywood, e Seb’s seria um dos clubes de jazz mais prestigiados de Los Angeles… À custo do relacionamento que tinham.

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Acaba sendo tudo uma questão de prioridade, no fim das contas. Cálculos instintivos são feitos, e decisões são tomadas baseadas neles. “Eu sempre vou amar você”, sussurram, mas isso não foi suficiente para que abrissem mão do que sempre quiseram. “A vista é linda daqui”, dizem, mas a câmera nunca nos mostra o que eles veem, e percebemos que, quanto ao futuro, enxergamos tanto quanto eles naquele momento.

E sempre há de ser assim. Muitas vezes precisaremos decidir entre o que sempre quisemos e o que queremos agora; podemos seguir o que sempre quisemos e descobrir que tudo aquilo é insuficiente, e nos perguntarmos sempre como seria se tivéssemos agarrado a outra oportunidade. Podemos, também, aceitar a chance momentânea e ver nosso sonho de décadas afundar lentamente, e nos perguntarmos diariamente se aquela foi a decisão certa.

O fato é que, enquanto as estações se alternam e os anos passam, seremos obrigados a conviver com as consequências das nossas escolhas.

Cantando Estações

E é sobre isso que se trata “La La Land: Cantando Estações”: sob a camada de direção espetacular de Chazelle, com seus ângulos impossíveis e seus planos-sequência virtualmente infinitos; sob a atuação e química excelentes de Emma Stone e Ryan Gosling; sob as músicas inebriantes e as cores coreografadas com perfeição… “La La Land” canta e versa sobre o fato de que precisamos lidar com as consequências de nossos sonhos, seja ao abrir mão deles ou abraçá-los.

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Embalado em uma carta de amor aos musicais e ao cinema, como um todo, “La La Land” fala sobre a frustrante limitação humana de não ser capaz de ver o futuro. Enquanto vemos tudo-o-que-poderíamos-ter-sido se revelar a nossa frente, somos atingidos pela percepção óbvia, mas dura, de que jamais seremos aquilo, e que precisamos conviver com isso – mesmo que isso nos force a sobreviver como tolos, sonhando novos sonhos que certamente não serão como os antigos, e saciarão todos os nossos anseios, sem nos deixar dúvidas.

Com isso, só nos resta um brinde: um viva a todos os tolos que sonham.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.